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O que é literatura?

Essa pergunta já foi realizada diversas vezes ao longo dos séculos, e muitos pensadores já procuraram defini-la e estudá-la apresentando elementos para a sua definição. Entretanto, esta demarcação nunca foi fácil de ser realizada, e ainda nos dias de hoje ela não o é, tendo em vista as ressignificações que ela se apodera ao decorrer dos anos. Ou seja, algo que no passado não foi considerado literatura, hoje já pode ter outra acepção.

Apesar dessa dificuldade de significação, é fundamental considerarmos os aspectos que são relevantes para compreendermos a literatura de uma forma mais completa.  O primeiro elemento que vamos considerar é que ela envolve aquilo que pode ser chamado de objeto social, ou seja, a literatura necessita ser produzida e lida num processo que envolve um diálogo entre os participantes desse intercâmbio social, na medida em que ela nasce a partir de um processo de comunicação.

Quando falamos sobre o processo de comunicação, coloca-se em evidência os elementos que pertencem o ato comunicativo (Emissor- mensagem-receptor-código-canal e referente), levando em consideração qual a intenção de uma determinada comunicação. Desse modo, nós temos a literatura, pertencente à função da linguagem poética, que tem a sua produção, por sua vez, centrada na mensagem, ou seja, a principal intenção de sua comunicação é a mensagem, e não os demais elementos do ato comunicativo.

Etimologicamente o termo Literatura tem origem latina “litteratura”, que por sua vez, advém também de outra palavra latina “littera”, ou seja, letra sendo o símbolo que expressa a fonética, a produção oral e escrita. Nesse sentido, a relação entre literatura e letra é diretamente ligada, na medida em que a literatura necessita da letra para ter existência concreta. Mas é valido observar também que a literatura pode fazer uso de qualquer instrumento artístico da linguagem.

Independente do ambiente histórico, temporal e social no qual se produz a tentativa de definição do que é literatura, é inegável a sua característica artística. Pois esta é presente em qualquer lugar, tempo, ou contexto histórico. Pode-se afirmar também que este caráter artístico refere-se à capacidade de contestação do ambiente no qual ela é produzida.

Pode se afirmar, desse modo, que na literatura há um valor cultural em que a arte necessita levar o seu interlocutor a refletir, a pensar e a interagir com o seu ambiente, na medida em que a finalidade a da arte é promover a reflexão e a construção de sujeitos mais críticos e capazes de discernir o ambiente no qual estão inseridos.

Essa criticidade acontece, pois a literatura se apresenta como lugar de reflexão e de saberes, por meio dela é possível conhecer a história! Cada momento histórico é constituído de determinadas formas de produção literária, tais maneiras de leitura do mundo permitem uma amplitude de saberes e uma visão mais completa de cada acontecimento.

Jean Paul Sartre, no ano de 1947 publicou o livro intitulado “Que é a literatura?” Nos capítulos desta obra, Sartre vai discorre sobre os seguintes questionamentos: que é escrever? Por que escrever? Para quem se escreve? Promovendo a reflexão sobre em que medida a literatura deve prender-se à vida que nos cerca.

Logo no primeiro capítulo, além de apresentar as diferenças essenciais entre prosa e poesia. Sartre faz a sua declaração, na tentativa de definir o termo aqui discutido:

“Tal é, pois. A “verdadeira” e “pura” literatura: uma subjetividade que se entrega sob a aparência de objetividade, um discurso tão curiosamente engendrado que equivale ao silêncio; um pensamento que se contesta a si mesmo, uma Razão que é apenas á máscara da loucura. Um eterno que dá a entender que é apenas um momento de História, um momento histórico que. pelos aspectos ocultos que revela remete de súbito ao homem eterno; um perpétuo ensinamento, mas que se dá contra a vontade expressa daqueles que ensinam. Enfim, a mensagem é uma alma feita objeto. Uma alma; e o que fazer com uma alma? Nós a contemplamos a uma distância respeitosa.” (SARTRE,1989; p.28 )

De acordo com Sartre, seja com a escrita em prosa – que ambiciona a comunicação interligando a palavra escrita ao mundo real, de forma significante, ou com o texto poético; que procura elucidar a beleza de suas palavras. A literatura existe quando há alma nas palavras expressas. Ainda segundo este filósofo, é pertinente refletir sobre o que dizer, e no que se refere à literatura, no como dizer, pois as escolhas lexicais é que determinam o escritor.

É relevante notar ainda que de acordo com Sartre, a arte é imaginar, ou seja, criar a imagem de algo, por meio de algum instrumento, no caso da literatura; a palavra! Desse modo, pode-se afirmar que a literatura é a arte da palavra.  Assim como as demais manifestações artísticas dependem necessariamente de outros recursos para terem existência concreta: Música (som); Artes cênicas (Teatro/Dança/Coreografia) (movimento); Pintura (cores); Escultura (objetos e texturas); Arquitetura (espaços); Cinema (integra elementos de diversas artes); Fotografia (imagens); História em quadrinhos (cores, palavras, imagens); Jogos de Vídeo (integra a maioria dos elementos de artes); Arte digital (integra artes gráficas computadorizadas 2D, 3D e programação).

É cabível ainda refletir sobre as acepções que Aristóteles desenvolveu acerca da literatura. De modo que, este filósofo grego que viveu entre os períodos de 384 e 322 AC, analisou as formas de arte e a literatura do período em que ele era contemporâneo e às manifestações literárias às quais tinha acesso, Aristóteles elaborou a seguinte teoria sobre a poesia: Ela era a técnica associada à mimese, ou seja, à imitação. Considerando os gêneros literários: épico, lírico e dramático. Ele conclui que o que diferencia a poesia, dos textos em prosa é a qualidade universal que a imitação admiti.  Tendo em vista que, ao imitar o artista cria a “fictio”, ou seja, a “ficção”, concebendo histórias genéricas, entretanto, verossímeis.

É fato que dado o contexto histórico no qual estamos inseridos, e aos outros gêneros textuais aos quais temos disponíveis, a literatura é constantemente ressignificada. Alçando novos voos e espaços. Lembrando que, conforme foi predito, toda produção artística está atrelada a determinado tempo, cultura, história e tradição.

Além dessas questões pode se estabelecer um crivo, em que é possível identificar de maneira simples, objetiva, mas superficial o que é e o que não é literatura, o termo essencial para esta resposta é se a obra se baseia na realidade por meio da imaginação, quando se coloca este questionamento e tem uma resposta positiva, está diante de um texto literário, caso contrário, não. Para isso segue abaixo dois Exemplos:

Exemplo 1: “Na quinta feira passada, o Museu de Arte de São Paulo, o Masp, foi palco de um crime. Em três minutos entre 5h09 e 5h12 da madrugada, um grupo de ao menos três bandidos invadiu o museu e furtou duas telas de destaque de seu acervo: O retrato de Suzanne Bloch, do espanhol Pablo Picasso, e o Lavrador de Café do brasileiro Candido Portinari.” (revista VEJA 26 de Dezembro de 2007, p. 62).

Exemplo 2: “RUMO AO SUMO

Disfarça, tem gente olhando.

Uns, olham pro alto,

cometas, luas, galáxias.

Outros olham de banda,

lunetas, luares, sintaxes.

De frente ou de lado,

sempre tem gente olhando,

olhando ou sendo olhado.

 

Outros olham para baixo,

procurando algum vestígio

do tempo que a gente acha,

em busca do espaço perdido.

Raros olham para dentro,

já que dentro não tem nada.

Apenas um peso imenso,

a alma, esse conto de fada. ”

(Paulo Leminski, La vie em close, 2007 p. 49).

Com relação aos exemplos exposto, é válido notar que, ambos são formas de expressão escrita ou oral, ou seja, utilizam a linguagem para transmitir uma mensagem, uma ideia. Ambos são baseados na realidade, na medida em que o primeiro apresenta um acontecimento e o segundo manifesta a ação de olhar. No entanto, somente no segundo exemplo a realidade que se dá por meio da imaginação, e representa suas ideias por meio de metáforas, preocupando-se com as escolhas lexicais e as construções poéticas. Desse modo, apenas o segundo texto pode ser considerado obra literária.

 

Referências:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, v.I.

SARTRE, Jean Paul. Que é literatura? São Paulo: Ática, 1989.

SILVA, Ivanda Maria Martins. Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática escolar.  In: Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I, 2003.

SOUZA, Ana Santana. História e literatura: notas para um diálogo. In: MNEME – REVISTA DE HUMANIDADES, 11(28), AGO / DEZ, 2010.

A gente se vê amanhã!

Jessica Marquês.