O espaço da narrativa


A polissemia dos termos narração e narrativa é uma constante sendo variados e utilizados em contextos diversos. Entretanto, é possível se considerar de acordo com Reis & Lopes 1988; a narração como o ato de narrar e a narrativa como aquilo que foi narrado.

De acordo com o foco narrativo, no estudo da tipologia textual; a narração pode ser constituída essencialmente por meio de duas pessoas discursivas. Diante disso, sabemos que “A narração será feita sempre em primeira pessoa (aqui) ou em terceira pessoa (algures). Dessa maneira, teremos sempre um espaço que diz respeito a essa instância de criação do texto literário, considerado o ponto zero a partir do qual se cria a espacialidade da narrativa. Muitas vezes, teremos uma projeção do espaço da narração dentro da narrativa, outras vezes esse espaço só será pressuposto, pois quem narra narra sempre de algum lugar.”

Os lugares por onde a narrativa perpassa vão constituir o espaço dessa construção linguística, entretanto, esse espaço vai muito além do que o lugar onde a narrativa é ambientada, pois se considera também os lugares subjetivos presentes no âmago de cada ser, a depender do tipo de narrativa, ou seja, se ele é mais introspectiva, esses lugares aparecerão com maior forma e frequência. Também devemos entender que existem espaços sociais que vão sendo construídos e ganham forma ao longo da narrativa.

Naturalmente sabemos que o espaço na narrativa é o lugar físico onde as personagens circulam, onde as ações se realizam. Diante disso, podemos conceber o espaço como interno e externo. Mas, além disso, existem outras configurações para o que vem a ser o espaço da narrativa. Observe:

  1. O espaço ou ambiente físico: é aquele mais óbvio e mais fácil de identificar em um texto, pois é o espaço onde as cenas se desenrolam, tendo em vista a paisagem, o lugar literalmente físico ou a colocação dessas personagens em determinado local, é aqui que se configuram as ideias de espaço interno e externo, ou seja, em lugar fechado (um quarto, uma sala, uma casa, um escritório) como na obra “A metamorfose” do Franz Kafka, por exemplo. E o lugar externo sendo ambientado na praia, no campo, na floresta, no espaço, com “O mochileiro das galáxias” do Douglas Adams, por exemplo.
  1. O espaço ou ambiente social: irá apresentar as coincidências sociais, construindo um contexto que insere diversas personagens secundárias/ figurantes para nos apresentar os elementos de determinado contexto social. Esse tipo de construção é muito importante para a obra, pois irá construir não apenas os lugares físicos e visíveis, mas aqueles que estão embrenhados nos meandros dessa sociedade, por vezes, essa colocação vem apenas como um acessório que nos auxilia na construção da personalidade das personagens principais, ou se uma forma muito mais profunda, como uma denúncia social, por exemplo. Eis um exemplo desse tipo de construção: “Capitães de areia” de Jorge Amado ou “O cortiço” de José de Alencar.
  1. O espaço ou ambiente psicológico: nesse tipo de construção é possível conhecer a esfera interna dos seres fictícios. Muitas personagens, dependendo do tipo de construção narrativa, são seres complexos e marcadamente recheados de caracterizações psicológicas. Dessa forma é possível considerar também as experiências, os pensamentos e as emoções de cada personagem na narrativa como espaços ou ambientes psicológicos. As obras mais instrospectivas que vão nos apresentar esse tipo de construção, muitas vezes, podem nem apresentar o ambiente externo, algumas vezes podem configurar apenas as construções e situações ambientadas apenas na psqué desses seres, outras tantas, por sua vez, podem expor tanto o ambiente social quanto físico e ainda sim compor o ambiente psicológico, por exemplo a antologia “Além do ponto e outros contos” Caio Fernando Abreu.

É relevante destacar que os espaços preditos; físicos, sociais e psicológicos são estabelecidos  por meio de relações que vão se compor a  nível do discurso narrativo. Assim, a ambientação da narrativa pode não ser um mero recurso para situar as personagens no espaço, ela pode, ir mais além e contribuir para a construção, desenrolar ou até mesmo o desfecho da trama. Sendo fator fundamental para atenuar a atmosfera dramática, é claro que tudo dependerá da complexidade e da qualidade narrativa.

“A construção do ‘lugar’ ou do conjunto de lugares que um romance contém levaria à consideração de que o ‘espaço’ é, ao mesmo tempo, ‘meio’ do sentido e também seu ‘objeto’ (…)” (Suzuki open cite MONTEIRO, 2002:14).

Para se construir a ambientação na narrativa, colocamos em evidencia outro tipo textual, que se bem trabalhado pode auxiliar nessa explanação dos conflitos da narrativa, a descrição. É pertinente realizar uma descrição que atinja os cinco sentidos do leitor e, de certa forma, o transforme. Observe estes trechos em que há a construção do espaço na obra de Machado de Assis, Dom Casmurro:

“Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da rua de Matacavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.”

“Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. “ (ASSIS, 2016; p.11)

“Pelas nove da manhã deste dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. Nos meus membros espessos, no crânio embrutecido, trago ainda o peso de uma noite de viagem […] Eis que me levanta de novo a imagem de meu pai, caído de bruços sobre a mesa, ao jantar, dias antes de eu partir. Todos os anos, pela vindima, meus pais queriam ali os três filhos pelo Natal. O Tomás vivia perto, tinha também a sua lavoura, mas não deixava nunca de comparecer ao jantar. Mas o Evaristo vivia na Covilhã. E agora, que escrevo esta história à distância de alguns anos, exactamente neste mesmo casarão em que tudo se passou, relembro vivamente o estrépito da sua chegada nessa manhã de Setembro. “(ASSIS, 2016; p.16)

Referências

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/pedagogia/o-espaco-da-narrativa/34413 acessado em 28 de abril de 2017 às 08h42.

SUZUKI, Júlio César. O espaço na narrativa: uma leitura do conto “Preciosidade”. Revista do departamento de geografia, 2006, pág. 54 a 57. São Paulo.

FILHO, OZIRIS BORGES. O espaço da narração e o espaço da narrativa. UFTM. ESTUDOS LINGÜÍSTICOS, São Paulo, 37 (3): 341-347, set.-dez. 2008.

Abraços,

Jessica Marquês.

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