Cantiga de amor – Trovadorismo

A essa altura já sabe que quando falamos em produção literária no Trovadorismo, a sua principal marca são as cantigas que são divididas em dois gêneros literários. No artigo de hoje falaremos sobre as cantigas de amor, mas antes disso é fundamental compreendermos o que vem a ser o gênero lírico, pois tanto a cantiga de amor quanto a de amigo estão inseridas nesse gênero literários, conforme apresentado no quadro abaixo:

Gênero lírico Gênero satírico
Cantigas de amor Cantigas de escárnio
Cantigas de amigo Cantigas de maldizer

 

Gênero lírico

O gênero lírico consite na manifestção do “eu”, ou seja, os sentimentos pessoais são descritos, tais como; a angústia, a emoção e os estados da alma, por isso é o gênero mais subjetivo. O nome lírico vem da palavra lira, instrumento musical que acompanha os cantos gregos, ressaltando que por vários anos os poemas eram cantados. Dentre as várias formas de poemas, encontra-se:

  • Ode: poesia de exaltação.
  • Hino: poesia de gloricação da pátria o ude deuses.
  • Elegia: poesia com temáticas tristes (morte, fatos tristes).
  • Edílio e écloga: poesia pastoris e bucolícas.
  • Sátira: poesia crítica.

Tendo em vista que essas produções eram baseadas numa cultura de oralidade tão comum na Era Medieval as cantigas eram poesias produzidas para serem cantadas sob o acompanhamento de instrumentos musicais e também de um coro. Elas eram sempre escritas por homens, mas o eu lírico muitas vezes mudava.  Cada tipo de cantiga possui objetivos e características específicos. Observe estes elementos nas cantigas de amor.

  • Composição masculina;
  • Eu lírico masculino;
  • Ambiente palaciano (corte);
  • Amor idealizado (a mulher é um ser idealizado, superior, o eu lírico é servo da mulher amada);
  • Composições que projetam a vida na corte;
  • Visão subjetiva do amor (apresenta o sofrimento amoroso).

Um dos principais compositores de cantigas de amor foi o rei trovador D. Diniz, lembrando que estas cantigas eram produzidas no idioma galego-português. Eis uma de suas composições.

Canção de amor

D. Diniz

Quer’eu em maneira de proença!

fazer agora um cantar d’amor

e querrei muit’i loar lmia senhor

a que prez nem fremosura nom fal,

nem bondade; e mais vos direi ém:

tanto a fez Deus comprida de bem

que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quizo Deus fazer tal,

quando a faz, que a fez sabedord

e todo bem e de mui gram valor,

e com tod’est[o] é mui comunal

ali u deve; er deu-lhi bom sém,

e desi nom lhi fez pouco de bem

quando nom quis lh’outra

foss’igual

Ca mia senhor nunca Deus pôs mal,

mais pôs i prez e beldad’e loor

e falar mui bem, e riir melhor

que outra molher; desi é leal

muit’, e por esto nom sei oj’eu quem

possa compridamente no seu bem

falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.

Tradução:

 Quero à moda provençal

fazer agora um cantar de amor,

e quererei muito aí louvar minha senhora

a quem honra nem formosura não faltam

nem bondade; e mais vos direi sobre ela:

Deus a fez tão cheia de qualidades

que ela mais que todas do mundo.

Pois Deus quis fazer minha senhora de tal modo

quando a fez, que a fez conhecedora

e todo bem e de muito grande valor,

e além de tudo isto é muito sociável

quando deve; também deu-lhe bom senso,

e desde então lhe fez pouco bem

impedindo que nenhuma outra fosse igual a ela

Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal,

mas pôs nela honra e beleza e mérito

e capacidade de falar bem, e de rir melhor

que outra mulher também é muito leal

e por isto não sei hoje quem

possa cabalmente falar no seu próprio bem

pois não há outro bem, para além do seu.

 

 

Nota geral:

“ Cantiga de amor que D. Dinis pretende fazer “à maneira provençal”, o que se traduz num louvor superlativo à sua senhora: a mais formosa, a mais bondosa, a que tem maiores qualidades, a mais nobre, mas também a que sabe ser simples quando convém, a mais sensata, a que sabe falar bem e rir melhor, a mais leal…

Trata-se de uma das mais conhecidas cantigas de amor de D. Dinis, uma composição que não só confirma o seu o perfeito conhecimento lírica provençal, mas também a consciência que tinha de ser “a maneira provençal” a matriz do género galego-português a que pertence esta composição, a cantiga de amor,

Acrescente-se que, formalmente, a cantiga segue igualmente o modelo provençal, sendo de mestria, com estrofes uníssonas e ainda com inclusão de palavra-rima.” *

 

Existem vários cantores e grupos musicais que se dedicam a fazer interpretações dessas cantigas medievais ou ainda apresentar uma releitura, desenvolvendo assim, uma recriação moderna de tais composições. É possível encontrar algumas dessas interpretações no Youtube, mas de forma mais completa existe um site português (http://www.cantigas.fcsh.unl.pt) que apresenta um verdadeiro e complete banco de dados com todas as informações acerca das cantigas trovadorescas, assim como dos cancioneiros, apresentando inclusive imagens desses cancioneiros. Vale a pena conhecer!!!

*Nota geral retirada do site: http://www.cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=544&tr=4&pv=sim

 

Referências:

http://www.cantigas.fcsh.unl.pt

Com amor,

Jessica Marquês.

 

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Foco narrativo

Já sabemos que a tipologia textual conhecida como narração tem elementos e estruturas específicos, diante disso existem características que devemos conhecer, uma delas é o foco narrativo, que consiste na estrutura narrativa, ou seja, na construção do texto na primeira pessoa do discurso ou na terceira. Para cada construção existem estratégias e recursos diferentes. Desse modo temos:

Foco narrativo em primeira pessoa

  1. Narrador personagem: Conta a história em primeira pessoa, pois faz parte dela, por isso esse texto é marcado por subjetividade, limitada a um único ângulo de visão acerca da história. Apresenta além dos fatos, uma carga emocional sobre eles. O interessante é que este tipo de narrador pode contribuir para o clima de suspense da narrativa tendo em vista que as circuntâncias e os fatos são limitados para o narrador, o leitor descobre junto com ele no decorrer da narrativa.
  2. Narrador protagonista: como o próprio nome diz, aqui o narrador personagem é o foco principal da narrativa, assim toda a trama gira em torno dele, por isso, ao narrar apresenta-se com uma carga emocional muito maior. O leitor terá, nesse caso, a visão subjetiva dessa personagem e uma visão limitada às suas emoções com relação à narrativa. Saberá da trama sob o olhar de quem a vive diretamente.
  3. Narrador testemunha: o narrador faz parte da história, mas não é a personagem principal, ainda sim, teremos uma visão subjetiva da situação, entretanto, como a trama não está centrada nele, a carga emocional é menor.

 

Foco narrativo em terceira pessoa

  1. Narrador onisciente: a palavra “onisciente” deriva do latina cujo prefixo “oni” significa todo e a palavra “ciente” refere-se àquele que tem ciência, ou seja, conhecimento de algo. O narrador onisciente, é como se fosse um deus na narrativa, ele conhece todos os ângulos da história, inclusive o pensamento, as sensações, as emoções de todas as personagens. Ele é capaz, inclusive de descrever ações que acontecem ao mesmo tempo em lugares diferente, ele também é onipresente.
  2. Narrador onisciente neutro: por mais que ele conheça tudo acerca da história e das personagens, ele apenas descreve as ações e as personagens, sem apresentar opiniões a respeito delas, desse modo, ele não influencia o leitor. Descreve os fatos para uma compreensão mais ampla da narrativa.
  3. Narrador onisciente seletivo: conhecedor de tudo, apresenta os fatos, os acontecimentos e  as personagens e ainda tece observações e opiniões acerca de cada elemento da narrativa, trazendo certa influencia para o leitor se posicionar contra ou a favor.
  4. Narrador observador: Não faz parte da história, nem conhece todos os elementos da narrativa, este narrador tem apenas um ângulo da história. É alguem que acompanha uma história de fora, por isso, suas observações são mais objetivas, porém limitadas ao seu raio de visão acerca dos acontecimentos concernentes àquela narrativa.

A não ser que seja uma intenção dentro de sua produção narrativa, não se deve mudar o foco narrativo de seu texto ora escrevendo na terceira, ora na primeira pessoa do discurso.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

 

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Qual a diferença entre onde e aonde?

Antes de entendermos as diferenças ortográficas dessas formas é relevante compreendermos que o termo “onde” não pode ser usado como o curinga na qual muitas vezes ele é aplicado, tendo em vista que só se deve utilizar onde quando referir-se a lugar físico, caso contrário deve-se utilizar o termo “em que” ou “no qual” (e suas variantes)

A reunião onde  em que/ na qual atuei foi fenomenal!

Nas oportunidades onde  em que/ as quais eles se encontravam.

 O estatuto onde  em que / no qual ele considerou para a sua defesa final estava desatualizado.

Atençao! Sempre que utilizar o termo “onde” em seu texto, volte e verifique se ele está fazendo referência a lugar físico, se não for o caso, substitua-o pelo termo “em que”.

Sabendo que onde ou aonde só são utilizados para se referir a lugares físicos, quando devemos utilizá-los?

Para considerar a diferença entre os termos, deve-se considerar os verbos que os acompanham, sabendo fazer essa análise a diferenciação é simples, veja:

  1. Onde : será utilizado com verbos que indicam estado ou permanência, por exemplo:

Não sei onde estou.

Vivo no mesmo prédio onde mora  o homem-aranha.

Onde ficou meu celular?

  1. Aonde também é utilizado para trasmitir a ideia lugar, mas deverá ser utilizado quando acompanhado de verbos que indicam movimento, tais como: ir, chegar, dirigir, dentre outros.

Aonde você vai?

Aonde chegamos agora?

Aonde devo me dirigir para conseguir essa assinatura?

 

Basta considerar o verbo para diferenciar!!!

Gramaticalmente o termo  “onde” pode exercer a função de pronome relativo, advérbio interrogativo, adjunto adverbial os quais serão apresentados quando iniciarmos nossos estudos sintáticos

Até breve!

Jessica Marquês.

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As aventuras de Astérix e Obélix

Hoje é comum se comemorar quando um vídeo (numa das plataformas mais acessadas da internet – o Youtube ) alcança milhares de expectadores em um único dia. Mas se imagine no ano de 1959 em que num único dia uma revista vendeu mais de 300 mil exemplares. Esta revista chamava-se “Pilote” e foi na página 20 dela que surgiu a primeira narrativa do jovem destemido gaulês Asterix. Era também o lançamento da referida revista, fundada No dia 29 de outubro de 1959 por dois franceses Albert Uderzo e René Goscinny.
Este seria o início de uma parceria que duraria quase três décadas, sendo interrompida por conta da trágica morte de René Goscinny em 05 novembro de 1977. Na época, muitos acreditavam que ali também seria o fim da personagem principal e de suas aventuras, entretanto, o seu parceiro deu continuidade ao trabalho para não sucumbir ao desgosto, assim ele cria as edições Albert René fazendo uma singela homenagem a todas as produções posteriores a René com o dizer inicial: a René. Aos 84 anos de idade, Alber Uderzo aposentou-se, isso após atingir a marca histórica de 350 milhões de unidades vendidas em diversas línguas e partes do planeta.
Um dos sonhos dos criadores também era criar desenhos animados, o que eles conseguiram com a criação da Studios Idéfix onde realizaram Os 12 trabalhos de Astérix. Mas os sucesso dessa história em quadrinhos extrapolou alguns limites, tais como: 38 álbuns (com as histórias em quadrinhos) narrando as aventuras desses gauleses, 8 álbuns de animação e 4 live actions, além de inúmeros jogos educativos acerca do período em que acontece a história. O sucesso dessa produção também tem grandes marcas linguísticas, pois ele já foi traduzido para mais de 110 idiomas e dialetos. Nota-se também que ele tem um parque temático com o seu nome e milhares de produtos derivados e outros tantos projetos.
Acompanhar as divertidas das narrativas é uma viagem no tempo para o ano 50 antes de Cristo, período em que o império Romano reinava e conquistava a região de Gália, território habitado pelos gauleses que compreende as regiões que conhecemos hoje como: França, Suíça, Holanda, Bélgica e parte da Alemanha.
Logo na primeira página de muitas edições eles apresentam um breve resumo situando o tempo e o ambiente da narrativa, além disso, para os desavisados, que mesmo com quase 60 anos, por ventura ainda não conhecem as principais personagens, eles apresentam um breve perfil de cada personagem.
1. Asterix: o herói das aventuras, ele é pequeno, porém sagaz e de inestimável inteligência. Por isso, são confiadas sem hesitação, todas as missões perigosas. Ele possui uma força sobre-humana, e o responsável por isso, é a poção mágica do druida panomarix;
2. Obelix: aquele amigo inseparável do herói, Asterix, extremamente apaixonado pela carne de javali, tem como profissão oficial carregador de manires. Sempre que surge uma aventura ao lado de seu grande amigo, ele larga tudo para acompanha-lo. É tutor de um lindo cão ecológico chamado Ideafix que o acompanha em muitas jornadas;
3. Panoramix: é o druida da aldeia, responsável por preparar as poções mágicas que confere força sobre-humana, mas também é conhecedor de outros segredos mágicos;
4. Assuranceturix: é o bardo da aldeia, acredita que tem muito talento, mas os demais integrantes da tribo refutam essa ideia e acrescentam certa dose de abominável às suas produções;
5. Abraracurcix: o chefe da tribo, respeitado por seus súditos e temido por seus inimigos, ele é impulsivo, corajoso e majestoso.
Ao longo da narrativa podemos conhecer alguns jargões linguísticos eu alguns personagens emanam, tais como: “Estes romanos (ou outro povo) são loucos!” Frase proferida por Astérix em diversas edições; “Amanhã não será a véspera desse dia!”, dita pelo líder da aldeia, pois este teme que o céu caísse sobre a sua cabeça; “quem é gordo?/ eu não sou gordo”, geralmente essa expressão vem acompanhada de um golpe frontal, o responsável por ela é o grande Obelix, e outras tantas. As piadas são acompanhadas de trocadilhos e situações adversas aos heróis.
Cada álbum regular tem aproximadamente 48 páginas, as quais podemos conhecer a luta desse povo gaulês contra César, o imperador romano. Manifesta-se também em suas produções a veneração aos deuses celtas, contrapondo-se, assim à fé romana.
Acredita-se que grande parte das histórias têm como inspiração um chefe gaulês real, Vercingetórix, que liderou a revolta gaulesa contra o império romano no período de 53 a. C a 52 a. C. Antes dessa revolução ele chegou a servir ao exército romano. A sua rendição, após a luta foi motivo de destaque para diversas obras de arte, pois o guerreiro não aceitou que os centuriões o arrastasse de mãos e pés atados para prostrar-se diante de César, pelo contrário, ele cavalgou até o procônsul vestido com sua rica armadura. Após o espanto pela solenidade foi verbalmente atacado por César e depois foi arrastado até Roma onde ficou em cárcere durante seis anos até conhecer o duro metal do machado daquele carrasco que daria fim ao seu sofrimento e humilhação.
É uma leitura simples, rápida, fácil, historicamente educativa, tendo em vista que é voltada para o público jovem, assim como era desde o lançamento da revista “Pilote”.
Referencias

Series de historias em quadrinhos: as aventuras de Asterix.
Thierry, Amédée (1828). Histoire des Gaulois, despuis les temps les plus reculés jusqu’à l’entière soumission de la Gaule à la Domination Romaine. [S.l.]: A la Librairie Parisienne et Étrangere. Consultado em 25 de dezembro de 2012

Até breve!
Jessica Marquês.

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Você (Brasil e Portugal)

Já parou para pensar que o comumente “você” utilizado no Brasil pode ter uma aplicação um pouco diferente em Portugal? Sabemos que o pronome de tratamento “você” é utilizado para se referir a segunda pessoa (com quem se fala), mas ele recebe a conjugação verbal na terceira pessoa. Isso acontece, pois existe uma segunda pessoa indireta.

A segunda pessoa indireta será considerada quando pronomes que indicam o nosso interlocutor, ou seja, a pessoa com quem falamos, a segunda pessoa do discurso, entretanto, ao invés de apresentar verbos conjugados na segunda pessoa do discurso, realiza a construção textual por meio da terceira pessoa do discurso. Temos essa situação com os pronomes de tratamento.

Em algumas regiões do Brasil, o pronome de tratamento “você” ganhou estatuto de pronome pessoal, e nessas áreas houve quase uma extinção do uso do “tu” e do “vós”. Na maior parte do Brasil, o “você” é a forma mais comum de se dirigir a qualquer pessoa, é claro que para as pessoas mais velhas ou em situações formais, superiores hierárquicos ou autoridades, nós utilizamos os pronomes de tratamento, “senhor” ou “senhora” e as suas variações de número.

É nesse quesito que encontramos a diferença do pronome “você” entre Portugal  e Brasil, porque esse pronome em Portugal é uma forma de tratamento semi-formal, então nas situações de informalidade que no Brasil chamamos a pessoa de “você”, em Portugal seria como se num contexto informal você estivesse tratando a pessoa tal qual nós aplicamos o senhor/senhora no Brasil.

Dependendo do contexto, isso não pega muito bem, apesar de que os Portugueses já sabem como nós utilizamos o “você” e entendem que é a nossa maneira informal de se dirigir a alguém. E esse “você”, de maneira informal, não é exclusivo da língua portuguesa falada no Brasil, outros países lusófonos também o utilizam de maneira informal. E como existem muitos imigrantes desses países vivendo em Portugal esses conterrâneos já conhecem essa nossa prática com o termo “você”.

Uso dos pronomes pessoais e formas de tratamento
1.ª pessoa singular Eu falo
2.ª pessoa singular Tu falas Brasil (algumas regiões): pouco usado

Portugal: informal

3.ª pessoa singular Ele/Ela

Você

O senhor/A senhora

A gente

fala Você no Brasil: informal

Você em Portugal e algumas regiões brasileiras: semi-formal

O senhor/A senhora: sempre formal

A gente: sempre informal

1.ª pessoa plural Nós falamos
2.ª pessoa plural Vós falais Brasil: não se usa

Portugal: usa-se (pouco) nos dialectos setentrionais e galegos

3.ª pessoa plural Eles/Elas

Vocês

Os senhores/As senhoras

falam Vocês: sempre informal

Os senhores/As senhoras: sempre formal

Se, por exemplo, você precisar escrever algum texto publicitário é fundamental conhecer essas diferenças, e aplicá-las no contexto correto, seja ela formal ou informal. Além disso, é primordial produzirmos um texto ou enunciarmos utilizando a Uniformidade de Tratamento, ou seja, quando escrevemos ou nos dirigimos a alguém, não é permitido mudar, ao longo do texto, a pessoa do tratamento escolhida inicialmente. Assim, por exemplo, se começamos a chamar alguém de “você”, não poderemos usar “te” ou “teu”. O uso correto exigirá, ainda, verbo na terceira pessoa.

Por exemplo:
Quando você vier, eu te abraçarei e enrolar-me-ei nos teus cabelos. (errado)
Quando você vier, eu a abraçarei e enrolar-me-ei nos seus cabelos. (correto)
Quando tu vieres, eu te abraçarei e enrolar-me-ei nos teus cabelos. (correto)

Algumas observações sobre o modo como se dirigir a segunda pessoa do discurso, num contexto informal no Brasil:

  • Apesar do pouco uso do pronome tuno português falado na maior parte do Brasil, o seu correspondente pronome oblíquo te ainda é amplamente utilizado no português brasileiro, frequentemente em combinação com formas pronominais e verbais de terceira pessoa. Apesar de comum mesmo entre falantes escolarizados, o uso de te com você é condenado pelas gramáticas normativas usadas nas escolas brasileiras e é evitado na linguagem formal escrita.
  • O pronome possessivoteu também é ocasionalmente usado no português brasileiro para referir-se à segunda pessoa, embora seja menos comum do que o oblíquo te.
  • A combinaçãovocê/te/teu no português brasileiro falado assemelha-se em natureza à combinação vocês/vos/vosso encontrada requentemente no português europeu coloquial.
  • Otu é amplamente utilizado nas regiões norte  e sul, mas conjugado requentemente na 3ª pessoa do singular: Tu fala, tu foi, tu é. Em algumas regiões do Norte e do Nordeste, o uso do tu na forma culta (conjugado na 2ª pessoa do singular) é até bem mais usado que o você.
  • Em alguns lugares da região Sul e em praticamente todo o Nordeste, o tratamento portu é mais comum, usando-se os pronomes pessoais oblíquos de forma mais consistente (p.ex. para ti, com o mesmo significado que teria para você).
  • Em parte da região sul e do Nordeste, muitas vezes conjuga-se o pronome pessoal tu com a mesma forma utilizada na 3ª pessoa do singular do pretérito imperfeito do subjuntivo para referir-se ao pretérito perfeito do indicativo. Ex: Tu fizesse isso? Tu comesse no bar ontem?

 A gente se vê,

Jessica Marquês.

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O eu lírico

Para compreendermos profundamente as cantigas do Trovadorismo é fundamental entendermos o eu lírico, aliás, para sermos capazes de analisar qualquer produção poética, é primordial conseguirmos localizar o eu lírico presente no poema ou canção que se analisa.

O Eu lírico também pode ser chamado de eu poético ou sujeito lírico, é como se fosse o narrador do poema. Quando se lê um poema e percebe-se a manifestação do eu lírico, ou seja, aquela personagem, aquela voz presente nos ali nos versos. É válido ressaltar que esta voz que fala através do poema,  não precisa ser necessariamente o autor do referido poema.

São personas diferentes o autor e o eu lírico, por exemplo, eu poderia escrever um poema cujo eu lírico fosse uma criança, um homem, um cachorro. Sendo eu uma mulher adulta! Eu seria a autora do poema, e a criança, o homem ou o cachorro presente em meus versos, seria o eu lírico. Então o poeta e o eu lírico são seres diferentes no poema, não devemos confundir a pessoa real, com a construção fictícia. O eu lírico é a voz que fala no poema.

É válido notar ainda que a subjetividade do criador e as suas influências e experiências de vida poderão estar presentes no poema. Mas ainda assim, no momento em que se produz o seu texto poético, é criado ali outro ser, um ser que fala através do poema “autopsicografia” de Fernando Pessoa. Observe:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Esse poema de Fernando Pessoa, escritor português que nos encantou de tantas maneiras por meio de seus heteronômios*. Podemos afirmar que Fernando Pessoa é a prova de que o poeta não cabe no poema, pois ele criou mais de 70 heteronômios. Dentre eles os mais marcantes são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Estes heteronômios possuem abordagem e estilo completamente diferentes. O Fernando Pessoa talvez represente o fato de que o dono do poema é o eu lírico e não o poeta.

O poema abaixo é uma Ode de José Paulo Paes que retrata o sofrimento do autor/ que também é o Eu-lírico. Aqui o autor e o eu lírico se confundem, pois o José Paulo Paes sofria de uma grave doença chamada aterosclerose.  Com o agravamento da doença e a circulação prejudicada, a sua perna esquerda teve de ser amputada. Eis o poema:

Ode à minha perna esquerda

1

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?

2

Desço
………que …………………subo
…………….desço…… que
……………………subo
……………………camas
……………………imensas.

Aonde me levas
todas as noites
……..pé morto
……..pé morto?
Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
…..a
…..i
…..n
…..a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

……..Por que me deixaste
………………………..pé morto
………………………..pé morto
……..a sangrar no meio
……..de tão grande sertão?

…………………………não
…………………………n ã o
…………………………N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.
Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
….assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambu-
….latório apareceram inexplicavelmente sem tampa,
….os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda… direita
esquerda… direita
………………..direita
………………..direita

…Nenhuma perna
…é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.

 

* Heteronômio: é o nome imaginário que um criador identifica como o autor de obras suas e que designa alguém com qualidades e tendências marcadamente diferentes das desse criador.

Abraços,

Jessica Marquês.

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Estrutura da narração

Como um bom texto, a narração terá uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão, entretanto, na narrativa eles possuem características específicas e nomenclaturas diferentes.  Como sabemos todo enredo é composto por um conflito vivido por um ou mais personagens, cujo foco principal é prender a atenção do leitor por meio de um clima de tensão que se organiza em torno dos fatos e os faz avançar. Para construir essa narrativa pode-se respeitar a seguinte estrutura:

  1. INTRODUÇÃO: é parte inicial da história, quando você pega alguns livros, está intitulado como prólogo, nele o autor vai ambientar a narrativa, começar a descrever as personagens a apresentar estas personagens e também nos situa no tempo da narrativa. Além disso, aqui é que se vão apresentar os fatos iniciais, os porquês de aquela história existir. É o primeiro momento que você vai prender o leitor. Ele precisa ficar com uma pulga na orelha, ele precisa ficar intrigado. É claro que algumas narrativas não nos deixa intrigado, pois desenvolvem o início da narração de forma mais lenta, mais carregada, mais truncada. E o que resta é a expectativa, afinal, o que vai acontecer?
  1. DESENVOLVIMENTO da narrativa, do enredo, aqui é a história propriamente dita, ela recebe o nome de trama. E na trama estão presentes dois elementos importantes: 1º Compilação: a parte em que se desenvolve o conflito. Porque para que a história aconteça é necessário que haja um conflito, ou seja, algo que tire as personagens da sua rotina comum, um acontecimento que quebre a estabilidade das personagens. Porque se for apenas apresentar a rotinas das personagens, não se tem uma narrativa, e sim um relato. Para a narrativa existir é necessário que algo aconteça com as personagens. 2º Clímax: é o ponto culminante de toda a trama, é o momento de maior tensão da narrativa, é a parte em que o conflito atinge seu ápice, tendo em vista que tudo o que foi construído e apresentado na narrativa; as personagens, o tempo, os fatos, a maneira como eles aconteceram, tudo contribui e foi preparado para este momento, é como se tudo levasse para uma encruzilhada, como se fosse um funil, tudo o que se apresentou levou a um determinado lugar, e agora a personagem deverá escolher qual caminho seguir, lembrando que não é possível escolher todos os caminhos… Haverá apenas uma opção. É aquele momento do livro, ou do texto que você fica sem ar, é quase como se a terra parasse de girar por um segundo.
  1. CONCLUSÃO: que também pode ser chamado de desfecho, ou seja, o caminho que as personagens decidiram. Aqui no desfecho, nós temos a solução do conflito instaurado na narrativa, é a conclusão da história, o final o epílogo. É nesse momento que você volta a respirar novamente, seja aliviado, ou não. É claro que este desfecho vai apresentar final trágico, ou cômico, ou triste, ou até mesmo surpreendente. Esse tipo de final depende muito tipo de obra e, muitas vezes, da vinculação literária daquele escritor ou da obra.

Se você vai escrever uma narrativa, você pode fazer de duas formas. Você pode criar um mapa mental  em que vai inserir todos os elementos da sua narrativa, antes de começar a escrever, vai planejar as personagens, as problemáticas, as compilações, o próprio clímax e obviamente o desfecho, então você sabe de toda a história antes de escrever. Ou você pode ir construindo a sua narrativa e se surpreendendo com as situações que você vai criando, com as problemáticas e soluções que vão surgindo. Mas quando se trata de uma narrativa longa, com a falta da inspiração, por exemplo, pode ser que você, ao invés de chegar numa encruzilhada, você chegue numa rua sem saída… Por isso, vale a pena planejar e se organizar.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

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As funções da linguagem

Você já parou para pensar sobre os seus processos comunicativos? Faça uma breve análise, todas as vezes que emana algo de sua mente para outrem existe uma determinada intenção nesta comunicação.

E isso não é algo negativo, não quer dizer que há outras intenções por trás daquilo que se diz ou escreve (se bem que, às vezes, pode existir), e que sejam más intenções, mas todas as vezes que qualquer frase é construída por você ela vem recheada de intenções.

De acordo com o dicionário Houaiss intenção significa “aquilo que se pretende fazer; propósito, plano, ideia/ aquilo que se procura alcançar, conscientemente ou não; propósito, desejo, intento”. Desse modo, todas as vezes que você se comunica tem algum objetivo nessa comunicação, seja consolar alguém, divertir, explicar, justificar, dentre outros.

Diante desse fato, o mesmo linguista que formulou o conceito com os elementos da comunicação presentes no Ato Comunicativo, Roman Jakobson, também desenvolveu um estudo sobre as intenções dos processos comunicativos, desse modo, existem as funções da linguagem.

Tais funções relacionam-se diretamente com cada elemento da comunicação, desse modo temos:

Ao longo das semanas que se seguem iremos conceituar cada uma das funções da linguagem:

  1. FUNÇÃO EMOTIVA/ EXPRESSIVA

Como fica claro no esquema acima, essa função está centrada “emissor” da comunicação, ou seja, por meio dela o ato de fala é utilizado para exprimir o estado de espírito, as emoções, as opiniões desse “emissor”. Para esse tipo de construção é comum se utilizar alguns elementos:

  1. Subjetividade: nesse tipo de texto será apresentada uma visão pessoal, particular, individual de determinada situação, é chamada assim pois é a característica do que é subjetivo, ou seja, pertencente ao sujeito, ao “eu”.
  2. Interjeição: a classe de palavras que se encarrega de exprimir as emoções, os sentimentos ou estados de espírito é uma ótima opção para este tipo de produção comunicativa. Por meio das interjeições é possível que este emissor consiga liberar a sensação emotiva construída em seu texto.
  3. Sinais de pontuação: para acompanhar essa interjeição e falar das próprias emoções, o emissor também recorre ao recurso da pontuação, construindo um texto com exclamações, interrogações, reticências e qualquer sinal que o auxilie a exprimir aquilo que sente.
  4. Primeira pessoa do discurso: já que este emissor está intencionalmente falando de si mesmo, expondo a sua visão de mundo, é comum que ele recorra às construções na primeira pessoa do discurso, principalmente no singular. Por isso, nesse tipo de texto, encontramos verbos, pronomes pessoais e possessivos na primeira pessoa do discurso.

Observe tais elementos em destaque no poema abaixo

 

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. *

Alberto Caeiro

Heterônimo de Fernando Pessoa.

* O único elemento da função emotiva que faltou nesse poema foram as interjeições, mas não é obrigatório ter todos elementos, eles servem apenas para nortear nosso estudo de identifica, analisar e/ ou construir um texto na referida função. 

2. FUNÇÃO POÉTICA

Ela está centrada na “mensagem” do nosso ato comunicativo, na medida em que a maior preocupação do emissor, é no modo como vai construir e apresentar essa mensagem. Nesse tipo de intenção comunicativa o mais importante é como se fala ou escreve, não o quê. Para isso, o escritor-poeta, utiliza dos seguintes recursos para sua composição literária:

  1. Estilo da escrita: nesse tipo de função, o autor vai se preocupar com as escolhas das palavras, com a posição que elas ocupam no texto, não são meras palavras soltas, por mais que, às vezes, as significações ou ressignificações mais profundas dessas colocações lexicais fujam à nossa interpretação.
  2. Conotação: o sentido figurado das palavras será uma constante nesse tipo de produção, pois os autores desse tipo de texto pretendem criar novos significados para as palavras, elas são ferramentas importantíssimas, para que a mensagem seja bem elaborada.
  3. Combina expressões: este autor elabora novas possibilidades de combinações com as expressões, é aquilo que enriquece a produção Literária, que nos diferencia dos demais seres, essa capacidade de abstrair a linguagem e os demais elementos que nos cercam para criar novos significados e sentidos, sejam eles concernentes às palavras ou à mensagem presente nelas.
  4. Sonoridade e ritmo: já que a intenção está centrada no modo como esta mensagem se apresentará, haverá uma preocupação com a colocação das palavras, com o som que determinadas palavras combinadas produzem. Observe essa estrofe do poema simbolista “Violões que choram” de Cruz e Souza:

Vozes veladas, veludosas vozes,

volúpias dos violões, vozes veladas,

vagam nos velhos vórtices velozes

 dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

E. Figuras de linguagem: tendo em vista a constante brincadeira com a palavra, a apropriação das formas mais ricas e interessantes da linguagem, na função da poética, é comum encontrar diversas figuras de linguagem, como: aliteração (repetição intencional de consoantes), assonância, (repetição intencional de vogais),  sinestesia (mistura dos sentidos humanos), dentre outras.

Observe o poema “Rumo ao sumo” do Leminski, nota-se que não são palavras soltas, mas que constroem significações profundas daquilo que cerca os seres.

Disfarça, tem gente olhando.

Uns, olham pro alto,

cometas, luas, galáxias.

Outros, olham de banda,

lunetas, luares, sintaxes.

De frente ou de lado,

sempre tem gente olhando,

olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,

procurando algum vestígio

do tempo que a gente acha,

em busca do espaço perdido.

Raros olham para dentro,

já que dentro não tem nada.

Apenas um peso imenso,

a alma, esse conto de fada.

Paulo Leminski

 

      3.FUNÇÃO APELATIVA

Ao se produzir este tipo de comunicação a intenção é alcançar o receptor, ele será o foco principal da interpelação, seja para convencê-lo de algo ou apresentar algo diretamente a ele, uma orientação, um conselho, por meio de um apelo, daí o nome da função.

Desse modo, o locutor/ emissor se apropria de determinados elementos para atingir o seu receptor. A função apelativa também pode ser chamada de CONATIVA. Esse tipo de texto é bem comum em anúncios publicitários, por exemplo.

  1. Modo imperativo: já que este modo verbal tem a intensão de apresentar uma ordem, conselho ou sugestão, nada melhor do que utilizá-lo nas produções apelativas. Constrói-se o texto dizendo o que o receptor deve ou não deve fazer.
  2. Vocativo: já que o receptor é o foco da comunicação, chamar a atenção dele é um recurso interessante para convencê-lo / orientá-lo de algo. Por isso, ao longo da produção conativa utiliza-se o vocativo para buscar a atenção do receptor para o emissor. O vocativo é o termo que serve para chamar, interpelar, invocar alguém. Ele vem separado da frase, por vírgulas, pois não tem relação sintática com ela.
  3. Segunda pessoa do discurso: tendo em vista que a comunicação está voltada para a pessoa com quem se fala ou escreve, ou seja, para a segunda pessoa do discurso, é comum encontrar verbos, pronomes e outras colocações nessa categoria discursiva.

Observe estes elementos nos exemplos a seguir:


 

    4.FUNÇÃO REFERENCIAL

Como o próprio nome diz, essa função está centrada no referente do ato comunicativo, e tem como foco apresentar a informação, o contexto de determinada produção comunicativa. Ela também pode ser chamada de função denotativa, tendo em vista que usará as palavras em seu sentido real, pois a intenção não é realizar trocadilhos, nem brincar com a palavra, ao contrário, a intenção é usar a palavra para apresentar de forma clara aquilo que se pretende comunicar, pretende-se aqui evitar as redundâncias. Encontra-se esse tipo de função da linguagem em textos jornalísticos, científicos, técnicos, dentre outros. Assim como as demais funções da linguagem, possui características específicas, tais como:

  1. Linguagem objetiva: já que este texto está centrado no referente, ou seja, no contexto da comunicação, o texto precisa ser claro e direto, apresentando
  2. O que dizer: Enquanto a função poética está preocupada com em como vai construir a sua mensagem, com a forma da mensagem a função referencial está preocupada com o que ela vai dizer, qual a informação que será passada, pois isso ela precisa ser clara, direta, objetiva.
  3. Verbos na terceira pessoa do discurso: serão mais comuns nesse tipo de produção aqueles verbos na terceira pessoa do discurso, pois o emissor procura distanciar-se da produção.
  4. Impessoalidade: o emissor quer dar o foco mesmo no conteúdo ali descrito, nos dados concretos, nas circunstancias e nos fatos. Por isso, não deve haver espaço para o autor falar de si mesmo, ou se sua visão pessoal/ subjetiva de algo.

Observação: é comum alguns concursos e provas e também o ENEM apresentarem questões comparando a função referencial com a poética. Ou apresentando textos que possuem as características de cada, solicitando análise.

Exemplo: Texto informativo.  

NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO É ADIADO PARA 2016 

Por Wanja Borges

Prorrogação visa a alinhar cronograma brasileiro com o de outros países, como Portugal. A vigência obrigatória do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi adiada pelo governo brasileiro por mais três anos. A implementação integral da nova ortografia estava prevista para 1º de janeiro de 2013, contudo, o Governo Federal adiou para 1º de janeiro de 2016, prazo estabelecido também por Portugal.

Assinado em 1990 por sete nações da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e adotado em 2008 pelos setores público e privado, o Acordo tem como objetivo unificar as regras do português escrito em todos os países que têm a língua portuguesa como idioma oficial. A reforma ortográfica também visa a melhorar o intercâmbio cultural, reduzir o custo econômico de produção e tradução de livros e facilitar a difusão bibliográfica nesses países.

Nesse sentido, a grafia de aproximadamente 0,5% das palavras em português teve alterações propostas, a exemplo de “idéia”, “crêem” e “bilíngüe”, que, com a obrigatoriedade do uso do novo Acordo Ortográfico, passaram a ser escritas sem o acento agudo, circunflexo e trema, respectivamente. Com o adiamento, tanto a ortografia atual quanto a prevista são aceitas, ou seja, a utilização das novas regras continua sendo opcional até que a reforma ortográfica entre em vigor.

    5.FUNÇÃO METALINGUÍSTICA

Quando a expressão comunicativa utiliza o próprio código para falar de si mesmo, temos a manifestação da metalinguagem, nesse sentido, essa função da linguagem coloca em evidencia o código do ato comunicativo. A palavra meta significa própria, ou seja, própria da linguagem.  É quando a linguagem pega o código que agora se torna o assunto da mensagem que também utiliza a própria linguagem para falar dele mesmo.

Não existem elementos específicos para classificar essa função, o que precisa ficar em destaque é o fato do código se tornar também o assunto da comunicação.

Exemplos:

 Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam

Não se sabe de onde e pousam

No livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão.

Eles não têm pouco

Nem porto.

Alimentam-se um instante em cada parte de mãos e partem.

E olhas então, estas suas mãos vazias,

No maravilhado espanto de saberes

Que o alimento deles já estava em ti…

Mário Quintana

(No poema predito acontece a metalinguagem, pois é um poema falando sobre a própria composição poética, ou seja, o código- poema- torna-se também o assunto).

No dicionário, que utiliza palavras para explicar palavras, temos a manifestação da metalinguagem. Cada verbete é produzido para desenvolver uma explicação de si mesmo.

     6.FUNÇÃO FÁTICA

O canal de comunicação é responsável pela transmissão da mensagem e a efetivação dela. É por meio da função fática que os interlocutores (emissor e receptor) irão iniciar, manter, testar e encerrar a comunicação. É por meio dele que o emissor inicia o seu processo comunicativo, e ao longo de sua comunicação verifica se o seu receptor está acompanhando o que enuncia, assim como estes interlocutores encerram a comunicação.

Está constantemente presente no diálogo, pois tem como elemento toda e qualquer expressão que marca a troca entre os interlocutores. Fática quer dizer relativa ao fato, ao que está ocorrendo. A intenção de utilizá-la é estabelecer esta relação com o receptor. Não possui muitas características específicas, mas tem como marca as expressões de cumprimento, como: olá? Tudo bem? Até logo… ok?, dentre outros.

Referências:

BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa. 2ª ed. Nova fronteira, 2010.

BORGES, Wanja. Novo Acordo Ortográfico é adiado para 2016 ; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/acordo-ortografico/novo-acordo-ortografico-podera-ser-adiado-para-2016.htm>. Acesso em 14 de marco de 2017.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo:Cultrix, 1999.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte:Itatiaia, 1981, v.I.

CUNHA, Celso. Nova gramática do português contemporâneo. 3ªed. Nova fronteira, 2001.

KURODA, Matheus Seiji Bazaglia; SÁ, Léa Sílvia Braga de Castro. Leitura e Produção de Textos: do EU-comunicante ao TU­-interpretante.. Um novo olhar sobre a creche na perspectiva da psicologia escolar educacional. Mi­mesis, Bauru, v. 34, n. 2, p. 233-246, 2013.

MAINGUENEAU, D. Novas tendências em Análise do Discurso. 3ª ed. Campinas: UNICAMP; São Paulo: Pontes, 1997.

ORLANDI, E. P. Análise de Discurso: princípios e procedimen­tos. Campinas: Fontes, 2001.

 

Até a próxima!

Jessica Marquês.

 

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A maldição do tigre

Você provavelmente já ouviu o ditado “Não se pode julgar o livro pela capa” nesse tipo de ensinamento aprendemos que não devemos julgar pelas aparências, que devemos nos permitir conhecer a essência dos seres, e nos livrarmos das concepções pré-concebidas. Mas sabemos que na prática não é tarefa fácil, pois criamos a todo o momento conceitos “pré” formados acerca de quase tudo que nos cerca, é uma luta diária para quebrar os que já existem e evitar que novos faça parte da nossa vida.

Mas e quando isso acontece com um livro, quando o mercado editorial consegue apelar para o consumidor por meio da imagem concebida na capa? Quando nos sentimos atraídos quase que involuntariavelmente pela capa do livro, quando julgamos que aquela capa representa qualidade textual? O que devemos fazer quando isso acontece?

O problema desse tipo de interpelação é que depositamos muitas expectativas para a narrativa que iniciamos a leitura, narrativa não, saga, pois estou me referindo a obra intitulada “A maldição do tigre” livro inaugural da escritora norte americana Colleen Houck que antes de estar nas prateleiras das livrarias, convencendo-nos a adquirir a referida obra, esteve nos meandros da internet, pois foi publicada em primeira instância como e-book, até que com o sucesso de sua publicação alcançou esse status de publicação física.

Quando iniciei a minha leitura dessa obra estava com a expectativa muito alta, pretendia me ingressar numa nova saga literária, havia recebido recomendações do livro de algumas leitoras que convivia e esperava uma história envolvente e apaixonante. Infelizmente, não foi o que encontrei. Mas não culpo a escritora por isso, eu sou a maior responsável por isso, porque depositei uma expectativa muito grande na obra, se tem algo que vamos aprendendo com a vida é a não criar grandes expectativas para nada, essa simples estratégia nos ajuda a gostar mais das coisas, tendo em vista que se a expectativa é baixa, a chance de se surpreender é maior.

As surpresas que esperava do livro não foram tão surpreendentes assim, senti-me decepcionada com a leitura. Mas é claro que isso não foi de forma completa, sempre procuro encontrar algo interessante das leituras que experimento e com essa obra gostei da possibilidade de conhecer um pouco sobre a cultura e religião hindu, pois as personagens vão sair dos Estados Unidos e vão enfrentar uma jornada, uma não,várias jornadas pela índia e estarão sujeitas a algumas vontades de divindades hindus.

Este livro vai apresentar a jornada do herói, quer dizer, a jornada de uma heroína, a jovem Kelsey  que vai embarcar numa aventura épica na tentativa de ajudar o príncipe Alagan Dhiren Rajaram que enfrenta uma maldição que o transformou em tigre. Esse tigre, Ren pode transformar-se em sua forma humana em certo momento de cada dia. Além desse jovem vivendo há 300 anos sob o julgo dessa maldição, podemos conhecer também o seu irmão Kishan.

Ao longo da narrativa é possível respirar os ares indianos, a autora apresenta uma descrição rica em detalhes e coloca o personagem nomeado por Senhor Kadam para especificar aquilo que cerca a mitologia hindu, os momentos de descrição das lendas e referências hindus tornam-se um pouco cansativas, existe o anseio de conhecer mais acerca dessa cultura hindu apresentada no livro, mas a maneira como ela é, em sua maioria, apresentada torna um pouco cansativa, pois é quase sempre o senhor Kadam explicando / relatando algo para a jovem Kelsey.

Assim como muitos romances adolescentes (Crepúsculo, O diário de um vampiro…) haverá aqui um triângulo amoroso entre a indecisa e insegura Kelsey, o jovem romântico Ren e o seu irmão rebelde Kishan. A proposta da aventura épica e sua proposta de literatura fantástica restringe-se em grande parte ao surgimento do romance. É compreensível, tendo em vista o público ao qual este livro é destinado, mas acredito que desrespeita a sua proposta inicial.

Não posso negar que muitas descrições românticas presentes na narrativa são interessantes, mas de forma alguma foram tão envolventes ou me deixaram com o coração a mil. Como eu predisse; seria melhor se eu tivesse mantido a expectativa baixa. Esperei muito de um livro cuja elaboração não era tão profunda assim.

É claro que se tratando de uma saga, este é apenas o início da apresentação das personagens e da narrativa, quem sabe nos demais livros eu tenha a possibilidade de encontrar alguma complexidade ou possa me envolver mais com a narrativa. A saga é formada por cinco livros, além da “Maldição do tigre” há ainda; “O resgate do tigre”, “A viagem do tigre”, “O destino do tigre” e “A promessa do tigre”. Todos com capas simplesmente incríveis!

Desde 2013 existe a promessa do filme, os direitos dos livros foram vendidos à Paramount Pictures que pretendia lançá-lo em 2016. Sabemos que isso não aconteceu, então o lançamento ficou para 2017.  No entanto, atualmente ainda não se tem uma data prevista. A informação que se tem até o momento é que ele se encontra nas mãos do diretor Shekhar Kapur nos estágios iniciais de produção, provavelmente não será lançado nesse ano.

Quem sabe assim tenho mais tempo para criar coragem e ler os demais livros e talvez passar a gostar mais da narrativa. As cenas da divulgação inicial do filme são surpreendentes, acredito que a produção cinematográfica será saborosa, deliciando-nos com lindas imagens da índia que outrora foram descritas no livro.

Referências

http://colleenhouck.com/blog/2014/01/27/movie-announcement/

http://www.imdb.com/title/tt2084124/

http://www.tigerscurse.wikia.com/wiki/Tiger%27s_Curse_(film)

 

A gente se vê em breve,

Jessica Marquês.

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Afinal, o que é Cultura Pop?

Falamos tanto em cultura pop, mas você sabe o que vem a ser a cultura pop? Ela vai além da manifestação cultural de HQs, séries, filmes? É relevante destacar que existem vários autores e concepções para a cultura POP, uma das concepções que é aceita para o que é a cultura POP, é a de que ela é uma alternativa para a cultura oficial. Ela surge como resposta à massificação da arte provocada pela indústria cultural* e de forma diferente, a Cultura Pop deve trazer contestação e sair do lugar comum.

Rogério de Campos num editorial da revista General Visão afirma que os “Criadores que vivem além das fronteiras das imaculadas galerias ou apenas inconvenientes, fora do lugar correto, fora do tempo, contraditórias, infinitas imagens elétricas para ofuscar as imagens oficiais. Não significa ficar deslumbrado pela Indústria Cultural, mas, ao contrário, enfrentá-la com ações e visões críticas”. Esse texto está presente no editorial de lançamento da referida revista.

Desse modo, entende-se que a cultura pop nasce da Indústria Cultural, mas não se limita ao fato da indústria cultural ser acrítica e homogênia.  Ao contrário, a Cultura Pop é subversiva. Pois a sua intenção é a de incomodar o receptor, ao invés de acomodá-lo. Essa produção crítica e provocadora não se encaixa em absoluto no conceito de Indústria Cultural. Assim, alguns produtos da Indústria Cultural acabam se tornando Cultura Pop. Considere algumas características da Cultura Pop:

  1. Ela deve ser inovadora com relação aos seus congêneres, tanto em termos de forma quanto de conteúdo;
  2. Apresentar uma leitura crítica de mundo;
  3. Ser provocadora;
  4. Fazer parte do consciente coletivo, deve estar na boca do povo, deve ser conhecida e difundida, não isolada em sua torre de Marfim.

Essas características fazem com que, embora a Cultura Pop passe pelos mesmos mecanismos de reprodução em massa, ela é diferente daquilo que chamamos de Indústria Cultural.

É válido ressaltar que ela representa o segundo estágio da Cultura de Massa tendo em vista que são produtos que possuem uma produção em massa, estão presentes nos Canais de comunicação, a internet é um grande difusor dessa cultura, entretanto exercem uma função diferente, pois é aquilo que é lido com maior profundidade.

Podemos dizer também que a Pop Art foi uma forte influenciadora da Cultura Pop. Ela surgiu na Inglaterra e nos Estados Unidos e foi um estilo característico nos anos 60. O termo Pop Art (abreviação das palavras em inglês Popular Art) foi utilizado pela primeira vez em 1954, pelo crítico inglês Lawrence Alloway, para denominar a arte popular que estava sendo criada em publicidade, no desenho industrial, nos cartazes e nas revistas ilustradas. Aquela imagem multicolorida de “Marilyn Monroe” é um dos grandes destaques da Pop Art, o criador dessas versões dessa diva do cinema foi Andy Warhol, produzindo-a em 1967.

* Indústria cultural: proposta na década de 40 por dois filósofos russos; Theodor Adorno e Max Horkheimer da chamada Escola de Frankfurt, segundo eles a arte deixou de ser algo autêntico e exclusivo e passou a ser um produto. Os meios de comunicação em massa seriam os grandes responsáveis por isso.

Até mais,

Jessica Marquês.

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