O homem da máquina de escrever


“O homem da máquina da escrever” eis o título do livro e também a forma com que a personagem principal é chamada durante toda a narrativa. Este livro do escritor português, Fernando Campos é uma verdadeira metalinguagem, tendo em vista que ele vai abordar durante a construção narrativa, a própria composição literária. Para quem gosta ou anseia por escrever é uma leitura fundamental, pois ele vai acrescentando as conjecturas de sua produção, de forma bem humorada e poética.

A cada nova escolha, um novo caminho a seguir, e assim, vai costurando os elementos da narrativa e os meandros que permeiam a narração que pretende construir. Logo nas primeiras páginas podemos conhecer a sua paixão pela máquina de escrever que acabara de comprar. De uma maneira poética, percebemos que com suas próprias mãos, ele constrói um lugar – do zero- para abrigar e proteger seu novo tesouro, a máquina de escrever a qual somente ele (e mais ninguém!) poderia tocá-la.

Sabe quando você compra aquele livro que tanto desejava e almeja por colocá-lo no melhor lugar de sua estante? Como se gratificasse o livro por ser tão bom, ou por te fazer sentir tão bem pelo simples fato de possuí-lo. Foi exatamente assim que me senti ao ler o prólogo desse livro. A metáfora de construir do zero o espaço para abrigar a sua máquina de escrever, a ferramenta daquele ofício de escrever, pode estar presente em vários momentos que almejamos criar algo por meio da palavra darmos vida a seres, ambientes, falas, acontecimentos e tramas.

Quando por um título decide realizar a produção de seu texto. Temos então a possibilidade de conhecer a história intitulada “O beijo roubado”. O homem da máquina de escrever se propõe a escrever esse livro, e naturalmente, começa a se questionar sobre a própria produção, e a cada nova pergunta um novo caminho a seguir em sua construção literária. Ele começa a se perder em si mesmo…

“ «o beijo roubado!» Exclamou ele. Mas um roubo era um crime punível por lei! Logo… Isto tem de meter a polícia. Além disso, é um atentado contra o pudor…Mau! A coisa embrulha-se! É preciso meter também o tribunal. Não há que ver. O conto tem de ser policial. Paciência! Já não será um conto romântico, mas um conto policial…(CAMPOS, 16,1997)

É interessante o fato de que só percebi a conexão desse livro com assuntos que traremos essa semana aqui na Companhia Literária depois que me sentei para escrever essa resenha literária. Digo isso porque na terça teremos um vídeo sobre metalinguagem, e este livro é uma excelente opção para compreender o que vem a ser uma metalinguagem, pois ele é uma metalinguagem! Além disso, na quarta-feira você terá a possibilidade de conhecer alguns apontamentos sobre a narração, e tal livro fala o tempo todo da composição narrativa. (Coincidências interessantes!)

A trama dessa obra será embasada a partir do desejo do autor escrever o livro e o fato de, às vezes, procrastinar antes de iniciar efetivamente a produção, o que fala diretamente conosco, quando é que deixamos de procrastinar? Quando já não há mais tempo? Quando estamos já na última opção? Como tem administrado o seu tempo como leitor ou escritor?

O narrador/personagem do livro também era jornalista e utiliza algumas notícias para construir alguns elementos da trama de seu livro. Ao longo da narrativa, misturam-se relatos do livro e de memórias do próprio narrador que divaga sobre os lugares por onde sua narrativa pode passar- lugares de Lisboa, por exemplo. Além dessa mistura, há também um constante diálogo com o leitor, como se estivéssemos fazendo perguntas acerca de sua construção narrativa, de tal modo que você se sente parte daquela produção.

Depois de ter superado aos inúmeros questionamentos iniciais, a narrativa dá-se início com a história de um roubo em que uma jovem loira, alta, de lábios bonitos ora é a vítima, ora é o suspeito. Acrescenta-se ao mistério também outra jovem, esta agora morena e igualmente bela que poderia, enfim ser a verdadeira vítima do crime do beijo roubado…

Assim que ele finaliza a sua narrativa, o homem da máquina de escrever sai para caminhar pela cidade, logo que iniciou sua caminhada, subitamente sentiu a necessidade de voltar para a sua máquina de escrever, pois havia sido atingido por uma onda de sentimento poético… Após martelar as teclas sem cessar… Falaria agora sobre o arranha-céus solitário.

“Ando fora de mim

Por viver dentro de mim…”

Com um breve relato, mas profundo em suas palavras, a história do arranha-céus solitário pode ser cada indivíduo que se ausenta das palavras de um poeta. “Oco, despido, nada sentia dentro de si a não ser a fria humidade* da argamassa recente. Pensava que estava gelado quando deu conta de que o poeta louco se tinha ido embora e as salas haviam emudecido” (CAMPOS,71 ) Sob essa temática do silêncio, O homem da máquina de escrever também nos apresenta uma fábula com uma das pirâmides no deserto de Gizeh.

Eis um livro divertido, recheado de metáforas que avassalam o nosso ser e de diálogos que nos colocam diante da dificuldade que, às vezes, pode se ter com o ato de colocar uma ideia no papel. A trama aqui é o que importa, não são as personagens, nem o ambiente, ou o tempo da narrativa… Por exemplo, quando nomeia as personagens recebem os seguintes nomes: Fulana de Tal y Tal – Sicrana de Tal y Qual- Beltrano, e as demais personagens são apresentadas apenas por meio de substantivos próprios; o policial, o juiz, a dona da casa e assim por diante. Os questionamentos que perpassam a narrativa são muito necessários à vida, ou ao simples ato de escreve sobre outras vidas- reais ou ficcionais.

Este livro foi escrito em 1956, mas só foi publicado pela primeira vez no ano de 1987 e reflete a voz de um escritor que se calara por trinta anos, tais anseios pela escrita ou dúvidas são perceptíveis nas poucas, porém profundas páginas que compõem este livro. Além de escritor ficcional, Fernando Campos também foi importante autor de obras didáticas e monografias de investigação etimológica e literária.

Afirma-se na descrição do livro “O homem da máquina de escrever” que esse é “uma sátira que tem por vítima a própria literatura ou as subliteraturas.” E de fato, leva-nos a refletir a todo o momento sobre esta arte da palavra.

Abraços,

Jessica Marquês.

Referência

CAMPOS, Fernando. O homem da máquina de escrever. Lisboa: Difel, 1997.

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