ORANGE IS THE NEW BLACK

Imaginar-se privada de sua liberdade, a mercê das vontades de outros, à espera de 15 meses debaixo de outras regras, regras estas muito mais divididas e demarcadas por questões que há tempos lutamos para serem diferentes. Os grupos formados por características históricas, sociais e étnicas semelhantes são invariavelmente colocados em evidencia a cada escolha e a cada passo que se decide dentro desse ambiente. As divisões raciais são muito mais claras e evidentes. Não sabia que era assim!

Um pouco dessa divisão é possível de se ver em uma das séries aclamadas da Netflix Orange is the new black em que se conta a história de Piper Kerman, uma balzaquiana condenada a 15 meses de reclusão pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, pois carregou uma mala recheada de dinheiro relacionado ao crime de um país a outro Com a possibilidade de acompanhar não apenas a história da protagonista, mas de nos deixar levar pelas pessoas reais por detrás de cada uma daquelas personas, a série é muito feliz ao nos apresentar os contextos de cada personagens por meio dos flashbacks; em que a cada novo episódio mergulhamos numa nova narrativa, podendo acompanhar as escolhas que acabaram levando aquelas mulheres àquele lugar, ou talvez o que condicionou determinadas posturas ou condutas dentro da prisão.

A Piper não é apenas mais uma daquelas mulheres, a sua condição social e, até mesmo a sua própria pena reflete um pouco do perfil de pessoas que são destinadas a uma cadeia. Poder conhecer essas histórias, acompanhar os dramas e as situações de cada personagem, dos diversos grupos étnicos presentes ali faz com que coloquemos a nossa liberdade e as nossas oportunidades de vida em outro patamar, passamos a valorizar mais tudo àquilo que nos concerne, e aflora em nós o desejo de lutar para que outras pessoas também tenham acesso àquilo que lhes é de direito, e não precisem buscar em ações criminosas uma alternativa para viver.

É claro que enquanto produção televisiva a série vai além desses meandros sociais e abarca também questões comuns em tramas desse gênero, e as aventuras pelas quais as personagens passam, as escolhas e os caminhos que são colocados diante da protagonista ou mesmo o fim que levou algumas personagens praticamente me obrigaram a ler o livro que serviu de base para esta produção. Afinal, eu simplesmente precisava saber até que ponto aquilo era real, tamanha a proporção dos acontecimentos da série. Quem sabe em outro artigo eu me dedique a falar especificamente da série, mas, apesar de não parecer, esta é uma resenha sobre o livro intitulado: “Orange is the new black – o ano que passei numa prisão de mulheres” escrito e vivido por Piper Kerman e que também atua como consultora executiva da série predita.

“O laranja era a cor da moda” (KERMAN, 2016, p.75)  Após receber uma carta de sua melhor amiga – Kristen, a qual evidenciava  por meio de uma página de jornal que as nova-iorquinas estavam sendo solidárias com a Piper, pois estavam portando a cor laranja tanto nas vestimentas quanto nos acessórios “laranjinas à solta” era o título  da reportagem que ao mesmo tempo permitia o trocadilho com o uniforme prisional e  antagonizava com a questão da falta de liberdade.

Naturalmente, por ter apenas baseado a produção da Netflix, o livro é bem diferente, é claro que esta diferença eu já esperava tendo em vista os formatos distintos, mas não imaginava tamanha diferença entre eles, só para se ter uma ideia, a espera de Piper para ir à prisão foi de seis anos, ela e seu noivo e depois marido, Larry Smith mantiveram o relacionamento durante todo o tempo em que ela esteve no instituto penal e continuaram juntos depois que ela saiu, praticamente nenhuma das, digamos, peripécias pelas quais a personagem da série passa aconteceram de fato com a pessoa da vida real, o que senti ao ler o livro foi a oportunidade de conhecer uma Piper Kerman, completa e indiscutivelmente diferente da personagem que acompanhamos na série.

Além disso, muitas das personagens  que conhecemos na série e que amamos são na verdade a ramificação de uma determinada personagem em muitas, os nomes que são apresentados no livro são diferente dos da série e na obra literária apenas duas pessoas permitiram que a escritora utilizasse o seu nome real. Aproveita-se a personalidade complexa de uma determinada personagem, por exemplo, e a divide em outras tantas pessoas quando se passa à produção televisiva.

 Em muitos momentos da leitura me encontrava à procura de determinada personagem, mas percebi que ela não estava lá e sim fazia parte da personalidade de uma pessoa específica. É um exercício interessante! Além disso, alguns laços emotivos ou fraternais são realizados com pessoas diferentes se compararmos o livro e a série. No livro reverbera-se o quanto a vida real na verdade é muito mais tediosa e normal do que se apresenta nas filmografias (que bom que existe a ficção para encher o nosso dia com mais emoções).

É válido ressaltar que a rede familiar e de verdadeiros amigos da Piper não é nem um pouco demarcada na série, os seus amigos fizeram inclusive um blog www.piperbomb.com em que inseriam a lista de desejos da Amazon com os livros que ela almejava ler, apresentam ali no formato de diário algumas informações sobre a trajetória da jovem na prisão, assim como dados importantes para quem quisesse visitá-la ou enviar algo a ela. Essa rede de amigos e familiares é o que diferencia a história da Piper com outras tantas mulheres que são “esquecidas” nas prisões femininas.

Essa questão da diferença entre a mulher que vai para a prisão e o homem, o abandono é um elemento quase comum para diversas reportagens sobre o assunto, quando um homem vai à cadeia, as filas para as visitas são sempre gigantescas, outras mulheres de alguma forma lhes fornecem apoio – mães, esposas, namoradas, irmãs, amantes, primas, tias, avós, noivas, amigas, etc. Basta passar em frente a alguma prisão antes do horário de visitas para constatar essa situação. Quando o gênero é inverso, não se percebe isso, nas filas das prisões de mulheres, não se encontram a mesma quantidade de homens à espera de sua outrora companheira. Há um expressivo abandono!

Desde o início estamos cientes de que não vamos conhecer uma história comum ou que reflita a realidade das mulheres que estão na cadeia, quando temos acesso tanto ao livro quanto a série, a Piper Kerman não está em nenhuma instância nas mesmas condições às quais estão subjugadas a maioria das mulheres encarceradas, isto porque estamos conhecendo a realidade norte-americana das prisões e de uma mulher de classe média alta e calcaziana, seja com esta série ou com a Prison Break, por exemplo. Mas e quando falamos de Brasil?? Com certeza a realidade é outra, muito mais triste do que acompanhamos nas séries e filmes ambientadas no contexto Estadunidense.

De acordo com um estudo divulgado no portal www.mulheresemprisao.org.br (vale a pena conferir!) promovido pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC e pela pastoral carcerária, vivem em torno de 34 mil mulheres nas prisões brasileiras, acontece que metade dos casos é por transporte ou comércio de pequenas quantidades de drogas ilícitas.  O questionamento levantado pela organização de direitos humanos e difundida no site é:  será que estas mulheres deveriam estar presas? Será que não haveria outra medida para promover a justiça pelos seus atos?

Nesse portal é possível conhecer também as Regras de Bangkok que “vêm para reforçar a urgente necessidade de mudar o quadro de negligência, confinamento e abandono a que são submetidas as mulheres em conflito com a justiça.”* Ao final do livro resenhado hoje também encontramos esse clamor para a busca da verdadeira justiça diante dos casos que envolvem as prisões femininas. E você já parou para pensar um pouco sobre a realidade das mulheres que vivem nas prisões de seu país? Será que existe algo que você possa fazer? Informe-se pelos sites que deixei nas referências e você descobrirá!!!

Pequena lista de grandes livros que tratam do assunto de mulheres nas prisões no Brasil!**

1. Cadeia: relatos sobre mulheres, de Débora Diniz – A antropóloga e professora da UnB Débora Diniz conta, neste livro, histórias que ouviu na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, quando fez sua pesquisa no núcleo de saúde da instituição. Lá, ela ouviu as vidas das internas e as intervenções da equipe de saúde, composta por uma psicóloga, uma psiquiatra e um assistente social.

2.    Presos que menstruam, de Nana Queiroz – Neste livro, a jornalista Nana Queiroz traça um panorama das experiências vividas por estas mulheres que, no sistema prisional, são tratadas como homens.

3.    Prisioneiras: vida e violência atrás das grades, de Barbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz da Silva – As autoras mostram, neste livro, como é a vida das mulheres presas no estado do Rio de Janeiro. Narrando minuciosamente sua chegada na prisão, as intervenções feitas e a dinâmica da instituição, até mesmo o leitor que nunca esteve numa prisão consegue imaginar-se em uma.

4.    Auri, a anfitriã: memórias do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, de Aline Moura e Bárbara Almeida –  As jornalistas cearenses Aline Moura e Bárbara Almeida contam, aqui, as histórias de quatro internas da única penitenciária feminina do Estado do Ceará. O livro resultou de um trabalho de conclusão de curso da Universidade Federal do Ceará (UFC).

 

*Trecho retirado do site: http://mulheresemprisao.org.br/

** Livros indicados pelo site: http://notaterapia.com.br/ 

Referências

KERMAN, Piper. Orange is the new black – o ano que passei numa prisão de mulheres. Lisboa: Relógio d´água, 2016.

http://mulheresemprisao.org.br/ acessado em 15 de abril às16h.

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/07/descubra-como-e-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras.html acessado em 15 de abril às16h.

http://notaterapia.com.br/2016/02/11/4-livros-que-relatam-a-vida-das-mulheres-presas-no-brasil/ acessado em 15 de abril às16h.

http://www.thepipebomb.com/ acessado em 15 de abril às16h.

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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