Mulheres que correm com os lobos

Todos nós temos anseio pelo que é selvagem”, mas o que é ser selvagem? E por que temos este anseio? Estas são apenas uma das diversas respostas que terá com a leitura do livro Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. da escritora norte americana, Clarissa Pinkola Estés.

A questão não apenas são as respostas que se tem ao fazer uma leitura como esta, mas as perguntas que você ainda, por vezes, não tinha pensado. O reconhecimento de alguns sentimentos ou atitudes que, muitas vezes, julgamos ser negativas ou destrutivas em nossas vidas são apresentados de uma forma diferente. Esse livro é uma troca consigo mesma, em busca de um novo eu. Mas quando me refiro a este novo eu, não significa que haverá uma nova pessoa completamente diferente de si mesma após esta leitura, mas sim o reconhecimento de algumas verdades que, muitas vezes, escondem-se dentro de si. Tendo em vista que “Num único ser humano existem muitos outros seres, cada um com os seus próprios valores, motivos e mecanismos” (ESTES: pág. 53, 2014).

Sob o olhar literário e o seu poder de atingir o nosso ser, compreende-se que aquilo que enriquece grandemente esta obra é a apropriação de diversos contos milenares, que foram sendo passados de geração a geração na tentativa de preservar uma memória daquilo que cerca o interior feminino presente em tais histórias.

A autora desse livro vai construir uma personificação para tentar nos explicar, ou nos apresentar a psique do instinto natural sob o olhar da Psicanálise Junquiana, assim, ela cria a mulher selvagem. Com esta, a escritora vai contemplar aquilo que destrói, aniquila, desintegra, ou omite os instintos mais naturais da mulher. E com o propósito de resgatar esta mulher selvagem presente na vida de cada uma, a autora coloca-nos diante de diversos contos populares e realiza análises deles teorizando sua vinculação psicanalítica.

Tendo em vista o trabalho da escritora – psicanalista e guardiã de velhas histórias- o livro refletirá esta experiência nos desenrolar das páginas, oferecerá um aprendizado fecundo de contos e velhas histórias que cercam o imaginário feminino, e ainda proporcionará reflexões com alguns apontamentos teóricos, em determinadas circunstâncias, é quase um atendimento psicanalítico, sem sair de casa.

Não se pode negar que ainda vivemos numa sociedade machista e patriarcal. É fato que muita coisa mudou dado algumas práticas passadas, mas ainda há muito o que desbravar.  Esta luta contra a inferiorização da mulher vai além dos debates, das passeatas, das discussões na internet ou fora dela, dentre outras… É uma batalha diária, contra os pequenos detalhes presentes em nosso dia a dia. Diante disso, conhecer e refletir sobre diversos contos que evocam a ancestralidade feminina, só reforça a nossa autoconfiança e a nossa luta pela valorização dos diversos sujeitos sociais que exercemos.

O título do livro demarca algumas características e semelhanças entre a mulher selvagem em seu estado saudável e a rotina e estrutura dos lobos, a autora optou por esta analogia, tendo em vista o seu estudo aprofundado da biologia de diversos animais selvagens. As criaturas disfarçadas às quais as mulheres se submente e que, muitas vezes, deixamos se moldar pelas exigências sociais ou privadas são colocadas à mostra.

Essencialmente, a obra vai girar em torno destas reflexões do arquétipo da mulher selvagem, pois a Clarissa vai relatar alguns contos com a intenção de elucidar a natureza instintiva da mulher. Os contos populares descritos no livro vieram de um estudo de vida da autora, que buscou dos artistas da alma ao longo de anos por meio de sua própria tradição familiar ou de sua caminhada por vários cantos do planeta.

A formação acadêmica da Clarrissa gira em torno de um estudo da psicanálise que evidencia o “Leitmotive” – rede de motivos.  Mas tendo em vista a sua descendência, a autora relata as histórias no papel de contadora, de guardiã das histórias ancestrais, pois ele entende “o poder das histórias em colocar em movimento a vida interior” (ÉSTES: pág. 31, 2014). Desse modo, ela faz um convite para uma busca mais profunda nesta caminhada de encontro à mulher selvagem, tendo em vista a sua afirmação “Sem nós, a mulher selvagem morre. Sem a mulher selvagem, quem morre somos nós. Pela vida, pela verdadeira vida, ambas devem coexistir” (ESTES: pág. 35, 2014).

É fato que dada a apropriação teórica e aplicação desta ao apresentar os posicionamentos da autora e suas análises dos contos elencados, a leitura, em muitos momentos torna-se cansativa. Por isso, é aconselhável que a faça por etapas, deixe o livro próximo e vá avançando progressivamente e lentamente, sem se preocupar com o momento em que irá terminar a leitura. É uma obra de reflexões e analogias, uma evolução calma e gradativa será, portanto, mais proveitosa.

A possibilidade de realizar trocas de experiências com outras pessoas que estão desfrutando dessa leitura é uma estratégia interessante, com certeza, muitas histórias não terão relação direta com alguns fatores de sua vida, pois se trata de uma larga amostragem da forma como, muitas vezes, a mulher foi ou é tratada. Por isso, utilize os contos com a possibilidade de refletir sobre as diversas manifestações artísticas da construção do imaginário feminino. Entretanto, muitos contos vão te levar a uma reflexão profunda sobre si mesma, e sobre a sociedade que a cerca, é uma leitura enriquecedora.

Não posso negar que em diversos momentos da leitura não concordei com as análises da autora acerca de algumas afirmações que ela veiculava dado certo ponto de determinada narrativa, acreditava que talvez fosse possível uma interpretação diferente. Por isso, liberte-se das interpretações, vá com uma mente livre e aberta para realizar esta leitura e não se prenda exclusivamente ao que a autora defende ou a uma única visão das coisas, devemos nos lembrar de que ela está vinculada a uma determinada forma de interpretar as situações, tendo em vista seu estudo, o que não quer dizer também que ela está errada ou talvez, certa. Seja livre para refletir ou (não) aceitar aquilo que se apresenta. Assim como você deve ser livre para enxergar as situações de sua vida, e aquilo que deseja (ou não) mudar.

Com certeza posso afirmar que é o tipo de leitura que vale a pena, por dois fatores macros, o conhecimento de uma diversidade de contos acerca do universo feminino e ainda a promoção para uma reflexão de quem somos e de quem podemos ser. Para uma busca incessante de nós mesmos, é fato que este exercício de se olhar (profunda e verdadeiramente) não é tarefa fácil e necessita, portanto, de recursos que nos auxiliem. Este livro pode ser um deles.

Referência:

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Barcarena: Marcador, 2016.

Boa leitura!

Jessica Marquês.


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