O eu lírico


Para compreendermos profundamente as cantigas do Trovadorismo é fundamental entendermos o eu lírico, aliás, para sermos capazes de analisar qualquer produção poética, é primordial conseguirmos localizar o eu lírico presente no poema ou canção que se analisa.

O Eu lírico também pode ser chamado de eu poético ou sujeito lírico, é como se fosse o narrador do poema. Quando se lê um poema e percebe-se a manifestação do eu lírico, ou seja, aquela personagem, aquela voz presente nos ali nos versos. É válido ressaltar que esta voz que fala através do poema,  não precisa ser necessariamente o autor do referido poema.

São personas diferentes o autor e o eu lírico, por exemplo, eu poderia escrever um poema cujo eu lírico fosse uma criança, um homem, um cachorro. Sendo eu uma mulher adulta! Eu seria a autora do poema, e a criança, o homem ou o cachorro presente em meus versos, seria o eu lírico. Então o poeta e o eu lírico são seres diferentes no poema, não devemos confundir a pessoa real, com a construção fictícia. O eu lírico é a voz que fala no poema.

É válido notar ainda que a subjetividade do criador e as suas influências e experiências de vida poderão estar presentes no poema. Mas ainda assim, no momento em que se produz o seu texto poético, é criado ali outro ser, um ser que fala através do poema “autopsicografia” de Fernando Pessoa. Observe:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Esse poema de Fernando Pessoa, escritor português que nos encantou de tantas maneiras por meio de seus heteronômios*. Podemos afirmar que Fernando Pessoa é a prova de que o poeta não cabe no poema, pois ele criou mais de 70 heteronômios. Dentre eles os mais marcantes são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Estes heteronômios possuem abordagem e estilo completamente diferentes. O Fernando Pessoa talvez represente o fato de que o dono do poema é o eu lírico e não o poeta.

O poema abaixo é uma Ode de José Paulo Paes que retrata o sofrimento do autor/ que também é o Eu-lírico. Aqui o autor e o eu lírico se confundem, pois o José Paulo Paes sofria de uma grave doença chamada aterosclerose.  Com o agravamento da doença e a circulação prejudicada, a sua perna esquerda teve de ser amputada. Eis o poema:

Ode à minha perna esquerda

1

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?

2

Desço
………que …………………subo
…………….desço…… que
……………………subo
……………………camas
……………………imensas.

Aonde me levas
todas as noites
……..pé morto
……..pé morto?
Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
…..a
…..i
…..n
…..a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

……..Por que me deixaste
………………………..pé morto
………………………..pé morto
……..a sangrar no meio
……..de tão grande sertão?

…………………………não
…………………………n ã o
…………………………N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.
Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
….assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambu-
….latório apareceram inexplicavelmente sem tampa,
….os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda… direita
esquerda… direita
………………..direita
………………..direita

…Nenhuma perna
…é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.

 

* Heteronômio: é o nome imaginário que um criador identifica como o autor de obras suas e que designa alguém com qualidades e tendências marcadamente diferentes das desse criador.

Abraços,

Jessica Marquês.

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