O diário de Anne Frank


O Diário de Anne Frank até hoje é um dos mais lidos, mesmo depois de tantos anos. De acordo com o portal “Publishnews” ele ficou em 16º lugar na lista dos livros mais vendidos do Brasil em 2016. Foi publicado pela primeira vez no ano de 1947, entretanto, não foi apresentado na íntegra, o seu pai Otto Frank (único sobrevivente das oito pessoas que conviveram durante pouco mais de dois anos no esconderijo intitulado por eles mesmos de anexo secreto) realizou uma edição da obra, omitindo algumas passagens da filha.

Ele afirma que tomou essa decisão na tentativa de preservar/proteger a memória daqueles integrantes do anexo secreto que haviam perdido suas vidas no holocausto, tendo em vista que a Anne Frank, como qualquer adolescente em posse de um diário, descrevia aquilo que sentia, e, portanto, alguns desgostos da vida no que concerne ao relacionamento entre os demais integrantes do anexo.

Não é difícil conceber as situações complicadas pelas quais aqueles que estavam escondidos teriam passado. Imagine-se confinado num espaço muito limitado, convivendo com pessoas de personalidade forte e divergente, racionando todos os mínimos itens necessários à sobrevivência, além do estresse de estar sob ameaça constante de a qualquer momento ser delatado ou encontrado pela Gestapo.*

Muitas vezes, quando pensamos em guerra, sejam as do passado ou do presente, pensamos de uma forma macro, contabilizam-se os seis milhões de judeus que tiveram suas vidas ceifadas. É um número assustadoramente imenso, mas se olhássemos para esse número e refletíssemos na vida de cada um, no sofrimento de cada um, na terrível transformação que as pessoas no contexto de guerra sofreram (e sofrem) percebemos que este número não reflete nem uma parte do que a guerra significou(a) para aquelas que a vivenciaram(vivenciam), percebemos o quanto estas guerras foram(são) muito mais terríveis. É necessário deixar claro que não estamos falando de números, e sim de pessoas!

O Diário de Anne Frank nos proporciona essa visão, digamos “micro”, pois podemos acompanhar dois anos da rotina daquela jovem em situações tão adversas. Podemos de perto, conhecer um pouco dos seus sonhos, anseios, crenças, vivências, frustações e, principalmente, esperanças. É como se parássemos de olhar o grande quadro e nos aproximássemos de uma pequenina parte dessa tela da guerra.

Eu convido você a olhar a jovem Anne Frank – um pixel minúsculo neste painel – a olhar esta escritora, individualmente e conhecê-la profundamente. Se você assim o fizer, vai perceber o quanto o livro vai lhe contar muito mais do que a rotina de uma adolescente num ambiente completamente difícil. Você vai perceber que ao olhar para este pequeno pedaço da história, ao olhar a pessoa Anne Frank, encontrará uma representação de tantas(os) jovens que sofreram(sofrem) diariamente com as atrocidades da intolerância, do preconceito e da guerra.

As inúmeras reflexões que a jovem apresenta em suas imaculadas páginas sobre si mesma, a sua tentativa constante de ser uma pessoa melhor: “Durmo com a sensação estranha de que quero ser diferente do que sou, ou de que sou diferente do que quero ser, ou talvez de me comportar diferente do que sou ou do que quero ser” (O diário de Anne Frank, 28/11/1942). Ademais, reflete também sobre a promoção do seu autoconhecimento, o feixe de contradições, como ela mesma se descreve, pode ser entendida, nada mais, nada menos como a apresentação de um ser humano complexo e verdadeiro, e como tal, a Anne apresenta-nos essa característica da humanidade de viver a partir daquilo que sente.

Há dias em que a escritora do diário consegue vislumbrar e contemplar, por exemplo, a primavera a partir da pequena janela do anexo secreto. E mesmo podendo vê-la apenas por meio daquela fresta, ela evidencia a beleza presente ali, apesar de todas as adversidades, ela consegue contemplar a beleza da vida. Naturalmente, em outros dias, ela está deprimida, esforçando-se ao máximo para não se comunicar com os demais membros, na tentativa vã de evitar conflitos.

Ao nos relatar, por exemplo, o envolvimento com as leituras que tanto ela e os demais integrantes do anexo secreto realizam, temos a possibilidade de perceber a importância da leitura “As pessoas comuns não sabem quanto os livros significam para alguém escondido” (O diário de Anne Frank, 11/07/1943). Esta leitora ávida que é a Anne Frank revela-se também como excelente escritora, em algumas páginas de seu diário podemos conhecer algumas narrativas ficcionais em que a jovem dedicava-se. Além disso, ela nos apresenta pontos de vista e opinião formada concernente ao período em que ela estava inserida, como a posição na mulher na sociedade, por exemplo.

Como foi predito, o diário de Anne Frank foi editado, mas antes mesmo de seu pai realizar esta versão, a própria Anne Frank realizou uma reedição de seu respectivo diário, Isso acontece porque a jovem almejava ser escritora e pretendia utilizar as memórias ali descritas para ter uma base ao elaborar a sua história.

Esse plano foi iniciado quando ela ouviu no rádio o senhor Gerrit Bolkestein – membro do governo Holandês exilado- anunciar que pretendia, ao final da guerra, recolher registros da memória oral dos Holandeses, cartas ou diários, para demarcar o sofrimento que o povo estava sendo subjugado. Depois que a Anne Frank ouviu essa declaração ela decidiu revisitar o seu diário (que já tinha sido iniciado desde o seu aniversário de treze anos, 12 de junho de 1942) para acrescentar algumas memórias ou retirar algumas que talvez, de acordo com ela, não fossem tão interessantes para a produção do livro.

Diante desse pressuposto, existem três versões do Diário da Anne Frank ; versão A: sem cortes; versão B: com alterações da própria Anne Frank; versão C: feita por Otto, pai de Anne, uma versão mais concisa- 1ª publicação:1947. Ademais, o Instituto Estatal Holandês para Documentação de Guerra, em Amsterdã recebeu os manuscritos em 1980, depois de morte de Otto Frank, houve, portanto, uma profunda investigação; depois de ser considerado autêntico, publicou-se o diário com as três versões no livro intitulado “The critical Edition”, nele há ainda, o resultado da exaustiva pesquisa como: artigos sobre o passado da família Frank, as circunstâncias relativas à prisão e deportação, o exame de caligrafia de Anne, do próprio documento e materiais usados.

Este livro vai levá-lo a refletir não só sobre o sofrimento que a guerra causa, mas com esta leitura, você vai perceber o quanto a vida que nos cerca precisa ser mais valorizada, contemplada e respeitada, pois nossos dias precisam ser mais cheios de consistências. Infelizmente, nos dias de hoje, tudo parece ser tão superficial e frágil, sem vida.

*Abreviação de Geheime Staatspolizei, era a Polícia secreta do estado Nazista.

 

Referências:

FRANK, Anne. O Diário de Anne Frank –  editado por Otto Frank e Mirjam Pressler. Record, 2014.

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