Você (Brasil e Portugal)


Já parou para pensar que o comumente “você” utilizado no Brasil pode ter uma aplicação um pouco diferente em Portugal? Sabemos que o pronome de tratamento “você” é utilizado para se referir a segunda pessoa (com quem se fala), mas ele recebe a conjugação verbal na terceira pessoa. Isso acontece, pois existe uma segunda pessoa indireta.

A segunda pessoa indireta será considerada quando pronomes que indicam o nosso interlocutor, ou seja, a pessoa com quem falamos, a segunda pessoa do discurso, entretanto, ao invés de apresentar verbos conjugados na segunda pessoa do discurso, realiza a construção textual por meio da terceira pessoa do discurso. Temos essa situação com os pronomes de tratamento.

Em algumas regiões do Brasil, o pronome de tratamento “você” ganhou estatuto de pronome pessoal, e nessas áreas houve quase uma extinção do uso do “tu” e do “vós”. Na maior parte do Brasil, o “você” é a forma mais comum de se dirigir a qualquer pessoa, é claro que para as pessoas mais velhas ou em situações formais, superiores hierárquicos ou autoridades, nós utilizamos os pronomes de tratamento, “senhor” ou “senhora” e as suas variações de número.

É nesse quesito que encontramos a diferença do pronome “você” entre Portugal  e Brasil, porque esse pronome em Portugal é uma forma de tratamento semi-formal, então nas situações de informalidade que no Brasil chamamos a pessoa de “você”, em Portugal seria como se num contexto informal você estivesse tratando a pessoa tal qual nós aplicamos o senhor/senhora no Brasil.

Dependendo do contexto, isso não pega muito bem, apesar de que os Portugueses já sabem como nós utilizamos o “você” e entendem que é a nossa maneira informal de se dirigir a alguém. E esse “você”, de maneira informal, não é exclusivo da língua portuguesa falada no Brasil, outros países lusófonos também o utilizam de maneira informal. E como existem muitos imigrantes desses países vivendo em Portugal esses conterrâneos já conhecem essa nossa prática com o termo “você”.

Uso dos pronomes pessoais e formas de tratamento
1.ª pessoa singular Eu falo
2.ª pessoa singular Tu falas Brasil (algumas regiões): pouco usado

Portugal: informal

3.ª pessoa singular Ele/Ela

Você

O senhor/A senhora

A gente

fala Você no Brasil: informal

Você em Portugal e algumas regiões brasileiras: semi-formal

O senhor/A senhora: sempre formal

A gente: sempre informal

1.ª pessoa plural Nós falamos
2.ª pessoa plural Vós falais Brasil: não se usa

Portugal: usa-se (pouco) nos dialectos setentrionais e galegos

3.ª pessoa plural Eles/Elas

Vocês

Os senhores/As senhoras

falam Vocês: sempre informal

Os senhores/As senhoras: sempre formal

Se, por exemplo, você precisar escrever algum texto publicitário é fundamental conhecer essas diferenças, e aplicá-las no contexto correto, seja ela formal ou informal. Além disso, é primordial produzirmos um texto ou enunciarmos utilizando a Uniformidade de Tratamento, ou seja, quando escrevemos ou nos dirigimos a alguém, não é permitido mudar, ao longo do texto, a pessoa do tratamento escolhida inicialmente. Assim, por exemplo, se começamos a chamar alguém de “você”, não poderemos usar “te” ou “teu”. O uso correto exigirá, ainda, verbo na terceira pessoa.

Por exemplo:
Quando você vier, eu te abraçarei e enrolar-me-ei nos teus cabelos. (errado)
Quando você vier, eu a abraçarei e enrolar-me-ei nos seus cabelos. (correto)
Quando tu vieres, eu te abraçarei e enrolar-me-ei nos teus cabelos. (correto)

Algumas observações sobre o modo como se dirigir a segunda pessoa do discurso, num contexto informal no Brasil:

  • Apesar do pouco uso do pronome tuno português falado na maior parte do Brasil, o seu correspondente pronome oblíquo te ainda é amplamente utilizado no português brasileiro, frequentemente em combinação com formas pronominais e verbais de terceira pessoa. Apesar de comum mesmo entre falantes escolarizados, o uso de te com você é condenado pelas gramáticas normativas usadas nas escolas brasileiras e é evitado na linguagem formal escrita.
  • O pronome possessivoteu também é ocasionalmente usado no português brasileiro para referir-se à segunda pessoa, embora seja menos comum do que o oblíquo te.
  • A combinaçãovocê/te/teu no português brasileiro falado assemelha-se em natureza à combinação vocês/vos/vosso encontrada requentemente no português europeu coloquial.
  • Otu é amplamente utilizado nas regiões norte  e sul, mas conjugado requentemente na 3ª pessoa do singular: Tu fala, tu foi, tu é. Em algumas regiões do Norte e do Nordeste, o uso do tu na forma culta (conjugado na 2ª pessoa do singular) é até bem mais usado que o você.
  • Em alguns lugares da região Sul e em praticamente todo o Nordeste, o tratamento portu é mais comum, usando-se os pronomes pessoais oblíquos de forma mais consistente (p.ex. para ti, com o mesmo significado que teria para você).
  • Em parte da região sul e do Nordeste, muitas vezes conjuga-se o pronome pessoal tu com a mesma forma utilizada na 3ª pessoa do singular do pretérito imperfeito do subjuntivo para referir-se ao pretérito perfeito do indicativo. Ex: Tu fizesse isso? Tu comesse no bar ontem?

 A gente se vê,

Jessica Marquês.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *