Noite na taverna

Falar sobre, ler e reler Noite na Taverna de Álvares de Azevedo é colocar todas as nossas paixões em evidência, o livro é um dos maiores representantes da segunda fase do Romantismo, outrora chamada de “mal do século” e deixa-nos atordoados tamanha conexão fúnebre de suas histórias.

Muitos podem dizer que a grande marca desse livro são os temas como; morte, tristeza, amores platônicos, mas acredito que o grande ponto de Noite na Taverna é a surpresa, por mais que uma história após a outra avassala o nosso ser e nos deixa de queixo caído, por mais que as situações vão se tornando ainda mais sombrias, a cada nova página você se surpreende ainda mais!

Quando digo que o maior elemento do livro é a surpresa, não estou me referindo exclusivamente à construção das narrativas, aos enredos que cada conto vai desenrolando, às problemáticas que vão surgindo, a cada clímax que nos deixa sem ar, refiro-me à surpreendente qualidade literária da obra.

Alvares de Azevedo escreveu esse livro antes de seus 20 anos de idade e infelizmente não pôde vislumbrar a importância, a contribuição de sua produção para a Literatura Brasileira, pois veio a falecer, vítima de tuberculose, no dia 25 de abril de 1825 – antes de completar 21 anos de idade, tendo em vista que ele nascera no dia 12 de setembro de 1831.

Inclusive, poucos dias antes de sua morte ele escreveu um poema que ilustrava muito bem o seu sentimento, ali naquele leito de quase morte. Ele recebeu uma homenagem poética, pois esse poema foi lido por Manuel de Macedo no momento de seu velório. Eis o poema:

Se Eu Morresse Amanhã!

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria,
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas,
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos,
Se eu morresse amanhã!

Como se percebe no poema citado, a produção Literária de Álvares de Azevedo era recheada de um drama macabro, a morte era temática constante em sua escrita – o que nada nos espanta, já que ela alcançou este escritor ainda tão jovem. E isso não será diferente em Noite na Taverna, o pequeno livro apresenta-nos histórias que vão permear os meandros da fatídica vida de alguns jovens, que ébrios relatam acontecimentos, segundo eles, reais.

Os temas da narrativa; assassinato, estupro, violentação, corrupção, incesto, adultério, necrofilia, traição, antropofagia… Só corrobora para sua vinculação à segunda fase Romântica, chamada de ultrarromântica. Na medida em que esse período tem muito presente em suas características: o egocentrismo, o sentimentalismo, a idealização amorosa, a dor, o sofrimento, a angústia, dentre outros.

A linguagem muito bem elaborada, muito bem cuidada mexe com as nossas estruturas lexicais, em poucas páginas percebemos a nossa limitação linguísticas, são tantos termos e palavras extremamente cultas e milimetricamente bem colocada, que nos faz ler e reler insanamente aquilo que compõe a narrativa. Com esse livro sinto-me uma ignorante no que tange à Língua Portuguesa, se você quer perceber o quanto você nada conhece da língua que fala, perpasse os seus meros olhos humanos por estas páginas.

Em uma das muitas leituras que fiz dessa obra, uma vez decidi demarcar todos os termos que causavam algum estranhamento, que não sabia em que momento os poderia utilizar, e meu livro se tornou um emaranhado maculado pela minha ignorância. Mas é claro que a obra não é apenas um aglomerado de palavras difíceis; a organização sintática, a poesia, a maneira de relatar, de descrever, de registrar cada acontecimento da narrativa é simplesmente incrível.

Para nos dizer, por exemplo, que uma jovem chorava, ele faz a seguinte construção: “Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas…” Por gentileza, faça uma pausa na leitura dessa resenha e releia o trecho destacado!!! (É incrível, não é?)

 É simplesmente estonteante poder acompanhar histórias com essa qualidade linguística, você com certeza precisa fazer a leitura desse livro mais de uma vez; num primeiro momento para conhecer as histórias relatadas pelos jovens: Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johan. E num segundo momento para contemplar a beleza das palavras que estão reunidas ali, para contemplar a riqueza lexical e comparativa.

Nas 96 páginas em que a narrativa é construída, você terá acesso às diversas representações da eloquência de um apaixonado, às divindades presente nas mãos de um jovem (apesar dos acontecimentos não se aproximarem de maneira alguma a certa divindade ou pureza, muito pelo contrário, a escrita de Álvares de Azevedo aproxima-se de temáticas satânicas… Quando digo divindade, portanto, refiro-me à perfeição de sua escrita) que eleva a nossa alma e comprova que a Literatura é muito mais do que contar uma história…

No que concerne à presença da mulher na obra, ela aparece sempre como objeto de contemplação para as personagens que ali estão. Apesar dessa contemplação, o quesito objeto é o mais destacado na obra. Elas são usadas para satisfazer as mais primitivas “necessidades” do homem. Chega a nos enojar, ao conhecer alguns acontecimentos da narrativa. Em outros momentos, no entanto, estas personagens subvertem os sentimentos de alguns referidos narradores, e se tornam mais do que simples objetos de amor ou paixão, tornam-se verdadeiras prisões para eles. É claro que quando isso acontece, sentimos uma pontada de alegria, pois algumas mulheres demonstram a sua força e poder perante situações mais do que complicadas.

É válido notar aqui que nessa fase do romantismo, a mulher é temática constante nas obras, sendo descrita de forma elevada no que concerne à sua perfeição. São idolatradas por muitos personagens, mas essa idolatria, muitas vezes, ultrapassa o limite da adoração e alcançam os meandros carnais dos seres.

Essa exaltação da mulher presente nas obras ultrarromânticas é desenvolvida com práticas reconhecidamente antagônicas: “Eis um processo de antíteses: luz e sombra, paixão e melancolia, amor e morte, antíteses que também são causa e consequência uma da outra, […] Vemos o amor como pulsão de morte e não de vida. O silêncio torna-se, assim, o único elemento permanente.” (EVERDOSA, 2009;p. 103)

O personagem Claudius Hermann de Noite na Taverna representa muito bem esta insana paixão que avassala os seres ultrarromânticos, acompanhar tudo o que acontece com a jovem duquesa Eleonora quase nos faz fechar as páginas do livro e abandonar a narrativa. Observe o poema que ele escreveu para a mulher que ele idolatrava:

Não me odeies, mulher, se no passado

Nódoa sombria desbotou-me a vida,

— É que os lábios queimei no vício ardente

E de tudo descri com fronte erguida.

A masc’ra de Don Juan queimou-me o rosto

Na fria palidez do libertino:

Desbotou-me esse olhar… e os lábios frios

Ousam de maldizer do meu destino

Sim! longas noites no fervor do jogo

Esperdicei febril e macilento

E votei o porvir ao Deus do acaso

E o amor profanei no esquecimento!

Murchei no escárnio as coroas do poeta,

Na ironia da glória e dos amores:

Aos vapores do vinho, a noite insano

Debrucei-me do jogo nos fervores!

A flor da mocidade profanei-a

Entre as águas lodosas do passado…

No crânio a febre, a palidez nas faces,

Só cria no sepulcro sossegado!

E asas límpidas do anjo em colo impuro

Mareei nos bafos da mulher vendida,

Inda nos lábios me roxeia o selo

Dos ósculos da perdida.

E a mirra das canções nem mais vapora

Em profanada taça eivada e negra:

Mar de lodo passou-me ao rio d’alma,

As níveas flores me estalou das bordas.

Sonho de glórias!… Só me passa a furto,

Qual flor aberta a medo em chão de tumbas

— Abatida e sem cheiro…

O meu amor… o peito o silencia:

Guardo-o bem fundo em sombras do sacrário.

Onde ervaçal não se abastou nos ermos.

Meu amor… Foi visão de roupas brancas

Da orgia à porta, fria e soluçando,

Lâmpada santa erguida em leito infame,

Vaso templário da taverna à mesa,

Estrela d’alva refletindo pálida

No tremedal do crime.

Como o leproso das cidades velhas

Sei me fugiras com horror aos beijos.

Sei, no doido viver dos loucos anos

As crenças desflorei em negra insânia…

— Vestal, prostitui as formas virgens,

Lancei eu próprio ao mar da c’roa as folhas,

Troquei a rósea túnica da infância

Pelo manto das orgias.

Oh! não me ames sequer! Pois bem! um dia

Talvez diga o Senhor ao podre Lázaro:

Ergue-te aí do lupanar da morte,

Revive ao fresco do viver mais puro!

E viverei de novo: a mariposa

Sacode as asas, estremece-as, brilha,

Despindo a negra tez, a bava imunda

Da larva desbotada.

Então, mulher , acordarei do lodo,

Onde Satã se pernoitou comigo,

Onde inda morno perfumou seu molde

Cetinosa nudez de formas níveas.

E a loira meretriz nos seios brancos

Deitou-me a fronte lívida, na insônia

Quedou-me a febre da volúpia à sede

Sobre os beijos vendidos.

E então acordarei ao sol mais puro,

Cheirosa a fronte às auras da esperança!

Lavarei-me da fé nas águas d’oiro

De Magdalena em lágrimas!… e ao anjo

Talvez que Deus me de, curvado e mudo,

Nos eflúvios do amor libar um beijo,

Morrer nos lábios dele!

 

Referências:

AZEVEDO, Alvares de. Noite na taverna. L &PM pocket, 2000.

ERVEDOSA, Polyanna. O feminino e a fragmentação amorosa em Noite na Taverna. Emoob, 2009.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, v.I.

 

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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