O mito que inspirou a história “A Bela e a Fera”


Fernando Pessoa em sua incrível capacidade poética apresenta em seu poema “Eros e Psique” uma versão lírica e concisa do Mito Grego de mesmo nome, e que também tem relação com o conto original da Bela e a Fera. Esse mito foi eternizado por meio da escrita pela primeira vez no livro intitulado “Metamorfoses” também conhecido como “O asno de Ouro” do escritor Lucio Apuleio no ano de 150 D.C. Entretanto, esse conto já estava na oralidade e pertence a era clássica grega que compreende os séculos V,IV e III a.C.

Eis o poema de Fernando Pessoa, depois de conhecer o Mito de Eros e Psiquê, poderá analisar com mais cuidado cada linha poética que compõe as suas estrofes.

Eros e Psiquê

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

E,inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão , e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa.

 

O MITO EROS E PSIQUÊ

 

Conta a lenda que uma jovem chamada Psiquê filha caçula de um rei e uma rainha, era muito bela e idolatrada por aqueles que a conheciam. Ela tinha duas irmãs que alimentavam uma inveja por ela, pelo sucesso que fazia com todos que a cercava.

Mas a inveja não era exclusiva das irmãs, pois Afrodite – a Deusa do amor, da beleza e da sexualidade – também não estava satisfeita com toda a veneração que aquela mera mortal recebia. Alguns diziam que Psiquê poderia ser mais bela que a própria Deusa.

As irmãs mais velhas dessa princesa casaram-se e os seus pais, preocupados por sua filha mais jovem ainda não ter se casado decide procurar um oráculo para então conhecer o destino da filha. Acontece que a Deusa Afrodite, havia incumbido aquele oráculo a mentir e dizer que o destino da jovem pertencia a uma fera que deveria desposá-la.

Apesar de extremamente tristes, o pais da jovem Psiquê decidem cumprir a sua profecia, então realizam uma procissão cujos aspectos assemelhavam-se tanto a cerimônia de casamento quanto a de um velório. Eles então acorrentam Psiquê a uma rocha no alto de uma montanha.

Para cumprir o seu plano, Afrodite pede que o seu filho, Eros (o deus do amor, o cupido) atirasse uma flecha em Psiquê para que assim ela se apaixonasse pela fera que estava por se casar. Entretanto, Eros se encanta com a estonteante beleza de Psiquê acaba se distraindo e acidentalmente fere-se com a própria flecha do amor, apaixonando-se instantânea e profundamente por Psiquê.

Desse modo, ele pede que a Zéfiro, o vento oeste, que levasse a jovem para o Vale do Paraíso.  Eles passam a ser, então, marido e mulher e Psiquê fica completamente encantada com os prazeres de se viver no Olimpo. Contudo, de acordo com uma solicitação de Eros, ela não poderia vê-lo.

Ela começa a se encontrar com suas irmãs cuja inveja é intensificada ao descobrirem que a irmã havia se casado com um deus e vivia, literalmente, no paraíso. Psiquê pede autorização para que as irmãs visitem aquele lugar encantador. Neste período, Psiquê já havia descoberto que estava grávida. Após inúmeros questionamentos, a jovem revela às irmãs que não tinha autorização para conhecer a imagem de seu esposo, pois não poderia vê-lo. As irmãs, então, convence a irmã caçula de que ele tinha a forma de uma serpente e que pretendia devorar tanto a ela quanto ao filho que era gerado em seu ventre.

Persuadida, a jovem decide durante a noite pegar uma lâmpada para ver o seu esposo e com uma adaga matá-lo. Eros não pretendia que a jovem olhasse para ele, porque não queria que ela tivesse encanto e amor por sua imagem, e sim por quem ele era. Assim que ela o vê fica extasiada, distrai-se e encosta-se a uma das flechas de Eros e assim, apaixona-se perdidamente por ele, mas acaba deixando o óleo quente de sua lâmpada cair em Eros que subitamente acorda e descobre que Psiquê acabou por descumprir a sua solicitação.

Eros, apesar de ser o deus do amor, não tem compaixão de Psiquê e a abandona, além disso, também afirma que aquele filho que ela estava por gerar seria um mero humano, e não um deus como o pai. Embora ela tenha sido desamparada por quem amava, ela decide andar pelo Olimpo pedindo que alguns deuses a ajudasse a reconquistar o coração de Eros, no entanto, todos rejeitam ajudá-la, pois temiam que Afrodite irasse-se por darem suporte a quem machucara o seu filho.

Destemida, Psiquê decide procurar diretamente a deusa do amor. Ela então propõe quatro desafios para que a jovem estivesse livre do desígnio de Eros. Psiqué inicia uma dura jornada pela terra. É importante destacar que, se não tivesse sucesso nas tarefas propostas além de não retornar para Eros também perderia a vida.

Eis as tarefas propostas à jovem:

  1. Psiquê deveria separar e selecionar cada tipo de semente de uma montanha de sementes antes do anoitecer. Mas a jovem acaba adormecendo antes de cumprir a tarefa, mas provavelmente não estava sozinha nessa empreitada, pois enquanto dormia, milhares de formigas fizeram o trabalho por ela.
  2. Em sua segunda tarefa, ela deveria levar à Afrodite um tosão de ouro, ou seja, a lã de ouro dos ferozes carneiros que viviam na margem oposta do rio. Psiquê já estava desistindo da tarefa quando ouve uma voz em meio aos juncos da margem do rio, dizendo para ela esperar anoitecer e então retirar a plumagem dos animais que ficavam presas nos espinhos, assim ela fez.
  3. Decidida a derrotar a jovem, Afrodite pede que ela lhe traga uma taça de cristal com a água do rio Estige. Acontece que este rio chega a perpassar pelas regiões abissais do inferno, além disso, existem diversos monstros que guardam o local, tornando assim a aproximação. Mas Psiquê recebe uma ajuda divina, pois Zeus na tentativa de ajudar o filho pede que sua águia pegue a taça das mãos da jovem a vá retirar a água do rio solicitado por Afrodite.
  4. Em sua derradeira tentativa. Psiquê é orientada a ir até o inferno e procurar por Perséfone, a esposa de Hades para buscar o cofre com o unguento da beleza. A jovem enfrenta uma dura e longa jornada até chegar ao inferno como encontrar com Cérbero, com as três tecelãs do destino, nega ajuda a um coxo e também a um homem que se afogava, e depois de conquistar a simpatia de Perséfone ela consegue sair com o cofre que Afrodite solicitara. Como já se sentia desgastada depois de tudo o que passara, ela decide abrir o cofre para ter acesso ao unguento da beleza, mas na verdade, Afrodite a enganara, e na verdade havia dentro do cofre o sono da morte.

Eros, já curado da ferida, sai à procura de sua amada quando a encontra adormecida na morte, ele então guarda o sono da morte no cofre e usa uma de suas flechas nela, assim Psiquê retorna à vida. Eros então pede ajuda para seu pai, Zeus para que ele convencesse Afrodite a aceitar Psiquê e também a transformá-la numa deusa para que pudessem levar o seu amor por toda a eternidade, assim é feito!

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Em grego Psiqué (psychí / ψυχή ) significa alma. Desse modo esse conto poderia ser uma alegoria da eternidade da alma e da junção entre alma e amor. Mas existem três interpretações para este mito que são convergentes e complementares entre si.  A primeira interpretação considera que a história narra a jornada da alma, a segunda aceita que se refere à teoria do conhecimento e a última acredita que representa o ritual dos mistérios de renascimento.

É perceptível algumas semelhanças com o conto da madame Villeneuve de 1740, A Bela e a Fera,
como a mãe do príncipe que não aceitou em primeira instância a esposa do filho, as irmãs invejosas, a construção da personagem Bela semelhante à Psiquê, a obrigatoriedade de ir viver com uma Fera, dentre outros elementos.

Referências

BEAUMONT,Jeane Marie & VILLENEUVE, Gabrielle. A Bela e a Fera. SÃO PAULO: Zahar, 2016.

ADERALDO, Noemi Elisa.  Sobre Eros e Psique de Fernando Pessoa. Rev. de Letras. Fortaleza, 3/4 (2 / 1): Pág. 102-107, jul./dez. 1980, jan./jun. 1981

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro, Ed. Aguilar, 2. ed., 1965, p. 178.

http://paulorogeriodamotta.com.br/o-mito-de-eros-e-psique/acessado em 20 de fev. de 2017 às 12h13.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

 

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