As principais características do Trovadorismo

Já sabemos que o contexto histórico, social e religioso da escola literária portuguesa que compreende os séculos XII, XIII e XIV e está inserido na era medieval possui alguns elementos que influenciaram diretamente a sua produção literária.

No período do Trovadorismo, o homem centrava todos os acontecimentos bons ou ruins em Deus, este homem medieval colocava-se totalmente sob o julgo de Deus, as vontades divinas estavam acima de todas as coisas, inclusive do destino de cada homem e até mesmo dos fenômenos naturais.

É fato que a religião influenciou diretamente a cultura e a arte e não seria diferente com a literatura da época. Só para se ter uma ideia, no que concerne a arquitetura da época, as construções estavam voltadas para igrejas, catedrais, capelas e mosteiros. As temáticas religiosas também estavam presentes de forma significativa nas pintura e escultura.

Como o clero tinha grande influência na pirâmide social, a maioria das obras literárias eram cantigas que exaltavam e glorificavam a Deus. É válido ressaltar que nesse período aconteceram as cruzadas, diante disso foram produzidas muitas cantigas de amor embasadas no sofrimento e na saudade que os cavaleiros em viagem sentiam por suas amadas.  De uma forma menor, houve também produções que narravam o costume da sociedade.

A principal marca do Trovadorismo são as poesias cantadas, que aqui são chamadas de cantigas, elas eram produzidas no idioma galego-português e são divididas em dois tipos gêneros literários;  a) o lírico – produção mais bem elaborada, em que se preocupa com a composição poética, de maior potencial formam a base da poesia lírica tanto portuguesa como, futuramente, brasileira. b) o satírico – nesse tipo de produção tratava-se de personalidades da época, sem muita preocupação com o trabalho erudito da linguagem, construía-se o texto numa linguagem mais popular e, muitas vezes, obscena.

De acordo com estilos peculiares de produção e o objetivo do texto existem quatro tipos de cantigas. Veremos em outros artigos aqui na Companhia Literária cada uma delas mais especificamente, conhecendo as características e principais produções.

Gênero lírico Gênero satírico
Cantigas de amor Cantigas de escárnio
Cantigas de amigo Cantigas de maldizer

 

*Soldados com a cruz em suas roupas foram lutar em nome da igreja com a finalidade de ocupar e manter a “terra santa”.

Até breve,

Jessica Marquês.

 

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A narração

A tipologia textual é formada por cinco elementos distintos e muito utilizados na produção textual, cabe a cada estudante e/ou apreciador da arte de escrever conhecer cada elemento que compõe os cinco tipos textuais. Quando falamos da narração precisamos nos ater ao fato de que narrar não se restringe simplesmente a contar algo, pois existem algumas características que precisam estar presentes numa narração para ela ser completa e bem elaborada.

Para compreender a narração podemos analisá-la por meio de diversos víeis, considerando os elementos que a compõe, a sua estrutura, o tempo, o espaço, as personagens, os tipos de narradores, dentre outros. Nesse artigo será possível conhecer os seis elementos básicos e fundamentais de um narrativa, são eles:

  1. Fato;
  2. Quem?
  3. Quando?
  4. Onde?
  5. Como?
  6. Por quê?

A representação de se ter um fato e os elementos que estão ligados a ele, significa dizer que todas as vezes que uma história é narrada o narrador acaba sempre contando onde, quando, como e com quem aconteceu aquela história, no fato discute-se e apresenta o propulsor que deu início à história, preocupa-se em saber sobre o que a narrativa aborda.

Em cada narrativa, de algum modo, é necessário que haja um (ou mais) personagem seja ele principal ou secundário. Por isso, o quem, ou seja, em sua narrativa irá apresentar com quem aquele fato está relacionado.

Além disso, se tem o momento ou período em que se deu o acontecimento que está sendo narrado. E também há vários conectores temporais, já que ela deve se situar no tempo, isso não significa que ela deve ser linear, ela pode ser linear, ou não. Mas de algum modo ela vai se situar no tempo. O autor vai utilizar ainda advérbios de tempo ou os próprios tempos verbais ao nos esclarecer quando as ações da história ocorreram. Quando falamos de tempo da narrativa, nós temos ainda algumas especificações. Como tempo psicológico, cronológico, por exemplo.

A obra sempre terá alguma ambientação, o onde da narrativa, pode ser a localidade do enredo; seja uma cidade, uma floresta, um quarto… O lugar onde ocorre uma ação ou ações é chamado de espaço, temos então o espaço da narrativa representado no texto pelos advérbios de lugar.

Dada a circunstância da narrativa teremos o que motivou e também  o modo como as personagens agiram diante daquela situação. Os porquês presentes na narrativa representa a causa, ou seja, o motivo que determinou a ocorrência que vai guiar a narrativa. Quando a gente fala do enredo do livro, estamos nos referindo àquilo que impulsionou a narrativa, e aos elementos que estão ligados a ele. Ou seja, o conjunto de ações que compõem o texto narrativo, a história que é contada recebe o nome de enredo.

Na narração predomina-se a ação: o texto narrativo é um conjunto de ações, por isso, a narração está pautada em verbos de ação, tendo em vista que ela vai nos apresentar situações que movimentaram alguma circunstância, que tirou as personagens de seu eixo comum. A narrativa pode ser realizada em 1ª ou 3ª pessoa.

Além desses elementos, nós temos a estrutura de um texto narrativo. E como um bom texto, a narração terá uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. Mas como se constrói isso numa narrativa? Bem esse será o assunto da próxima semana, não perca!

Abraços,

Jessica Marquês.

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O homem da máquina de escrever

“O homem da máquina da escrever” eis o título do livro e também a forma com que a personagem principal é chamada durante toda a narrativa. Este livro do escritor português, Fernando Campos é uma verdadeira metalinguagem, tendo em vista que ele vai abordar durante a construção narrativa, a própria composição literária. Para quem gosta ou anseia por escrever é uma leitura fundamental, pois ele vai acrescentando as conjecturas de sua produção, de forma bem humorada e poética.

A cada nova escolha, um novo caminho a seguir, e assim, vai costurando os elementos da narrativa e os meandros que permeiam a narração que pretende construir. Logo nas primeiras páginas podemos conhecer a sua paixão pela máquina de escrever que acabara de comprar. De uma maneira poética, percebemos que com suas próprias mãos, ele constrói um lugar – do zero- para abrigar e proteger seu novo tesouro, a máquina de escrever a qual somente ele (e mais ninguém!) poderia tocá-la.

Sabe quando você compra aquele livro que tanto desejava e almeja por colocá-lo no melhor lugar de sua estante? Como se gratificasse o livro por ser tão bom, ou por te fazer sentir tão bem pelo simples fato de possuí-lo. Foi exatamente assim que me senti ao ler o prólogo desse livro. A metáfora de construir do zero o espaço para abrigar a sua máquina de escrever, a ferramenta daquele ofício de escrever, pode estar presente em vários momentos que almejamos criar algo por meio da palavra darmos vida a seres, ambientes, falas, acontecimentos e tramas.

Quando por um título decide realizar a produção de seu texto. Temos então a possibilidade de conhecer a história intitulada “O beijo roubado”. O homem da máquina de escrever se propõe a escrever esse livro, e naturalmente, começa a se questionar sobre a própria produção, e a cada nova pergunta um novo caminho a seguir em sua construção literária. Ele começa a se perder em si mesmo…

“ «o beijo roubado!» Exclamou ele. Mas um roubo era um crime punível por lei! Logo… Isto tem de meter a polícia. Além disso, é um atentado contra o pudor…Mau! A coisa embrulha-se! É preciso meter também o tribunal. Não há que ver. O conto tem de ser policial. Paciência! Já não será um conto romântico, mas um conto policial…(CAMPOS, 16,1997)

É interessante o fato de que só percebi a conexão desse livro com assuntos que traremos essa semana aqui na Companhia Literária depois que me sentei para escrever essa resenha literária. Digo isso porque na terça teremos um vídeo sobre metalinguagem, e este livro é uma excelente opção para compreender o que vem a ser uma metalinguagem, pois ele é uma metalinguagem! Além disso, na quarta-feira você terá a possibilidade de conhecer alguns apontamentos sobre a narração, e tal livro fala o tempo todo da composição narrativa. (Coincidências interessantes!)

A trama dessa obra será embasada a partir do desejo do autor escrever o livro e o fato de, às vezes, procrastinar antes de iniciar efetivamente a produção, o que fala diretamente conosco, quando é que deixamos de procrastinar? Quando já não há mais tempo? Quando estamos já na última opção? Como tem administrado o seu tempo como leitor ou escritor?

O narrador/personagem do livro também era jornalista e utiliza algumas notícias para construir alguns elementos da trama de seu livro. Ao longo da narrativa, misturam-se relatos do livro e de memórias do próprio narrador que divaga sobre os lugares por onde sua narrativa pode passar- lugares de Lisboa, por exemplo. Além dessa mistura, há também um constante diálogo com o leitor, como se estivéssemos fazendo perguntas acerca de sua construção narrativa, de tal modo que você se sente parte daquela produção.

Depois de ter superado aos inúmeros questionamentos iniciais, a narrativa dá-se início com a história de um roubo em que uma jovem loira, alta, de lábios bonitos ora é a vítima, ora é o suspeito. Acrescenta-se ao mistério também outra jovem, esta agora morena e igualmente bela que poderia, enfim ser a verdadeira vítima do crime do beijo roubado…

Assim que ele finaliza a sua narrativa, o homem da máquina de escrever sai para caminhar pela cidade, logo que iniciou sua caminhada, subitamente sentiu a necessidade de voltar para a sua máquina de escrever, pois havia sido atingido por uma onda de sentimento poético… Após martelar as teclas sem cessar… Falaria agora sobre o arranha-céus solitário.

“Ando fora de mim

Por viver dentro de mim…”

Com um breve relato, mas profundo em suas palavras, a história do arranha-céus solitário pode ser cada indivíduo que se ausenta das palavras de um poeta. “Oco, despido, nada sentia dentro de si a não ser a fria humidade* da argamassa recente. Pensava que estava gelado quando deu conta de que o poeta louco se tinha ido embora e as salas haviam emudecido” (CAMPOS,71 ) Sob essa temática do silêncio, O homem da máquina de escrever também nos apresenta uma fábula com uma das pirâmides no deserto de Gizeh.

Eis um livro divertido, recheado de metáforas que avassalam o nosso ser e de diálogos que nos colocam diante da dificuldade que, às vezes, pode se ter com o ato de colocar uma ideia no papel. A trama aqui é o que importa, não são as personagens, nem o ambiente, ou o tempo da narrativa… Por exemplo, quando nomeia as personagens recebem os seguintes nomes: Fulana de Tal y Tal – Sicrana de Tal y Qual- Beltrano, e as demais personagens são apresentadas apenas por meio de substantivos próprios; o policial, o juiz, a dona da casa e assim por diante. Os questionamentos que perpassam a narrativa são muito necessários à vida, ou ao simples ato de escreve sobre outras vidas- reais ou ficcionais.

Este livro foi escrito em 1956, mas só foi publicado pela primeira vez no ano de 1987 e reflete a voz de um escritor que se calara por trinta anos, tais anseios pela escrita ou dúvidas são perceptíveis nas poucas, porém profundas páginas que compõem este livro. Além de escritor ficcional, Fernando Campos também foi importante autor de obras didáticas e monografias de investigação etimológica e literária.

Afirma-se na descrição do livro “O homem da máquina de escrever” que esse é “uma sátira que tem por vítima a própria literatura ou as subliteraturas.” E de fato, leva-nos a refletir a todo o momento sobre esta arte da palavra.

Abraços,

Jessica Marquês.

Referência

CAMPOS, Fernando. O homem da máquina de escrever. Lisboa: Difel, 1997.

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A Bela e a Fera: crítica do filme

Sentimentos são… fáceis de mudar…

Estes versos da canção que embalou nossos corações no início da década de 90 com a animação da Disney sobre o conto A Bela e a Fera não foram suficientes para acalentar os nossos saudosos e nostálgicos corações ao assistir ao live action que lançou essa semana.

Diferente de outras live actions da Disney que optaram por apresentar outro olhar acerca daquela história, este filme preferiu se dedicar a fidelidade da animação de 1991, é claro apresentando algumas adaptações, mas sem fugir da essência do filme original, é compreensível isso tendo em vista que a produção de 1991 foi responsável por reerguer os estúdios da Disney e tem um peso tão importante assim como a primeira produção de sucesso “A branca de neve e os sete anões”.

É interessante poder assistir nas telas do cinema aquela narrativa presente em nossa infância e ainda na opção de live action, poder encontrar alguns elementos tanto do conto original quanto do clássico e vislumbrar cada elemento da narrativa, mas infelizmente meu sentimento ao produzir esse texto é sem muita profundidade, paixão, emoção. Deixe-me explicar melhor!

Durante os meses em que fomos preparados/ instigados/provocados para assistir a esta produção, em vários momentos senti uma súbita emoção ao assistir, por exemplo a interpretação da atriz Angela Lansbury cantando a célebre canção do filme “The beauty and the beast” em um especial sobre o filme foi simplesmente lindo, nem imaginava que me emocionaria tanto ao assistir aquela canção; chorei, arrepiei-me e revi inúmeras vezes…

Nos vídeos de divulgação do Live action, quando mostrava os lustres do castelo, a canção introdutória, a Bela olhando a rosa, tudo isso mexeu com as emoções e, consequentemente com as expectativas para o filme. É preciso deixar claro que não achei o filme ruim, pelo contrário, gostei da produção, das canções, da fotografia, da atuação das principais personagens…  O que faltou, entretanto, foi a emoção! (Logo a  Disney que  tem a arte de trabalhar tão bem com o efeito emoção em muitas de suas produções!)

Sinto um nada, digo nada porque não é tristeza, nem alegria, ao declarar isso, mas sinto um nada, um vazio, uma ausência de profundas emoções esperadas com esta produção. A preocupação do diretor Bill Condon em apresentar a narrativa de 1991 e ainda acrescentar alguns elementos (como as história da mãe da Bela e também a explicação do por que aquele príncipe seria tão arrogante) tornou as coisas um pouco automatizadas demais, sem nos surpreender. Faltou o elemento importante de uma narrativa, a surpresa!

Nesse mundo em que as coisas acontecem tão rápido, o filme apresentar, assim como o conto clássico da Madame Beaumont, uma evolução, o crescimento do relacionamento entre a Bela e a Fera teria sido mais gostoso de assistir. Na vida real, as coisas acontecem
em seu tempo, naturalmente, é claro que existem momentos que são avassaladores, mas fazem parte de um processo. Infelizmente, esse processo foi pulado, (ou talvez mal construído) ao se apresentar o sentimento de Bela crescendo pela Fera. Acredito que existem vários recursos cinematográficos tão comumente utilizado pelas produções Hollywoodianas; como mostrar vários momentos flashes da interação entre eles, e incluir outros com mais emoção, teria sido, talvez banal, mas efetivo.

A personagem Bela continua encantadora, dona de si, responsável por suas escolhas e ações, agente de seu futuro e do cuidado com o seu pai, por exemplo. Apesar de ser Bela até no nome ela se identifica com a Fera, por ser diferente. Ela é uma jovem que não consegue se acomodar naquela pequena vila e naquela rotina de vida, ela quer viver outras experiências e explorar o mundo… Amaria um final em que a Bela e a Fera saísse para explorar o mundo, mais ou menos como o final do filme dirigido por Phyllida Lloyd; o musical Mama Mia. Ficaria fieil à produção de 1991 e ainda acrescentaria um “je ne sais quoi” que faltou na produção.

Alguns momentos da edição não são muito inteligentes, há cenas que não são muito bem conectadas, existe um filme que eu simplesmente amo, em português ele tem o nome de Simplesmente amor. Nesse filme, a edição é simplesmente perfeita, porque cada cena conecta-se de uma maneira muito bem construída, aproveitando até as canções para isso. (Eu sei que usei muito a palavra, simplesmente- mas foi simplesmente proposital, simples assim…) Digo isso, porque poderiam ter conectado melhor as cenas, por se tratar de um musical, poderia, por exemplo, conectar as cenas por meio das canções, simples assim! Se não assistiu ainda ao filme Love Actually, dirigido por Richard Curtis. Assista! Você perceberá facilmente o que estou falando.

Para mim, a construção que mais deixou a desejar, foi a personagem da madame Samovar, que foi transformada em bule de chá, interpretada pela Emma Thompson, porque na produção de 1991 ela exerce um papel fundamental nessa conexão entre a Bela com a Fera e também entre expectadores e produção. Faltou trabalhar melhor essa conexão, e consequentemente, mexer com as nossas emoções.

Será que vale a pena assistir esse live action da Bela e a Fera? Com certeza… Mas esteja ciente de que nem a magia da Disney está conseguindo quebrar esses corações duros dessa nova geração. E agora, José?

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A prosa Trovadoresca

Como já sabemos o período em que o Trovadorismo expressa-se é marcado pela religiosidade, pelo cristianismo, pelo teocentrismo: o homem desse período é completamente dominado pelo medo do pecado, por isso está constantemente tentando agradar a Deus.

Desse modo, a Literatura Medieval Portuguesa evidencia um homem medieval que é simples, ingênuo e passivo, tendo em vista o seu contexto social, histórico e ideológico. Mesmo diante dessa conjuntura, esse sujeito da Era das trevas – como alguns chamam a Idade Média – consegue extrapolar os limites de sua literatura e romper com esse domínio. Assim temos a produção em prosa do período literária com produções de novelas de cavalaria e romances.

Quando consideramos o gênero literário quanto a sua forma, temos duas especificações; o texto em prosa e o texto em verso. Conforme apresentamos no artigo sobre tipologia textual, gêneros textuais e literários, o texto em verso é aquele formado por linhas poéticas e organizado em estrofes, enquanto o texto em prosa é apresentado na estrutura de parágrafos.

O grande destaque das produções do Trovadorismo é o texto em verso, com as poesias cantadas; as cantigas. Mas houve também algumas produções no estilo em prosa. Nessas produções existem dois grupos; o texto de não-ficção e o de ficção.

Nos textos de não-ficção nós temos as produções, os documentos que nos apresentam as mentalidade da época, extremamente apegada aos laços de sangue e também à religiosidade. Desse modo, nós temos as Hagiografias, ou seja, uma biografia extremamente elogiosa, são os relatos biográficos de figuras canonizadas, dos santos e seus milagres, tudo isso por conta da influencia clerical, associada à igreja.

Nós temos também como produção de não- ficção as crônicas ou cronicões em que se relatavam os acontecimentos históricos/sociais do século XIV, mas de uma forma romanceada. Esses cronicões representam o início da historiografia portuguesa.

E para fechar as produções de não- ficção do trovadorismo, nós temos os famosos livros de linhagem que apresentavam a genealogia das famílias nobres. De uma forma muito bem escrita, esses livros de linhagem são muito interessantes, pois não se limitam à enumeração das famílias nobres, mas tratam também de outros temas como batalhas e lendas.

Nas produções de ficção nós encontramos as novelas de cavalaria, ou seja, uma sequência narrativa constituída de uma sucessão de situações dramáticas todas com começo, meio e fim e encadeadas entre si. Essas novelas de cavalaria celebram acontecimentos históricos, trazidos principalmente da França e da Inglaterra. Nesses textos os trovadores, apresentavam histórias que envolviam o combate entre vilões e heróis, raptos de donzelas, geralmente com finais felizes.

A novela medieval mais popular gira em torno da lendária figura do rei Arthur e da procura pelo Santo Graal. Colocando em evidencia novamente o teocentrismo. É relevante destacar que tais novelas tinham, de certa forma, a função de induzir a sociedade daquele período a seguir certos códigos de conduta medieval e cavalheirescos.

Quando falamos em novelas medievais, precisamos entender que elas são agrupadas em ciclos, ou seja, o conjunto de novelas que giram em torno do mesmo assunto e movimentam as mesmas personagens. Estes ciclos manifestam-se dentro de uma determinada narrativa e de determinado lugar.

Os ciclos são:

1. Ciclo Bretão ou Arthuriniano (Grã-Bretanha): narra as aventuras do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda;

2. Carolíngio (francês): narra as aventuras de Carlos Magno e dos doze pares de França;

3. Clássico (Greco-latino): narra as histórias inspiradas em heróis gregos e romanos;

4. Amadis* (península ibérica) nele podemos encontrar a descrição do perfeito cavaleiro, destruidor de monstros, completamente apaixonado por uma donzela;

 

 

 

 

 

*No ano de 1605 inspirado nessa construção do cavaleiro perfeito, o espanhol Miguel de Cervantes escreveu Dom Quixote de la Mancha. Estudiosos afirmam que esta produção é uma versão melhorada e também ridicularizada das novelas de cavalaria.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

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Ferramentas para criar Mapas Mentais

Quando nos propomos a escrever ou a organizar algo que necessita de um cuidado e atenção maior devido à importância e/ ou extensão do trabalho é importante nos atermos a alguns recursos que podem nos auxiliar nessa organização.

Os mapas mentais são um caminho que podemos adotar ao realizar determinado planejamento, mas podemos também utilizar outros elementos. Veja alguns exemplos abaixo:

  1. ORGANIZAÇÃO COM POST-IT

Usar e abusar das cores, aproveitar os espaços de sua casa que possam lhe auxiliar na visualização de todo o quadro daquilo que se planeja escrever ou organizar, a ideia é poder construir um painel para que se possa acompanhar todos os elementos de sua produção.

       

2. PROGRAMA XMIND-8

Existem diversos softwares ou programas que podemos utilizar em nosso computador para somar no apoio à organização. Além de Excel ou outros já disponíveis nos computadores, você pode baixar um programa simples e fácil para criar mapas mentais. As funções básicas do Xmind-8 são gratuitas, existem outras que seria necessário pagar para adquiri-las, o que limita alguns elementos, mas não impossibilita a construção de bons e úteis mapas mentais seja para criar o seu plano de escrita ou organização geral.

3. APLICATIVO TRELLO

Se você tiver disciplina para manter as informações do aplicativo para celular intitulado Trello atualizadas, você conseguirá organizar e acompanhar a evolução de seu trabalho, outro fator interessante é que ele pode ser compartilhado com outros usuários e  atualizado por cada um, tendo a possibilidade de inserir comentários e observações acerca do trabalho. Se estiver produzindo um texto com coautores este aplicativo estará à mão de forma simples e fácil.

Abraços,

Jessica Marquês.

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A Bela e a Fera: o conto clássico

Você com certeza já ouviu falar do desenho animado da Disney que é uma adaptação desse conto clássico escrito pela madame Beaumont, esse filme foi o responsável por reerguer os estúdios Disney, com o sucesso em 1991. A história da Bela e a Fera já sofreu adaptação em diversos meios como: filmes, discos, desenhos animados, live actions, histórias em quadrinhos, peças teatrais, concertos musicais, orquestras, óperas, dentre outros.

  1. De acordo com o tradutor e diretor editorial, Rodrigo Lacerda – além da animação da Disney de 1991- também merecem destaque outras produções, como por exemplo:
  2. A peça para piano a quatro mãos de M
    aurice RAVEL, 1908. Depois ela passou a ser chamada de “Les entretiens de la Belle et de la Bête” e foi orquestrada com esse nome em 1946. De acordo com o conto original, a Bela poderia, por meio de janelas mágicas, assistir a diversas apresentações culturais de diversos lugares, como França e Itália, eram “janelas para o mundo”.
  3. É imperdível também assistir ao filme dirigido pelo francês Jean Cocteau de 1946. Nessa adaptação, a protagonista, Bela, parece lamentar depois que a Fera transforma-se em um príncipe.
  4. Também merece especial atenção a ópera do compositor minimalista americano Philip Glass, 1994. Ela teria sido composta imaginando-se presente no filme de 1946 predito.

A autora da versão clássica da Bela e a Fera mais difundida entre nossos contemporâneos é a renomada escritora francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. Ele teria feito uma versão essencialmente resumida da narrativa original apresentada pela madame Villeneuve, centrando-se unicamente na trama entre a Bela e a Fera. “Sem dúvida, das publicações de ficção escritas por mulheres, as suas (Madame Beaumont) eram as mais famosas do século XVIII” afirma o crítico Joan Hinde Steward.

Tendo sido publicada 16 anos após a versão original no periódico “Le Magasin des Enfants” em 1756. Ele era um manual pedagógico em que uma governanta narrava e dialogava com as crianças as quais tinha responsabilidade pela educação. Desse modo, a autora inseria elementos de ficção entre os diálogos e ensinamentos, numa dessas narrativas aparece a versão que madame Beaumont criou a partir do conto original escrito pela madame Villeneuve.

A essência da história foi aproveitada, assim como fizeram as diversas adaptações -cinematográficas, teatrais, literárias, musicais, dentre outras – do conto da madame Beaumont. Mas outros elementos foram acrescentados. Afinal, quem conta um conto sempre aumenta um ponto, certo?

Sobre a vida da Madame Beaumont

CRANE, 2016.

Ela nasceu em 1711, em Rouen, era filha de um pintor e escultor, cresceu numa família de classe média. Era órfã de mãe e foi preparada para ser freira, passou a educar outros jovens, durante 10 anos.

No ano de 1735 desistiu da vida eclesiástica e voltou a viver com o pai, no nordeste da França – Lorena. Lá começou a trabalhar como preceptora, dama de companhia e professora de música da primogênita do falecido Leopoldo de Lorena, Élisabeth-thérèse. Nesse período teve a oportunidade de conviver com importantes intelectuais da época, como Voltaire, por exemplo.

Além disso, também foi nesse período que ela conheceu o trabalho de importantes escritoras francesas, como: Émilie du Châtelet, Françoise de Gragny, Madame de la Fayette e Madame de Tencin. E também a fundadora da literatura feminina medieval, Christine de Pizan.

Tem se conhecimento de que ela se casou com Antoine Grimand de Beaumont no ano de 1743. Ela também tinha uma filha, chamada Elisabeth, mas alguns biógrafos consideram que esta menina seria fruto de um casamento anterior da Madame Beaumont, pois ela teria sido casada com um bailarino chamado Claude-Antoine Malter.

Não se sabe se por dificuldades financeiras ou por sofrer perseguição do seu agora ex-marido, Antoine de Beaumont, no ano de 1745 ela deixou sua filha num internato e partiu para a Inglaterra.

Nesse novo país, dedicou-se à educação; tanto nas práticas diárias, oferecendo trabalho de preceptora para jovens e crianças aristocratas, quanto à crítica da decadência da escola e das concepções teóricas para as melhorias no universo educacional. Assim escreveu vários livros com tal finalidade.

Inspirada pelos periódicos ingleses fundou “Le nouveau Magasin Français”. Acredita-se que o célebre autor de Robinson Crusoé, Daniel Defo, auxiliou nessa empreitada.  Nesse periódico era possível encontrar assuntos que envolviam tratados de boas maneiras, princípios morais, textos literários e científicos com finalidade pedagógica. A revista acumulou 40 volumes de 1750 a 1780 e chegou a ter publicações de Voltaire – poemas, ensaios, cartas e contos.

Não há provas oficiais que confirmem, mas muitos biógrafos acreditam que ela tenha se casado com Thomas Pichon e que ficaram juntos na Inglaterra até 1762. Reconhecida escritora e pedagoga, madame Beaumont retorna à França e, apesar das inúmeras propostas de trabalho de príncipes que a queriam como predecessora de seus filhos. Ela comprou terras em Chavanot e passou a dedicar-se a produção de romances epistolares, até vir a falecer em 1780.

Resumo do conto clássico “La Belle et la Bête”

Havia um comerciante muito rico que se preocupava e proporcionar uma excelente educação aos seus três filhos e três filhas. Eles levavam uma vida de luxo e ostentação, difundido principalmente pelas duas filhas mais velhas desse homem. Entretanto, a filha mais jovem, chamada Bela, preferia investir o seu tempo em leituras ao invés de se lançar unicamente à vaidade e até mesmo às futilidades que as irmãs cultivavam.

O pai desses jovens acabou por ir à falência, desse modo, toda a família passou a viver numa casa no campo, a única propriedade que lhe restava. A sua filha caçula, habituara-se a viver no sítio e prestar os devidos serviços necessários à manutenção da casa e da família, enquanto as outras irmãs lamentavam-se e criticavam a Bela.

CRANE, 2016.

Um ano depois de se instalarem no sítio, a esperança tornou-se presente novamente na vida daquela família, pois haviam recuperado uma das embarcações do comerciante com algumas mercadorias dele ainda em condições de serem comercializadas, ele imediatamente aprontou-se para ir à cidade, crente de que poderia recuperar a sua fortuna.

As filhas mais velhas não hesitaram em fazer uma enorme lista de pedidos luxuosos e caros, de modo que nem se ele recuperasse toda a sua riqueza teria condições de satisfazer tais desejos.  A Bela, por sua vez, pediu apenas uma rosa, pois não conseguira fazer com que naquele lugar florescesse uma roseira. Como de costume, as irmãs criticaram a escolha da irmã.

Na cidade o comerciante não teve sucesso com as mercadorias, e continuou na mesma situação financeira desfavorável aos desejos das filhas mais velhas. No entanto, ao retornar para a sua propriedade rural, enfrentou uma terrível tempestade de neve quando avistou um lindo castelo e decidiu proteger-se naquele lugar.

Quando lá chega, não consegue falar com ninguém, mas encontra uma mesa de jantar com a melhor comida que poderia ser oferecida. Decidiu, mesmo sozinho, degustar daquele banquete. A tempestade ainda estava forte então cogitou a ideia de passar a noite por ali, com cautela andou pelos corredores do castelo, até encontrar um quarto para conseguir repousar. Assim que amanheceu o comerciante já estava a postos, e foi recebido novamente com uma deliciosa refeição para o café da manhã, mas ainda assim, sem nenhuma pessoa para que ele pudesse, ao menos, agradecer.

CRANE, 2016.

Antes de ir ao encontro de seu cavalo, ele passou por um jardim com uma linda roseira e decidiu levar uma para presentear sua querida filha caçula. Assim que ele retirou uma flor uma fera horrenda apareceu fazendo com que ele quase desmaiasse. Por conta daquele “furto” agora ele deveria pagar a Fera.

Ele teve autorização para voltar a sua casa e trazer uma de suas filhas, que deveriam ir de bom grado, para cumprir a pena no lugar de seu pai. O comerciante, almejava retornar ao sítio apenas para despedir-se de seus filhos, ele não permitiria que nenhuma filha sua se entregasse em seu lugar.

Entretanto, assim que encontrou os filhos ele entregou a rosa para Bela e, já chorando, pediu que ela cuidasse muito bem daquela flor, pois o preço que ele iria pagar era muito alto. Relatou o que acontecera aos seis filhos, imediatamente as irmãs começaram a acusar a jovem Bela, chorando elas gritavam contra a jovem, que por sua vez, não chorava, apesar da grande tristeza não lagrimejava, pois acreditava que não perderia o pai, pois iria entregar-se em seu lugar. Assim que ela faz essa afirmação os irmãos prometem protegê-la com a própria vida.

Tentando manter a calma, Bela rejeita as inquietações do pai e dos irmãos e decidida a seguir o destino que agora lhe pertencia ela afirma veementemente o que fará. No dia de retornar ao castelo, o comerciante e sua filha pegaram a estrada e rapidamente alcançaram aquela estrutura imperial.

CRANE, 2016.

Quando chegaram ao castelo e estavam na mesa de jantar, posta especialmente para eles, a Fera apareceu. Bela ficou apavorada com tal criatura, mas conteve a sua emoção, pois temia por sua vida e também pela do pai. Eles passaram a noite no castelo e quando amanheceu o comerciante precisou ir embora e deixar sua filha naquele local, sozinha e sem saber qual seria, afinal, o seu destino. Antes de ir, porém, a filha lhe relatou um sonho que tivera em eu uma dama afirmava que ela receberia uma recompensa por tamanha bondade que existia em seu coração, tendo em vista o seu ato altruísta de ficar no lugar de seu pai.  Isso acalmou momentaneamente o pai.

Depois que ele retornou para o sítio, Bela caiu no choro e lamentava-se por tudo que acontecera. Ela acreditava que sua vida teria fim no final do dia e praticamente conformada com o que estava porvir ela decidiu explorar o lugar. De repente ela encontra um belo quarto cuja placa na porta dizia “aposento de Bela”. Intrigada ela adentra ao local e fica encantada com tudo que está lá, principalmente uma estante de livros. Assim ela começou a consolar-se, afinal, não preparariam tudo aquilo para ela passar apenas um dia. Ela começa a vasculhar o lugar até que “abriu a estante e viu um livro, no qual estava escrito em letras de ouro: peça o que deseja: aqui você é a rainha e a dona da casa.” Sem hesitar, Bela manifesta o desejo de ver o seu pai.  Então o espelho do quarto transforma-se numa tela em que ela pode ver o seu pai que já chegara ao sítio, porém abatido pela tristeza que o cercava.

Somente ao anoitecer Bela encontrou-se com a Fera que durante o jantar demonstrou ser uma ser integro e inteligente, atraindo assim a atenção de Bela, mas ao fim da noite, ela recebeu um convite que abalou as suas estruturas: a fera perguntou se ela aceitaria casar-se com ele. Ela fica aterrorizada, mas como era muito sincera, nega o pedido do anfitrião. Ele diz que tudo bem, mas se retira num humor diferente daquele que outrora estava.

Todas as noites a Bela e a Fera têm conversas interessantes sobre diversos assuntos, os momentos com aquele monstro passam a se tornar cada vez mais agradáveis, de modo que a jovem anseia esse momento para reencontrá-lo, mas ao final da noite sempre passam pela desagradável conversa em que Bela precisa rejeitar o pedido da Fera de desposá-la.

A jovem viveu três meses nessa situação até que não aguentou mais ver o tamanho do sofrimento de seu pai, que ela conseguia visualizar através do espelho, pois ele estava desolado e sozinho, tendo em vista que as filhas casaram-se e os filhos foram para o exército. Assim, Bela solicitou à Fera que a autorizasse a passar uma semana com a sua família.

Com a promessa de voltar e não permitir que a Fera morresse de desgosto, a jovem vai ao encontro do pai e também de suas invejosas irmãs. Bela portava-se e vestia tal qual uma rainha, o que aumentou ainda mais a inveja das irmãs, que não tinham sido felizes nas escolhas dos seus respectivos cônjuges e não eram, portanto, felizes.

Ao saberem da promessa de Bela, arquitetam um plano para que a irmã caçula retardasse o seu retorno ao castelo da Fera,fazendo com que esta sucumbisse na solidão.

A Bela ficou pouco mais de uma semana quando, depois de uma sonho, percebera que não estava correta com essa escolha. Colocou o anel que a Fera lhe dera sobre a mesa e assim, subitamente retornou para o castelo, as espera pela noite foi dura, e quando o relógio marcou nove horas da noite a Fera não apareceu. Desesperada, Bela sai à sua procura, quando encontra o anfitrião quase desfalecido.

 

No chão, com ele nos braços Bela promete se casar com a Fera, luzes de fogos e símbolos de festa iluminaram o lugar, quando ela retoma o olhar para o seu esposo ele está com outra forma, agora humana e bela. Assim que eles conseguem se levantar e chegam ao salão do castelo, Bela pode encontrar toda a sua família ali, a dama do sonho que lhe prometera recompensas por seu ato nobre havia levado todos para o castelo.

Mas antes da história acabar ela lança outro feitiço, agora destinado às irmãs de Bela, dizendo: “Tudo pode ser corrigido – orgulho, raiva, gula, preguiça-, mas a conversão de um coração mau e invejoso é uma espécie de milagre”, dito isso, ela transformou as irmãs em estátuas e disse que ficariam nessa forma até se arrependerem de tudo o que fizeram.

CRANE.2016.

A Bela e a Fera fizeram a festa do casamento e viveram muitos e muitos anos felizes, baseando os seus atos na virtude.

Referências

BEAUMONT,Jeane Marie & VILLENEUVE, Gabrielle. A Bela e a Fera. SÃO PAULO:Zahar,2016.

CRANE, Walte e outros: ilustrações presentes no livro A Bela e a Fera. SÃO PAULO:Zahar,2016.

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O mito que inspirou a história “A Bela e a Fera”

Fernando Pessoa em sua incrível capacidade poética apresenta em seu poema “Eros e Psique” uma versão lírica e concisa do Mito Grego de mesmo nome, e que também tem relação com o conto original da Bela e a Fera. Esse mito foi eternizado por meio da escrita pela primeira vez no livro intitulado “Metamorfoses” também conhecido como “O asno de Ouro” do escritor Lucio Apuleio no ano de 150 D.C. Entretanto, esse conto já estava na oralidade e pertence a era clássica grega que compreende os séculos V,IV e III a.C.

Eis o poema de Fernando Pessoa, depois de conhecer o Mito de Eros e Psiquê, poderá analisar com mais cuidado cada linha poética que compõe as suas estrofes.

Eros e Psiquê

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

E,inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão , e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa.

 

O MITO EROS E PSIQUÊ

 

Conta a lenda que uma jovem chamada Psiquê filha caçula de um rei e uma rainha, era muito bela e idolatrada por aqueles que a conheciam. Ela tinha duas irmãs que alimentavam uma inveja por ela, pelo sucesso que fazia com todos que a cercava.

Mas a inveja não era exclusiva das irmãs, pois Afrodite – a Deusa do amor, da beleza e da sexualidade – também não estava satisfeita com toda a veneração que aquela mera mortal recebia. Alguns diziam que Psiquê poderia ser mais bela que a própria Deusa.

As irmãs mais velhas dessa princesa casaram-se e os seus pais, preocupados por sua filha mais jovem ainda não ter se casado decide procurar um oráculo para então conhecer o destino da filha. Acontece que a Deusa Afrodite, havia incumbido aquele oráculo a mentir e dizer que o destino da jovem pertencia a uma fera que deveria desposá-la.

Apesar de extremamente tristes, o pais da jovem Psiquê decidem cumprir a sua profecia, então realizam uma procissão cujos aspectos assemelhavam-se tanto a cerimônia de casamento quanto a de um velório. Eles então acorrentam Psiquê a uma rocha no alto de uma montanha.

Para cumprir o seu plano, Afrodite pede que o seu filho, Eros (o deus do amor, o cupido) atirasse uma flecha em Psiquê para que assim ela se apaixonasse pela fera que estava por se casar. Entretanto, Eros se encanta com a estonteante beleza de Psiquê acaba se distraindo e acidentalmente fere-se com a própria flecha do amor, apaixonando-se instantânea e profundamente por Psiquê.

Desse modo, ele pede que a Zéfiro, o vento oeste, que levasse a jovem para o Vale do Paraíso.  Eles passam a ser, então, marido e mulher e Psiquê fica completamente encantada com os prazeres de se viver no Olimpo. Contudo, de acordo com uma solicitação de Eros, ela não poderia vê-lo.

Ela começa a se encontrar com suas irmãs cuja inveja é intensificada ao descobrirem que a irmã havia se casado com um deus e vivia, literalmente, no paraíso. Psiquê pede autorização para que as irmãs visitem aquele lugar encantador. Neste período, Psiquê já havia descoberto que estava grávida. Após inúmeros questionamentos, a jovem revela às irmãs que não tinha autorização para conhecer a imagem de seu esposo, pois não poderia vê-lo. As irmãs, então, convence a irmã caçula de que ele tinha a forma de uma serpente e que pretendia devorar tanto a ela quanto ao filho que era gerado em seu ventre.

Persuadida, a jovem decide durante a noite pegar uma lâmpada para ver o seu esposo e com uma adaga matá-lo. Eros não pretendia que a jovem olhasse para ele, porque não queria que ela tivesse encanto e amor por sua imagem, e sim por quem ele era. Assim que ela o vê fica extasiada, distrai-se e encosta-se a uma das flechas de Eros e assim, apaixona-se perdidamente por ele, mas acaba deixando o óleo quente de sua lâmpada cair em Eros que subitamente acorda e descobre que Psiquê acabou por descumprir a sua solicitação.

Eros, apesar de ser o deus do amor, não tem compaixão de Psiquê e a abandona, além disso, também afirma que aquele filho que ela estava por gerar seria um mero humano, e não um deus como o pai. Embora ela tenha sido desamparada por quem amava, ela decide andar pelo Olimpo pedindo que alguns deuses a ajudasse a reconquistar o coração de Eros, no entanto, todos rejeitam ajudá-la, pois temiam que Afrodite irasse-se por darem suporte a quem machucara o seu filho.

Destemida, Psiquê decide procurar diretamente a deusa do amor. Ela então propõe quatro desafios para que a jovem estivesse livre do desígnio de Eros. Psiqué inicia uma dura jornada pela terra. É importante destacar que, se não tivesse sucesso nas tarefas propostas além de não retornar para Eros também perderia a vida.

Eis as tarefas propostas à jovem:

  1. Psiquê deveria separar e selecionar cada tipo de semente de uma montanha de sementes antes do anoitecer. Mas a jovem acaba adormecendo antes de cumprir a tarefa, mas provavelmente não estava sozinha nessa empreitada, pois enquanto dormia, milhares de formigas fizeram o trabalho por ela.
  2. Em sua segunda tarefa, ela deveria levar à Afrodite um tosão de ouro, ou seja, a lã de ouro dos ferozes carneiros que viviam na margem oposta do rio. Psiquê já estava desistindo da tarefa quando ouve uma voz em meio aos juncos da margem do rio, dizendo para ela esperar anoitecer e então retirar a plumagem dos animais que ficavam presas nos espinhos, assim ela fez.
  3. Decidida a derrotar a jovem, Afrodite pede que ela lhe traga uma taça de cristal com a água do rio Estige. Acontece que este rio chega a perpassar pelas regiões abissais do inferno, além disso, existem diversos monstros que guardam o local, tornando assim a aproximação. Mas Psiquê recebe uma ajuda divina, pois Zeus na tentativa de ajudar o filho pede que sua águia pegue a taça das mãos da jovem a vá retirar a água do rio solicitado por Afrodite.
  4. Em sua derradeira tentativa. Psiquê é orientada a ir até o inferno e procurar por Perséfone, a esposa de Hades para buscar o cofre com o unguento da beleza. A jovem enfrenta uma dura e longa jornada até chegar ao inferno como encontrar com Cérbero, com as três tecelãs do destino, nega ajuda a um coxo e também a um homem que se afogava, e depois de conquistar a simpatia de Perséfone ela consegue sair com o cofre que Afrodite solicitara. Como já se sentia desgastada depois de tudo o que passara, ela decide abrir o cofre para ter acesso ao unguento da beleza, mas na verdade, Afrodite a enganara, e na verdade havia dentro do cofre o sono da morte.

Eros, já curado da ferida, sai à procura de sua amada quando a encontra adormecida na morte, ele então guarda o sono da morte no cofre e usa uma de suas flechas nela, assim Psiquê retorna à vida. Eros então pede ajuda para seu pai, Zeus para que ele convencesse Afrodite a aceitar Psiquê e também a transformá-la numa deusa para que pudessem levar o seu amor por toda a eternidade, assim é feito!

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Em grego Psiqué (psychí / ψυχή ) significa alma. Desse modo esse conto poderia ser uma alegoria da eternidade da alma e da junção entre alma e amor. Mas existem três interpretações para este mito que são convergentes e complementares entre si.  A primeira interpretação considera que a história narra a jornada da alma, a segunda aceita que se refere à teoria do conhecimento e a última acredita que representa o ritual dos mistérios de renascimento.

É perceptível algumas semelhanças com o conto da madame Villeneuve de 1740, A Bela e a Fera,
como a mãe do príncipe que não aceitou em primeira instância a esposa do filho, as irmãs invejosas, a construção da personagem Bela semelhante à Psiquê, a obrigatoriedade de ir viver com uma Fera, dentre outros elementos.

Referências

BEAUMONT,Jeane Marie & VILLENEUVE, Gabrielle. A Bela e a Fera. SÃO PAULO: Zahar, 2016.

ADERALDO, Noemi Elisa.  Sobre Eros e Psique de Fernando Pessoa. Rev. de Letras. Fortaleza, 3/4 (2 / 1): Pág. 102-107, jul./dez. 1980, jan./jun. 1981

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro, Ed. Aguilar, 2. ed., 1965, p. 178.

http://paulorogeriodamotta.com.br/o-mito-de-eros-e-psique/acessado em 20 de fev. de 2017 às 12h13.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

 

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Trovadorismo: contexto

As produções literárias do trovadorismo estão associadas às situações históricas e sociais do período, por isso, é interessante compreender os elementos do período medieval onde tais produções eclodiram. Diante disso, existem três características sociais que precisam ser levadas em consideração quando se fala em Trovadorismo, tais elementos nos estão presentes na maneira do artista encarar o mundo e, de certa forma, representá-lo em sua produção literária.

Contexto diretamente relacionado à produção literária:

Feudalismo: Sistema político-social em que o rei tinha total autonomia e era a autoridade absoluta, o modo de produção se baseava nas relações servis, pois era uma sociedade estamental, ou seja, dividida entre senhor ou suserano e servo ou vassalo. A prática mercantil principal era o cultivo da terra, exercido pelo vassalo. A igreja também era grande detentora de terra, sendo o clero outra classe social deste período.

Teocentrismo: Deus é o centro do universo, e o homem deve se dispor a ele e aos seus desejos, pois Deus é o responsável pelas regras sociais e pelos comportamentos individuais. O homem estava submetido à predestinação estabelecida por Deus que também definia os limites entre o bem e o mal.

Origem Provençal: Portugal possui relações estreitas com o sul da França, no que se refere à economia, religião, militarismo, cultura, dinastias. Como esta região passava por uma prosperidade econômica, desenvolveu uma cultura baseada na riqueza e  no requinte  provençal cujos portugueses sofreram influência.

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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As leis dos Mapas Mentais

Os mapas mentais ou mapas da mente são recursos interessantes para organização de ideias e conteúdos.  É como se fosse um diagrama que possui alguns elementos fundamentais para auxiliar na memorização, no aprendizado e/ou na organização daquilo que almeja realizar ou estudar.

A proposta visa a representação do maior número de detalhes daquilo que permeia o conceito da ideia a ser trabalhado ou estudado. É uma forma de tentar ilustrar uma ideia, um conceito. Concretizando-as na tentativa de torná-la, digamos mais palpável.

Esse processo foi formalizado pelo escritor inglês, Tony Buzan, sistematizando-o. Desse modo, ele criou algumas regras para intensificar os resultados que se pretende ao criar um Mapa Mental.

Tony Buzan nasceu em 2 de junho de 1942,  alguns estudiosos o associam como criador do mapa mental, auxiliando mais de 250 milhões de pessoas a liberar potencial do cérebro. Entretanto, outros preferem conceber a ideia de que o Tony Buzan apenas formalizou algo que as pessoas, indistintamente e independente do conhecimento das regras criadas pelo escritor Inglês já utilizavam.

Tony Buzan é autor de assuntos sobre psicologia, apresenta várias justificativas sobre a eficiência dessa prática, ele traz apontamentos sobre liberar potencial do cérebro, o uso da memória, questões que podem melhorar a aprendizagem,  já escreveu vários livros a respeito

As sete leis de Tony Buzan são:

  1. Comece no centro de um papel;
  2. Use uma imagem central que designe a ideia principal;
  3. Utilize-se de cores;
  4. Conecte ramos primários, secundários, terciários e quantos forem necessários;
  5. Deixe os ramos curvilíneos para dar um aspecto de árvore a eles;
  6. Use imagens, nossa mente lida melhor com elas;
  7. Use palavras chaves.

Referências:

http://www.mapasmentais.idph.com.br/

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