ORANGE IS THE NEW BLACK

Imaginar-se privada de sua liberdade, a mercê das vontades de outros, à espera de 15 meses debaixo de outras regras, regras estas muito mais divididas e demarcadas por questões que há tempos lutamos para serem diferentes. Os grupos formados por características históricas, sociais e étnicas semelhantes são invariavelmente colocados em evidencia a cada escolha e a cada passo que se decide dentro desse ambiente. As divisões raciais são muito mais claras e evidentes. Não sabia que era assim!

Um pouco dessa divisão é possível de se ver em uma das séries aclamadas da Netflix Orange is the new black em que se conta a história de Piper Kerman, uma balzaquiana condenada a 15 meses de reclusão pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, pois carregou uma mala recheada de dinheiro relacionado ao crime de um país a outro Com a possibilidade de acompanhar não apenas a história da protagonista, mas de nos deixar levar pelas pessoas reais por detrás de cada uma daquelas personas, a série é muito feliz ao nos apresentar os contextos de cada personagens por meio dos flashbacks; em que a cada novo episódio mergulhamos numa nova narrativa, podendo acompanhar as escolhas que acabaram levando aquelas mulheres àquele lugar, ou talvez o que condicionou determinadas posturas ou condutas dentro da prisão.

A Piper não é apenas mais uma daquelas mulheres, a sua condição social e, até mesmo a sua própria pena reflete um pouco do perfil de pessoas que são destinadas a uma cadeia. Poder conhecer essas histórias, acompanhar os dramas e as situações de cada personagem, dos diversos grupos étnicos presentes ali faz com que coloquemos a nossa liberdade e as nossas oportunidades de vida em outro patamar, passamos a valorizar mais tudo àquilo que nos concerne, e aflora em nós o desejo de lutar para que outras pessoas também tenham acesso àquilo que lhes é de direito, e não precisem buscar em ações criminosas uma alternativa para viver.

É claro que enquanto produção televisiva a série vai além desses meandros sociais e abarca também questões comuns em tramas desse gênero, e as aventuras pelas quais as personagens passam, as escolhas e os caminhos que são colocados diante da protagonista ou mesmo o fim que levou algumas personagens praticamente me obrigaram a ler o livro que serviu de base para esta produção. Afinal, eu simplesmente precisava saber até que ponto aquilo era real, tamanha a proporção dos acontecimentos da série. Quem sabe em outro artigo eu me dedique a falar especificamente da série, mas, apesar de não parecer, esta é uma resenha sobre o livro intitulado: “Orange is the new black – o ano que passei numa prisão de mulheres” escrito e vivido por Piper Kerman e que também atua como consultora executiva da série predita.

“O laranja era a cor da moda” (KERMAN, 2016, p.75)  Após receber uma carta de sua melhor amiga – Kristen, a qual evidenciava  por meio de uma página de jornal que as nova-iorquinas estavam sendo solidárias com a Piper, pois estavam portando a cor laranja tanto nas vestimentas quanto nos acessórios “laranjinas à solta” era o título  da reportagem que ao mesmo tempo permitia o trocadilho com o uniforme prisional e  antagonizava com a questão da falta de liberdade.

Naturalmente, por ter apenas baseado a produção da Netflix, o livro é bem diferente, é claro que esta diferença eu já esperava tendo em vista os formatos distintos, mas não imaginava tamanha diferença entre eles, só para se ter uma ideia, a espera de Piper para ir à prisão foi de seis anos, ela e seu noivo e depois marido, Larry Smith mantiveram o relacionamento durante todo o tempo em que ela esteve no instituto penal e continuaram juntos depois que ela saiu, praticamente nenhuma das, digamos, peripécias pelas quais a personagem da série passa aconteceram de fato com a pessoa da vida real, o que senti ao ler o livro foi a oportunidade de conhecer uma Piper Kerman, completa e indiscutivelmente diferente da personagem que acompanhamos na série.

Além disso, muitas das personagens  que conhecemos na série e que amamos são na verdade a ramificação de uma determinada personagem em muitas, os nomes que são apresentados no livro são diferente dos da série e na obra literária apenas duas pessoas permitiram que a escritora utilizasse o seu nome real. Aproveita-se a personalidade complexa de uma determinada personagem, por exemplo, e a divide em outras tantas pessoas quando se passa à produção televisiva.

 Em muitos momentos da leitura me encontrava à procura de determinada personagem, mas percebi que ela não estava lá e sim fazia parte da personalidade de uma pessoa específica. É um exercício interessante! Além disso, alguns laços emotivos ou fraternais são realizados com pessoas diferentes se compararmos o livro e a série. No livro reverbera-se o quanto a vida real na verdade é muito mais tediosa e normal do que se apresenta nas filmografias (que bom que existe a ficção para encher o nosso dia com mais emoções).

É válido ressaltar que a rede familiar e de verdadeiros amigos da Piper não é nem um pouco demarcada na série, os seus amigos fizeram inclusive um blog www.piperbomb.com em que inseriam a lista de desejos da Amazon com os livros que ela almejava ler, apresentam ali no formato de diário algumas informações sobre a trajetória da jovem na prisão, assim como dados importantes para quem quisesse visitá-la ou enviar algo a ela. Essa rede de amigos e familiares é o que diferencia a história da Piper com outras tantas mulheres que são “esquecidas” nas prisões femininas.

Essa questão da diferença entre a mulher que vai para a prisão e o homem, o abandono é um elemento quase comum para diversas reportagens sobre o assunto, quando um homem vai à cadeia, as filas para as visitas são sempre gigantescas, outras mulheres de alguma forma lhes fornecem apoio – mães, esposas, namoradas, irmãs, amantes, primas, tias, avós, noivas, amigas, etc. Basta passar em frente a alguma prisão antes do horário de visitas para constatar essa situação. Quando o gênero é inverso, não se percebe isso, nas filas das prisões de mulheres, não se encontram a mesma quantidade de homens à espera de sua outrora companheira. Há um expressivo abandono!

Desde o início estamos cientes de que não vamos conhecer uma história comum ou que reflita a realidade das mulheres que estão na cadeia, quando temos acesso tanto ao livro quanto a série, a Piper Kerman não está em nenhuma instância nas mesmas condições às quais estão subjugadas a maioria das mulheres encarceradas, isto porque estamos conhecendo a realidade norte-americana das prisões e de uma mulher de classe média alta e calcaziana, seja com esta série ou com a Prison Break, por exemplo. Mas e quando falamos de Brasil?? Com certeza a realidade é outra, muito mais triste do que acompanhamos nas séries e filmes ambientadas no contexto Estadunidense.

De acordo com um estudo divulgado no portal www.mulheresemprisao.org.br (vale a pena conferir!) promovido pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC e pela pastoral carcerária, vivem em torno de 34 mil mulheres nas prisões brasileiras, acontece que metade dos casos é por transporte ou comércio de pequenas quantidades de drogas ilícitas.  O questionamento levantado pela organização de direitos humanos e difundida no site é:  será que estas mulheres deveriam estar presas? Será que não haveria outra medida para promover a justiça pelos seus atos?

Nesse portal é possível conhecer também as Regras de Bangkok que “vêm para reforçar a urgente necessidade de mudar o quadro de negligência, confinamento e abandono a que são submetidas as mulheres em conflito com a justiça.”* Ao final do livro resenhado hoje também encontramos esse clamor para a busca da verdadeira justiça diante dos casos que envolvem as prisões femininas. E você já parou para pensar um pouco sobre a realidade das mulheres que vivem nas prisões de seu país? Será que existe algo que você possa fazer? Informe-se pelos sites que deixei nas referências e você descobrirá!!!

Pequena lista de grandes livros que tratam do assunto de mulheres nas prisões no Brasil!**

1. Cadeia: relatos sobre mulheres, de Débora Diniz – A antropóloga e professora da UnB Débora Diniz conta, neste livro, histórias que ouviu na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, quando fez sua pesquisa no núcleo de saúde da instituição. Lá, ela ouviu as vidas das internas e as intervenções da equipe de saúde, composta por uma psicóloga, uma psiquiatra e um assistente social.

2.    Presos que menstruam, de Nana Queiroz – Neste livro, a jornalista Nana Queiroz traça um panorama das experiências vividas por estas mulheres que, no sistema prisional, são tratadas como homens.

3.    Prisioneiras: vida e violência atrás das grades, de Barbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz da Silva – As autoras mostram, neste livro, como é a vida das mulheres presas no estado do Rio de Janeiro. Narrando minuciosamente sua chegada na prisão, as intervenções feitas e a dinâmica da instituição, até mesmo o leitor que nunca esteve numa prisão consegue imaginar-se em uma.

4.    Auri, a anfitriã: memórias do Instituto Penal Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, de Aline Moura e Bárbara Almeida –  As jornalistas cearenses Aline Moura e Bárbara Almeida contam, aqui, as histórias de quatro internas da única penitenciária feminina do Estado do Ceará. O livro resultou de um trabalho de conclusão de curso da Universidade Federal do Ceará (UFC).

 

*Trecho retirado do site: http://mulheresemprisao.org.br/

** Livros indicados pelo site: http://notaterapia.com.br/ 

Referências

KERMAN, Piper. Orange is the new black – o ano que passei numa prisão de mulheres. Lisboa: Relógio d´água, 2016.

http://mulheresemprisao.org.br/ acessado em 15 de abril às16h.

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/07/descubra-como-e-vida-das-mulheres-nas-penitenciarias-brasileiras.html acessado em 15 de abril às16h.

http://notaterapia.com.br/2016/02/11/4-livros-que-relatam-a-vida-das-mulheres-presas-no-brasil/ acessado em 15 de abril às16h.

http://www.thepipebomb.com/ acessado em 15 de abril às16h.

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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As aventuras de Astérix e Obélix

Hoje é comum se comemorar quando um vídeo (numa das plataformas mais acessadas da internet – o Youtube ) alcança milhares de expectadores em um único dia. Mas se imagine no ano de 1959 em que num único dia uma revista vendeu mais de 300 mil exemplares. Esta revista chamava-se “Pilote” e foi na página 20 dela que surgiu a primeira narrativa do jovem destemido gaulês Asterix. Era também o lançamento da referida revista, fundada No dia 29 de outubro de 1959 por dois franceses Albert Uderzo e René Goscinny.
Este seria o início de uma parceria que duraria quase três décadas, sendo interrompida por conta da trágica morte de René Goscinny em 05 novembro de 1977. Na época, muitos acreditavam que ali também seria o fim da personagem principal e de suas aventuras, entretanto, o seu parceiro deu continuidade ao trabalho para não sucumbir ao desgosto, assim ele cria as edições Albert René fazendo uma singela homenagem a todas as produções posteriores a René com o dizer inicial: a René. Aos 84 anos de idade, Alber Uderzo aposentou-se, isso após atingir a marca histórica de 350 milhões de unidades vendidas em diversas línguas e partes do planeta.
Um dos sonhos dos criadores também era criar desenhos animados, o que eles conseguiram com a criação da Studios Idéfix onde realizaram Os 12 trabalhos de Astérix. Mas os sucesso dessa história em quadrinhos extrapolou alguns limites, tais como: 38 álbuns (com as histórias em quadrinhos) narrando as aventuras desses gauleses, 8 álbuns de animação e 4 live actions, além de inúmeros jogos educativos acerca do período em que acontece a história. O sucesso dessa produção também tem grandes marcas linguísticas, pois ele já foi traduzido para mais de 110 idiomas e dialetos. Nota-se também que ele tem um parque temático com o seu nome e milhares de produtos derivados e outros tantos projetos.
Acompanhar as divertidas das narrativas é uma viagem no tempo para o ano 50 antes de Cristo, período em que o império Romano reinava e conquistava a região de Gália, território habitado pelos gauleses que compreende as regiões que conhecemos hoje como: França, Suíça, Holanda, Bélgica e parte da Alemanha.
Logo na primeira página de muitas edições eles apresentam um breve resumo situando o tempo e o ambiente da narrativa, além disso, para os desavisados, que mesmo com quase 60 anos, por ventura ainda não conhecem as principais personagens, eles apresentam um breve perfil de cada personagem.
1. Asterix: o herói das aventuras, ele é pequeno, porém sagaz e de inestimável inteligência. Por isso, são confiadas sem hesitação, todas as missões perigosas. Ele possui uma força sobre-humana, e o responsável por isso, é a poção mágica do druida panomarix;
2. Obelix: aquele amigo inseparável do herói, Asterix, extremamente apaixonado pela carne de javali, tem como profissão oficial carregador de manires. Sempre que surge uma aventura ao lado de seu grande amigo, ele larga tudo para acompanha-lo. É tutor de um lindo cão ecológico chamado Ideafix que o acompanha em muitas jornadas;
3. Panoramix: é o druida da aldeia, responsável por preparar as poções mágicas que confere força sobre-humana, mas também é conhecedor de outros segredos mágicos;
4. Assuranceturix: é o bardo da aldeia, acredita que tem muito talento, mas os demais integrantes da tribo refutam essa ideia e acrescentam certa dose de abominável às suas produções;
5. Abraracurcix: o chefe da tribo, respeitado por seus súditos e temido por seus inimigos, ele é impulsivo, corajoso e majestoso.
Ao longo da narrativa podemos conhecer alguns jargões linguísticos eu alguns personagens emanam, tais como: “Estes romanos (ou outro povo) são loucos!” Frase proferida por Astérix em diversas edições; “Amanhã não será a véspera desse dia!”, dita pelo líder da aldeia, pois este teme que o céu caísse sobre a sua cabeça; “quem é gordo?/ eu não sou gordo”, geralmente essa expressão vem acompanhada de um golpe frontal, o responsável por ela é o grande Obelix, e outras tantas. As piadas são acompanhadas de trocadilhos e situações adversas aos heróis.
Cada álbum regular tem aproximadamente 48 páginas, as quais podemos conhecer a luta desse povo gaulês contra César, o imperador romano. Manifesta-se também em suas produções a veneração aos deuses celtas, contrapondo-se, assim à fé romana.
Acredita-se que grande parte das histórias têm como inspiração um chefe gaulês real, Vercingetórix, que liderou a revolta gaulesa contra o império romano no período de 53 a. C a 52 a. C. Antes dessa revolução ele chegou a servir ao exército romano. A sua rendição, após a luta foi motivo de destaque para diversas obras de arte, pois o guerreiro não aceitou que os centuriões o arrastasse de mãos e pés atados para prostrar-se diante de César, pelo contrário, ele cavalgou até o procônsul vestido com sua rica armadura. Após o espanto pela solenidade foi verbalmente atacado por César e depois foi arrastado até Roma onde ficou em cárcere durante seis anos até conhecer o duro metal do machado daquele carrasco que daria fim ao seu sofrimento e humilhação.
É uma leitura simples, rápida, fácil, historicamente educativa, tendo em vista que é voltada para o público jovem, assim como era desde o lançamento da revista “Pilote”.
Referencias

Series de historias em quadrinhos: as aventuras de Asterix.
Thierry, Amédée (1828). Histoire des Gaulois, despuis les temps les plus reculés jusqu’à l’entière soumission de la Gaule à la Domination Romaine. [S.l.]: A la Librairie Parisienne et Étrangere. Consultado em 25 de dezembro de 2012

Até breve!
Jessica Marquês.

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A maldição do tigre

Você provavelmente já ouviu o ditado “Não se pode julgar o livro pela capa” nesse tipo de ensinamento aprendemos que não devemos julgar pelas aparências, que devemos nos permitir conhecer a essência dos seres, e nos livrarmos das concepções pré-concebidas. Mas sabemos que na prática não é tarefa fácil, pois criamos a todo o momento conceitos “pré” formados acerca de quase tudo que nos cerca, é uma luta diária para quebrar os que já existem e evitar que novos faça parte da nossa vida.

Mas e quando isso acontece com um livro, quando o mercado editorial consegue apelar para o consumidor por meio da imagem concebida na capa? Quando nos sentimos atraídos quase que involuntariavelmente pela capa do livro, quando julgamos que aquela capa representa qualidade textual? O que devemos fazer quando isso acontece?

O problema desse tipo de interpelação é que depositamos muitas expectativas para a narrativa que iniciamos a leitura, narrativa não, saga, pois estou me referindo a obra intitulada “A maldição do tigre” livro inaugural da escritora norte americana Colleen Houck que antes de estar nas prateleiras das livrarias, convencendo-nos a adquirir a referida obra, esteve nos meandros da internet, pois foi publicada em primeira instância como e-book, até que com o sucesso de sua publicação alcançou esse status de publicação física.

Quando iniciei a minha leitura dessa obra estava com a expectativa muito alta, pretendia me ingressar numa nova saga literária, havia recebido recomendações do livro de algumas leitoras que convivia e esperava uma história envolvente e apaixonante. Infelizmente, não foi o que encontrei. Mas não culpo a escritora por isso, eu sou a maior responsável por isso, porque depositei uma expectativa muito grande na obra, se tem algo que vamos aprendendo com a vida é a não criar grandes expectativas para nada, essa simples estratégia nos ajuda a gostar mais das coisas, tendo em vista que se a expectativa é baixa, a chance de se surpreender é maior.

As surpresas que esperava do livro não foram tão surpreendentes assim, senti-me decepcionada com a leitura. Mas é claro que isso não foi de forma completa, sempre procuro encontrar algo interessante das leituras que experimento e com essa obra gostei da possibilidade de conhecer um pouco sobre a cultura e religião hindu, pois as personagens vão sair dos Estados Unidos e vão enfrentar uma jornada, uma não,várias jornadas pela índia e estarão sujeitas a algumas vontades de divindades hindus.

Este livro vai apresentar a jornada do herói, quer dizer, a jornada de uma heroína, a jovem Kelsey  que vai embarcar numa aventura épica na tentativa de ajudar o príncipe Alagan Dhiren Rajaram que enfrenta uma maldição que o transformou em tigre. Esse tigre, Ren pode transformar-se em sua forma humana em certo momento de cada dia. Além desse jovem vivendo há 300 anos sob o julgo dessa maldição, podemos conhecer também o seu irmão Kishan.

Ao longo da narrativa é possível respirar os ares indianos, a autora apresenta uma descrição rica em detalhes e coloca o personagem nomeado por Senhor Kadam para especificar aquilo que cerca a mitologia hindu, os momentos de descrição das lendas e referências hindus tornam-se um pouco cansativas, existe o anseio de conhecer mais acerca dessa cultura hindu apresentada no livro, mas a maneira como ela é, em sua maioria, apresentada torna um pouco cansativa, pois é quase sempre o senhor Kadam explicando / relatando algo para a jovem Kelsey.

Assim como muitos romances adolescentes (Crepúsculo, O diário de um vampiro…) haverá aqui um triângulo amoroso entre a indecisa e insegura Kelsey, o jovem romântico Ren e o seu irmão rebelde Kishan. A proposta da aventura épica e sua proposta de literatura fantástica restringe-se em grande parte ao surgimento do romance. É compreensível, tendo em vista o público ao qual este livro é destinado, mas acredito que desrespeita a sua proposta inicial.

Não posso negar que muitas descrições românticas presentes na narrativa são interessantes, mas de forma alguma foram tão envolventes ou me deixaram com o coração a mil. Como eu predisse; seria melhor se eu tivesse mantido a expectativa baixa. Esperei muito de um livro cuja elaboração não era tão profunda assim.

É claro que se tratando de uma saga, este é apenas o início da apresentação das personagens e da narrativa, quem sabe nos demais livros eu tenha a possibilidade de encontrar alguma complexidade ou possa me envolver mais com a narrativa. A saga é formada por cinco livros, além da “Maldição do tigre” há ainda; “O resgate do tigre”, “A viagem do tigre”, “O destino do tigre” e “A promessa do tigre”. Todos com capas simplesmente incríveis!

Desde 2013 existe a promessa do filme, os direitos dos livros foram vendidos à Paramount Pictures que pretendia lançá-lo em 2016. Sabemos que isso não aconteceu, então o lançamento ficou para 2017.  No entanto, atualmente ainda não se tem uma data prevista. A informação que se tem até o momento é que ele se encontra nas mãos do diretor Shekhar Kapur nos estágios iniciais de produção, provavelmente não será lançado nesse ano.

Quem sabe assim tenho mais tempo para criar coragem e ler os demais livros e talvez passar a gostar mais da narrativa. As cenas da divulgação inicial do filme são surpreendentes, acredito que a produção cinematográfica será saborosa, deliciando-nos com lindas imagens da índia que outrora foram descritas no livro.

Referências

http://colleenhouck.com/blog/2014/01/27/movie-announcement/

http://www.imdb.com/title/tt2084124/

http://www.tigerscurse.wikia.com/wiki/Tiger%27s_Curse_(film)

 

A gente se vê em breve,

Jessica Marquês.

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O homem da máquina de escrever

“O homem da máquina da escrever” eis o título do livro e também a forma com que a personagem principal é chamada durante toda a narrativa. Este livro do escritor português, Fernando Campos é uma verdadeira metalinguagem, tendo em vista que ele vai abordar durante a construção narrativa, a própria composição literária. Para quem gosta ou anseia por escrever é uma leitura fundamental, pois ele vai acrescentando as conjecturas de sua produção, de forma bem humorada e poética.

A cada nova escolha, um novo caminho a seguir, e assim, vai costurando os elementos da narrativa e os meandros que permeiam a narração que pretende construir. Logo nas primeiras páginas podemos conhecer a sua paixão pela máquina de escrever que acabara de comprar. De uma maneira poética, percebemos que com suas próprias mãos, ele constrói um lugar – do zero- para abrigar e proteger seu novo tesouro, a máquina de escrever a qual somente ele (e mais ninguém!) poderia tocá-la.

Sabe quando você compra aquele livro que tanto desejava e almeja por colocá-lo no melhor lugar de sua estante? Como se gratificasse o livro por ser tão bom, ou por te fazer sentir tão bem pelo simples fato de possuí-lo. Foi exatamente assim que me senti ao ler o prólogo desse livro. A metáfora de construir do zero o espaço para abrigar a sua máquina de escrever, a ferramenta daquele ofício de escrever, pode estar presente em vários momentos que almejamos criar algo por meio da palavra darmos vida a seres, ambientes, falas, acontecimentos e tramas.

Quando por um título decide realizar a produção de seu texto. Temos então a possibilidade de conhecer a história intitulada “O beijo roubado”. O homem da máquina de escrever se propõe a escrever esse livro, e naturalmente, começa a se questionar sobre a própria produção, e a cada nova pergunta um novo caminho a seguir em sua construção literária. Ele começa a se perder em si mesmo…

“ «o beijo roubado!» Exclamou ele. Mas um roubo era um crime punível por lei! Logo… Isto tem de meter a polícia. Além disso, é um atentado contra o pudor…Mau! A coisa embrulha-se! É preciso meter também o tribunal. Não há que ver. O conto tem de ser policial. Paciência! Já não será um conto romântico, mas um conto policial…(CAMPOS, 16,1997)

É interessante o fato de que só percebi a conexão desse livro com assuntos que traremos essa semana aqui na Companhia Literária depois que me sentei para escrever essa resenha literária. Digo isso porque na terça teremos um vídeo sobre metalinguagem, e este livro é uma excelente opção para compreender o que vem a ser uma metalinguagem, pois ele é uma metalinguagem! Além disso, na quarta-feira você terá a possibilidade de conhecer alguns apontamentos sobre a narração, e tal livro fala o tempo todo da composição narrativa. (Coincidências interessantes!)

A trama dessa obra será embasada a partir do desejo do autor escrever o livro e o fato de, às vezes, procrastinar antes de iniciar efetivamente a produção, o que fala diretamente conosco, quando é que deixamos de procrastinar? Quando já não há mais tempo? Quando estamos já na última opção? Como tem administrado o seu tempo como leitor ou escritor?

O narrador/personagem do livro também era jornalista e utiliza algumas notícias para construir alguns elementos da trama de seu livro. Ao longo da narrativa, misturam-se relatos do livro e de memórias do próprio narrador que divaga sobre os lugares por onde sua narrativa pode passar- lugares de Lisboa, por exemplo. Além dessa mistura, há também um constante diálogo com o leitor, como se estivéssemos fazendo perguntas acerca de sua construção narrativa, de tal modo que você se sente parte daquela produção.

Depois de ter superado aos inúmeros questionamentos iniciais, a narrativa dá-se início com a história de um roubo em que uma jovem loira, alta, de lábios bonitos ora é a vítima, ora é o suspeito. Acrescenta-se ao mistério também outra jovem, esta agora morena e igualmente bela que poderia, enfim ser a verdadeira vítima do crime do beijo roubado…

Assim que ele finaliza a sua narrativa, o homem da máquina de escrever sai para caminhar pela cidade, logo que iniciou sua caminhada, subitamente sentiu a necessidade de voltar para a sua máquina de escrever, pois havia sido atingido por uma onda de sentimento poético… Após martelar as teclas sem cessar… Falaria agora sobre o arranha-céus solitário.

“Ando fora de mim

Por viver dentro de mim…”

Com um breve relato, mas profundo em suas palavras, a história do arranha-céus solitário pode ser cada indivíduo que se ausenta das palavras de um poeta. “Oco, despido, nada sentia dentro de si a não ser a fria humidade* da argamassa recente. Pensava que estava gelado quando deu conta de que o poeta louco se tinha ido embora e as salas haviam emudecido” (CAMPOS,71 ) Sob essa temática do silêncio, O homem da máquina de escrever também nos apresenta uma fábula com uma das pirâmides no deserto de Gizeh.

Eis um livro divertido, recheado de metáforas que avassalam o nosso ser e de diálogos que nos colocam diante da dificuldade que, às vezes, pode se ter com o ato de colocar uma ideia no papel. A trama aqui é o que importa, não são as personagens, nem o ambiente, ou o tempo da narrativa… Por exemplo, quando nomeia as personagens recebem os seguintes nomes: Fulana de Tal y Tal – Sicrana de Tal y Qual- Beltrano, e as demais personagens são apresentadas apenas por meio de substantivos próprios; o policial, o juiz, a dona da casa e assim por diante. Os questionamentos que perpassam a narrativa são muito necessários à vida, ou ao simples ato de escreve sobre outras vidas- reais ou ficcionais.

Este livro foi escrito em 1956, mas só foi publicado pela primeira vez no ano de 1987 e reflete a voz de um escritor que se calara por trinta anos, tais anseios pela escrita ou dúvidas são perceptíveis nas poucas, porém profundas páginas que compõem este livro. Além de escritor ficcional, Fernando Campos também foi importante autor de obras didáticas e monografias de investigação etimológica e literária.

Afirma-se na descrição do livro “O homem da máquina de escrever” que esse é “uma sátira que tem por vítima a própria literatura ou as subliteraturas.” E de fato, leva-nos a refletir a todo o momento sobre esta arte da palavra.

Abraços,

Jessica Marquês.

Referência

CAMPOS, Fernando. O homem da máquina de escrever. Lisboa: Difel, 1997.

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A Bela e a Fera: o conto clássico

Você com certeza já ouviu falar do desenho animado da Disney que é uma adaptação desse conto clássico escrito pela madame Beaumont, esse filme foi o responsável por reerguer os estúdios Disney, com o sucesso em 1991. A história da Bela e a Fera já sofreu adaptação em diversos meios como: filmes, discos, desenhos animados, live actions, histórias em quadrinhos, peças teatrais, concertos musicais, orquestras, óperas, dentre outros.

  1. De acordo com o tradutor e diretor editorial, Rodrigo Lacerda – além da animação da Disney de 1991- também merecem destaque outras produções, como por exemplo:
  2. A peça para piano a quatro mãos de M
    aurice RAVEL, 1908. Depois ela passou a ser chamada de “Les entretiens de la Belle et de la Bête” e foi orquestrada com esse nome em 1946. De acordo com o conto original, a Bela poderia, por meio de janelas mágicas, assistir a diversas apresentações culturais de diversos lugares, como França e Itália, eram “janelas para o mundo”.
  3. É imperdível também assistir ao filme dirigido pelo francês Jean Cocteau de 1946. Nessa adaptação, a protagonista, Bela, parece lamentar depois que a Fera transforma-se em um príncipe.
  4. Também merece especial atenção a ópera do compositor minimalista americano Philip Glass, 1994. Ela teria sido composta imaginando-se presente no filme de 1946 predito.

A autora da versão clássica da Bela e a Fera mais difundida entre nossos contemporâneos é a renomada escritora francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. Ele teria feito uma versão essencialmente resumida da narrativa original apresentada pela madame Villeneuve, centrando-se unicamente na trama entre a Bela e a Fera. “Sem dúvida, das publicações de ficção escritas por mulheres, as suas (Madame Beaumont) eram as mais famosas do século XVIII” afirma o crítico Joan Hinde Steward.

Tendo sido publicada 16 anos após a versão original no periódico “Le Magasin des Enfants” em 1756. Ele era um manual pedagógico em que uma governanta narrava e dialogava com as crianças as quais tinha responsabilidade pela educação. Desse modo, a autora inseria elementos de ficção entre os diálogos e ensinamentos, numa dessas narrativas aparece a versão que madame Beaumont criou a partir do conto original escrito pela madame Villeneuve.

A essência da história foi aproveitada, assim como fizeram as diversas adaptações -cinematográficas, teatrais, literárias, musicais, dentre outras – do conto da madame Beaumont. Mas outros elementos foram acrescentados. Afinal, quem conta um conto sempre aumenta um ponto, certo?

Sobre a vida da Madame Beaumont

CRANE, 2016.

Ela nasceu em 1711, em Rouen, era filha de um pintor e escultor, cresceu numa família de classe média. Era órfã de mãe e foi preparada para ser freira, passou a educar outros jovens, durante 10 anos.

No ano de 1735 desistiu da vida eclesiástica e voltou a viver com o pai, no nordeste da França – Lorena. Lá começou a trabalhar como preceptora, dama de companhia e professora de música da primogênita do falecido Leopoldo de Lorena, Élisabeth-thérèse. Nesse período teve a oportunidade de conviver com importantes intelectuais da época, como Voltaire, por exemplo.

Além disso, também foi nesse período que ela conheceu o trabalho de importantes escritoras francesas, como: Émilie du Châtelet, Françoise de Gragny, Madame de la Fayette e Madame de Tencin. E também a fundadora da literatura feminina medieval, Christine de Pizan.

Tem se conhecimento de que ela se casou com Antoine Grimand de Beaumont no ano de 1743. Ela também tinha uma filha, chamada Elisabeth, mas alguns biógrafos consideram que esta menina seria fruto de um casamento anterior da Madame Beaumont, pois ela teria sido casada com um bailarino chamado Claude-Antoine Malter.

Não se sabe se por dificuldades financeiras ou por sofrer perseguição do seu agora ex-marido, Antoine de Beaumont, no ano de 1745 ela deixou sua filha num internato e partiu para a Inglaterra.

Nesse novo país, dedicou-se à educação; tanto nas práticas diárias, oferecendo trabalho de preceptora para jovens e crianças aristocratas, quanto à crítica da decadência da escola e das concepções teóricas para as melhorias no universo educacional. Assim escreveu vários livros com tal finalidade.

Inspirada pelos periódicos ingleses fundou “Le nouveau Magasin Français”. Acredita-se que o célebre autor de Robinson Crusoé, Daniel Defo, auxiliou nessa empreitada.  Nesse periódico era possível encontrar assuntos que envolviam tratados de boas maneiras, princípios morais, textos literários e científicos com finalidade pedagógica. A revista acumulou 40 volumes de 1750 a 1780 e chegou a ter publicações de Voltaire – poemas, ensaios, cartas e contos.

Não há provas oficiais que confirmem, mas muitos biógrafos acreditam que ela tenha se casado com Thomas Pichon e que ficaram juntos na Inglaterra até 1762. Reconhecida escritora e pedagoga, madame Beaumont retorna à França e, apesar das inúmeras propostas de trabalho de príncipes que a queriam como predecessora de seus filhos. Ela comprou terras em Chavanot e passou a dedicar-se a produção de romances epistolares, até vir a falecer em 1780.

Resumo do conto clássico “La Belle et la Bête”

Havia um comerciante muito rico que se preocupava e proporcionar uma excelente educação aos seus três filhos e três filhas. Eles levavam uma vida de luxo e ostentação, difundido principalmente pelas duas filhas mais velhas desse homem. Entretanto, a filha mais jovem, chamada Bela, preferia investir o seu tempo em leituras ao invés de se lançar unicamente à vaidade e até mesmo às futilidades que as irmãs cultivavam.

O pai desses jovens acabou por ir à falência, desse modo, toda a família passou a viver numa casa no campo, a única propriedade que lhe restava. A sua filha caçula, habituara-se a viver no sítio e prestar os devidos serviços necessários à manutenção da casa e da família, enquanto as outras irmãs lamentavam-se e criticavam a Bela.

CRANE, 2016.

Um ano depois de se instalarem no sítio, a esperança tornou-se presente novamente na vida daquela família, pois haviam recuperado uma das embarcações do comerciante com algumas mercadorias dele ainda em condições de serem comercializadas, ele imediatamente aprontou-se para ir à cidade, crente de que poderia recuperar a sua fortuna.

As filhas mais velhas não hesitaram em fazer uma enorme lista de pedidos luxuosos e caros, de modo que nem se ele recuperasse toda a sua riqueza teria condições de satisfazer tais desejos.  A Bela, por sua vez, pediu apenas uma rosa, pois não conseguira fazer com que naquele lugar florescesse uma roseira. Como de costume, as irmãs criticaram a escolha da irmã.

Na cidade o comerciante não teve sucesso com as mercadorias, e continuou na mesma situação financeira desfavorável aos desejos das filhas mais velhas. No entanto, ao retornar para a sua propriedade rural, enfrentou uma terrível tempestade de neve quando avistou um lindo castelo e decidiu proteger-se naquele lugar.

Quando lá chega, não consegue falar com ninguém, mas encontra uma mesa de jantar com a melhor comida que poderia ser oferecida. Decidiu, mesmo sozinho, degustar daquele banquete. A tempestade ainda estava forte então cogitou a ideia de passar a noite por ali, com cautela andou pelos corredores do castelo, até encontrar um quarto para conseguir repousar. Assim que amanheceu o comerciante já estava a postos, e foi recebido novamente com uma deliciosa refeição para o café da manhã, mas ainda assim, sem nenhuma pessoa para que ele pudesse, ao menos, agradecer.

CRANE, 2016.

Antes de ir ao encontro de seu cavalo, ele passou por um jardim com uma linda roseira e decidiu levar uma para presentear sua querida filha caçula. Assim que ele retirou uma flor uma fera horrenda apareceu fazendo com que ele quase desmaiasse. Por conta daquele “furto” agora ele deveria pagar a Fera.

Ele teve autorização para voltar a sua casa e trazer uma de suas filhas, que deveriam ir de bom grado, para cumprir a pena no lugar de seu pai. O comerciante, almejava retornar ao sítio apenas para despedir-se de seus filhos, ele não permitiria que nenhuma filha sua se entregasse em seu lugar.

Entretanto, assim que encontrou os filhos ele entregou a rosa para Bela e, já chorando, pediu que ela cuidasse muito bem daquela flor, pois o preço que ele iria pagar era muito alto. Relatou o que acontecera aos seis filhos, imediatamente as irmãs começaram a acusar a jovem Bela, chorando elas gritavam contra a jovem, que por sua vez, não chorava, apesar da grande tristeza não lagrimejava, pois acreditava que não perderia o pai, pois iria entregar-se em seu lugar. Assim que ela faz essa afirmação os irmãos prometem protegê-la com a própria vida.

Tentando manter a calma, Bela rejeita as inquietações do pai e dos irmãos e decidida a seguir o destino que agora lhe pertencia ela afirma veementemente o que fará. No dia de retornar ao castelo, o comerciante e sua filha pegaram a estrada e rapidamente alcançaram aquela estrutura imperial.

CRANE, 2016.

Quando chegaram ao castelo e estavam na mesa de jantar, posta especialmente para eles, a Fera apareceu. Bela ficou apavorada com tal criatura, mas conteve a sua emoção, pois temia por sua vida e também pela do pai. Eles passaram a noite no castelo e quando amanheceu o comerciante precisou ir embora e deixar sua filha naquele local, sozinha e sem saber qual seria, afinal, o seu destino. Antes de ir, porém, a filha lhe relatou um sonho que tivera em eu uma dama afirmava que ela receberia uma recompensa por tamanha bondade que existia em seu coração, tendo em vista o seu ato altruísta de ficar no lugar de seu pai.  Isso acalmou momentaneamente o pai.

Depois que ele retornou para o sítio, Bela caiu no choro e lamentava-se por tudo que acontecera. Ela acreditava que sua vida teria fim no final do dia e praticamente conformada com o que estava porvir ela decidiu explorar o lugar. De repente ela encontra um belo quarto cuja placa na porta dizia “aposento de Bela”. Intrigada ela adentra ao local e fica encantada com tudo que está lá, principalmente uma estante de livros. Assim ela começou a consolar-se, afinal, não preparariam tudo aquilo para ela passar apenas um dia. Ela começa a vasculhar o lugar até que “abriu a estante e viu um livro, no qual estava escrito em letras de ouro: peça o que deseja: aqui você é a rainha e a dona da casa.” Sem hesitar, Bela manifesta o desejo de ver o seu pai.  Então o espelho do quarto transforma-se numa tela em que ela pode ver o seu pai que já chegara ao sítio, porém abatido pela tristeza que o cercava.

Somente ao anoitecer Bela encontrou-se com a Fera que durante o jantar demonstrou ser uma ser integro e inteligente, atraindo assim a atenção de Bela, mas ao fim da noite, ela recebeu um convite que abalou as suas estruturas: a fera perguntou se ela aceitaria casar-se com ele. Ela fica aterrorizada, mas como era muito sincera, nega o pedido do anfitrião. Ele diz que tudo bem, mas se retira num humor diferente daquele que outrora estava.

Todas as noites a Bela e a Fera têm conversas interessantes sobre diversos assuntos, os momentos com aquele monstro passam a se tornar cada vez mais agradáveis, de modo que a jovem anseia esse momento para reencontrá-lo, mas ao final da noite sempre passam pela desagradável conversa em que Bela precisa rejeitar o pedido da Fera de desposá-la.

A jovem viveu três meses nessa situação até que não aguentou mais ver o tamanho do sofrimento de seu pai, que ela conseguia visualizar através do espelho, pois ele estava desolado e sozinho, tendo em vista que as filhas casaram-se e os filhos foram para o exército. Assim, Bela solicitou à Fera que a autorizasse a passar uma semana com a sua família.

Com a promessa de voltar e não permitir que a Fera morresse de desgosto, a jovem vai ao encontro do pai e também de suas invejosas irmãs. Bela portava-se e vestia tal qual uma rainha, o que aumentou ainda mais a inveja das irmãs, que não tinham sido felizes nas escolhas dos seus respectivos cônjuges e não eram, portanto, felizes.

Ao saberem da promessa de Bela, arquitetam um plano para que a irmã caçula retardasse o seu retorno ao castelo da Fera,fazendo com que esta sucumbisse na solidão.

A Bela ficou pouco mais de uma semana quando, depois de uma sonho, percebera que não estava correta com essa escolha. Colocou o anel que a Fera lhe dera sobre a mesa e assim, subitamente retornou para o castelo, as espera pela noite foi dura, e quando o relógio marcou nove horas da noite a Fera não apareceu. Desesperada, Bela sai à sua procura, quando encontra o anfitrião quase desfalecido.

 

No chão, com ele nos braços Bela promete se casar com a Fera, luzes de fogos e símbolos de festa iluminaram o lugar, quando ela retoma o olhar para o seu esposo ele está com outra forma, agora humana e bela. Assim que eles conseguem se levantar e chegam ao salão do castelo, Bela pode encontrar toda a sua família ali, a dama do sonho que lhe prometera recompensas por seu ato nobre havia levado todos para o castelo.

Mas antes da história acabar ela lança outro feitiço, agora destinado às irmãs de Bela, dizendo: “Tudo pode ser corrigido – orgulho, raiva, gula, preguiça-, mas a conversão de um coração mau e invejoso é uma espécie de milagre”, dito isso, ela transformou as irmãs em estátuas e disse que ficariam nessa forma até se arrependerem de tudo o que fizeram.

CRANE.2016.

A Bela e a Fera fizeram a festa do casamento e viveram muitos e muitos anos felizes, baseando os seus atos na virtude.

Referências

BEAUMONT,Jeane Marie & VILLENEUVE, Gabrielle. A Bela e a Fera. SÃO PAULO:Zahar,2016.

CRANE, Walte e outros: ilustrações presentes no livro A Bela e a Fera. SÃO PAULO:Zahar,2016.

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O conto a “Bela e a Fera” foi inspirado numa história real?

Quando tomamos conhecimento de histórias que antecederam o escrito da autora do século XVI, Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, temos a possibilidade de associá-las a um dos contos de fadas mais famosos de todos os tempos.

 

De acordo com alguns estudiosos, o conto original “A Bela e a Fera” teria sido inspirado numa história real, a fatídica jornada do jovem Pedro Gonzalez, ele sofria de uma rara doença chamada hipertricose e por conta disso, tinha todo o corpo recoberto por espessos pelos avermelhados, tal doença também é chamada de síndrome do lobisomem.

Infelizmente, muitas pessoas que possuíam condições de vida diferentes eram tratadas de formas desumanas, sendo submetidas a exposições em circo de horrores/ “zoológico” humano sob  olhares curiosos que as afrontavam e massacravam suas condutas sociais. Este doença não ocasiona nenhum problema se saúde físico, a não ser àquelas que as condutas sociais impõem – como o isolamento social e as consequências de tal ato.

Desde a idade média, tem-se conhecimento de, pelo menos, cinquenta casos de hipertricose, ela é uma anomalia genética e existe cinquenta por cento de chance dela ser passada para outras gerações. Existem ainda, alterações espontâneas (sem ligação com descendência genética) para tal condição, mas são casos muito mais raros.

O jovem que inspirou a personagem Fera da narrativa da madame Villeneuve nasceu nas Ilhas Canárias, em Tenerife, no ano de 1537. Não se tem muitas informações sobre a sua família, mas se sabe que seu pai o entregou como presente para o Sacro Imperador Romano-Germânico, CarlosV.

No entanto, o jovem estava destinado a viver sob o julgo do rei francês Henrique II, pois, durante a sua viagem rumo à morada de Carlos V, a sua nau sofreu um ataque de corsários franceses, que decidiram levá-lo ao rei como animal de estimação.

Rei Henrique II

O rei Henrique II o recebeu e decidiu fazer uma experiência com ele – já que não o consideravam um humano. Ele decidiu humanizá-lo oferecendo uma educação formal a ele, tal qual a de um nobre. O rei não acreditava que ele teria condições de aprender às práticas sociais nobres, nem tão pouco a linguagem adequada a esta classe animal e social.

Pedro Gonzalez ou Petrus Gonsalvus, no entanto, provou que o rei estava enganado, passou a dominar os idiomas: francês, latim e italiano. Além disso, tinha um exímio comportamento nobre controlando perfeitamente as etiquetas da época, tornou-se tal qual um verdadeiro príncipe.

Rainha Catarina de Médici.

Por conta disso, ele ficou muito conhecido entre os cortesãos europeus, que observaram aquele “animal” agindo como um “homem”. Quando o rei veio a falecer, a sua esposa (rainha Catarina de Médici) decidiu ampliar a sua experiência com o seu “bicho de estimação”. Para isso, ele obrigou que uma bela jovem (também chamada Catarina), filha de um servo da corte, casasses-se com o Pedro Gonzalez. Isso aconteceu no ano de 1573.

Imagem meramente ilustrativa da noiva de Gonzalez, Catarina.

Relata-se que a jovem desmaiou ao ver a “Fera” com quem se casaria, pois na época ele era considerado e tratado como um animal, um monstro, e a jovem conseguia apenas ver a construção social horrenda que tinham criado para ele. Ainda não tinha expandido o seu olhar além daquela casca exterior. O jovem, porém novamente surpreendeu os cidadãos daquela corte.  Ao invés de se comportar de forma brutal como muitos esperavam, ele foi extremamente gentil e cortês com sua futura esposa.

Depois que eles se casaram tiveram sete filhos e quatro deles nasceram com a mesma condição do pai, o que levou a rainha, Catarina de Médici, a doar as crianças seja para cortesãos ou cientistas. Além disso, ela também viajou algumas vezes com a família Gonzalez para exibi-los.

Durante algum tempo foram sucesso nas cortes nobres de toda a Europa, mas com o tempo eles foram esquecidos. Após a morte da rainha, Pedro Gonzalez e sua esposa Catarina, foram viver na pacata região da Itália, Capodimonte, no Lago Bolsena (Viterbo).  Onde esta gentil “Fera” veio a falecer no ano de 1618, com 81 anos de idade. A sua Bela esposa faleceu alguns anos depois, em 1623.

Não se tem informações se eles voltaram a conviver com os filhos que foram levados pelos cortesãos, mas se sabe que eles estiveram presentes no batizado de um de seus netos em 1617, de acordo com documentos da Itália.

É possível encontrar mais detalhes da vida de Pedro Gonzalez nos “Arquivos do Vaticano e Arquivo do Estado de Roma e Nápoles”.

Referências:

BEAUMONT,Jeane Marie & VILLENEUVE, Gabrielle. A Bela e a Fera. SÃO PAULO: Zahar,2016.

https://tudorbrasil.com/2015/09/04/o-homem-por-detras-da-fera-a-vida-de-petrus-gonsalvus/ acessado em 04 de março às 12h05.

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A Bela e a Fera: o conto original

Este conto foi publicado há 277 anos pela escritora francesa, Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, no livro intitulado “La Jeune americaine” ou “Les contes Marins”. Nele é possível encontrarmos uma narrativa fluída e recheada de fantasias conectando as críticas que a autora pretendia evidenciar.

Eis um breve resumo do conto La Belle e la Bête

O Pai de Bela era um rico comerciante da ilha Bem-aventurada de um país bem distante, mas ele veio à falência depois que um incêndio consumiu a sua casa com todos os seus títulos bancários, dinheiro, ouro e mercadoria. Além disso, as embarcações que ele tinha posse sofreram naufrágio piorando a situação financeira da família.

Entregue à miséria, ele se viu sem o amparo dos amigos e precisou sair da cidade juntamente com seus 12 filhos solteiros, seis mulheres e seis homens. Eles foram viver em uma casa de campo a qual no passado, ele usava para descansar.

Depois de dois anos, ele recebeu a notícia de que uma de suas embarcações fora resgatada. O homem, então retornou à cidade na esperança de recuperar a antiga vida. Antes de sair, as demais filhas lhe pediram presentes luxuosos e caríssimos, a Bela, porém, não pediu nada, até que depois da insistência do Pai ela resolveu pedir uma rosa, pois no lugar onde eles viviam essa planta não crescia.

Este homem então regressa à cidade, mas não consegue reaver as mercadorias ou o navio e enquanto volta desolado para a cidade do campo, acompanhado de seu cavalo enfrenta uma tremenda tempestade de neve, quando então avista um lindo castelo, e decide procurar abrigo naquele local.

CRANE, 2016.

Quando ele lá chega, não consegue falar com ninguém, mas acaba por ficar por ali enquanto o tempo lá fora se acalma. Assim que acorda é recebido com um delicioso baquete, mas ainda não consegue ver ou falar com nenhum humano, pouco antes de ir embora, ela percebe uma linda roseira no jardim do castelo, já que ele não conseguira reaver a sua riqueza, poderia sanar o desejo de pelo menos uma de suas filhas.

Assim que ele encosta-se à rosa, “Uma fera medonha enrolou em seu pescoço uma espécie de tromba como a de um elefante e, como uma voz assustadora – Quem o autorizou a colher minhas rosas?” (VILLENEUVE, 2016) o homem pede desculpas, mas já era tarde demais, ele tinha agora uma dívida com aquele monstro. A Fera pergunta se ele não ficou satisfeito com o tratamento VIP que recebeu no castelo, enquanto se abrigava das adversidades do tempo… E faz um acordo com ele, dizendo que a sua liberdade poderá ser trocada por uma de suas filhas que aceitem substituí-lo ficando em seu lugar.  Mas a Fera ressalta que ela não deve vir forçada.

CRANE, 2016.

O homem teria um mês para decidir se retornaria ao Castelo para cumprir a sua perna com o crime que cometera, ou se submeteria uma de suas filhas a tal castigo. Quando ele retorna ao seu lar, ele relata o que aconteceu, e Bela se dispõe a ocupar o seu lugar, o pai nega que ela faça tal sacrifício, mas ela e os demais membros daquele lar o convence do contrário.

CRANE, 2016.

Quando se completou o mês, os cavalos da Fera foram buscar o velho e sua filha, assim que eles chegaram ao castelo, a Fera os recebeu e deixou que o Pai de Bela levasse uma quantidade de riqueza para melhorar a condição de sua família.

A Bela passa a viver no castelo atormentada pelo medo de que destino levaria a sua vida, mas a Fera aproxima-se dela durante poucos minutos do dia, apenas durante o jantar. No tempo livre, Bela vislumbra a beleza do local, é acompanhada por seres animalescos como macacos, patos e papagaios que fazem todas as suas vontades e cuidam dela como cuidariam a uma rainha, além disso, por meio de algumas janelas, Bela tem acesso a concertos e apresentações teatrais da França, da Itália ou de outros lugares do mundo.

CRANE, 2016.

Durante todas as noites do castelo, Bela é avassalada por um sonho que se parece muito real, nele ela se encontra com um príncipe belo e gentil, com o tempo ela se apaixona por esta figura onírica.A Fera amedronta a Bela quando começa a questioná-la se ela aceitaria deitar-se com ele. Ela, educadamente, nega. Ele então sai da sala de jantar e apenas lhe diz boa noite… Isso passa a acontecer em todas as noites, então ele sempre a questiona se poderiam ir para o mesmo leito e ela sempre nega, apesar do medo do que ocasionalmente aconteceria a ela se continuasse a negar.

CRANE, 2016.

Apesar das diversas atividades e distrações que Bela tinha à sua disposição durante o dia, ela se sente entediada e fica preocupada com sua família. Ela pede então a Fera, para que ela a deixe ir ter com a sua família, até para que eles passassem a saber como ela estava.

Bela foi e levou diversos produtos de valor, a pedido da Fera, para presentear a sua família, depois dos três meses que passou longe da Fera, quando ela regressa, a Fera estava quase sucumbindo. Mas o Pai da Bela a havia aconselhado a aceitar o pedido da Fera de se deitar com ele. Quando ela regressão ao castelo, eles se casam, fazem os votos ali, apenas os dois e ela permite que ele a despose. Assim que eles chegam ao quarto ele simplesmente dorme, um sono bem profundo.

CRANE, 2016.

Quando ela acorda, percebe que uma carruagem real se aproxima do castelo, chegava ali a Fada que ajudara a Fera a se livrar de sua maldição e a Rainha, mãe da Fera. Bela então conhece a verdadeira forma da Fera, e também a jornada a qual a Fera foi incumbida a cumprir.

A Fera, agora na forma de Príncipe, explica o que aconteceu para ter o seu destino avassalado por tal maldição. Ele nos relata que a sua mãe, Rainha, depois da morte de seu pai, precisou administrar uma guerra pessoalmente. Por isso, uma Fada ficou encarregada de cuidar do príncipe, enquanto ela estivesse fora.

No início, a Fada cuidou muito bem da criança, ela até a chamava de mãe, mas depois de retornar de uma viagem, a Fada havia mudado o seu comportamento, passando a insistir que o Príncipe dormisse com ela.

Quando a Rainha retorna ao seu lar, a Fada continua a insistir que o Príncipe a desposasse. Tanto a Rainha quando o Príncipe nega veementemente. Então a Fada lança uma maldição sobre ele, transformando-o numa Fera. Ela golpeia o jovem e ele subitamente metamorfoseia-se numa horrenda criatura.

Ele então, lança a sua vingança dizendo: “ordeno que finja ser tão estúpido quanto medonho, e para que recupere a sua forma original ordeno que espere, sob tal aparência, que uma bela moça venha procurá-lo voluntariamente, mesmo persuadida de que você deve devorá-la. Ela também deve, após descobrir que sua vida não corre mais perigo, se apaixonar por você a ponto de lhe propor casamento. Até você encontrar essa pessoa rara, quero que seja um objeto de horror para si próprio e para todos aqueles que o virem.” (VILLENEUVE, 2016)

Essa Fada ainda ordena que a Rainha afaste-se de seu filho e não informe a ninguém que é a mãe de tal criatura. Após a Fada que lançou o feitiço horrendo sair, a Rainha pede ajuda a outra Fada. Essa Fada transforma todos os seres presentes no castelo em estátua, para que ninguém relatasse que a Fera era filha da rainha, estes seres ainda estavam nessa condição no castelo.

A Fera passou a viver sozinha naquele castelo e tudo o que aconteceu com a Bela fora arquitetado por esta segunda Fada que pretendia libertar a Fera. A Rainha, mãe da Fera, mesmo vislumbrando o seu filho liberto da maldição ainda se sente ofendida pele origem familiar da Bela, pois ela não pertencia uma família nobre (parece que a Rainha não aprendeu nada com tudo o que aconteceu!).

Nesse momento, um homem com porte real aproxima-se do castelo, ele era um Rei irmão da Rainha, mãe do Príncipe. Acontece que ele também era o pai biológico de Bela, fruto de um relacionamento proibido com uma Fada. Essa terceira Fada era irmã daquela que ajudou a Fera a se libertar da maldição, e estava presa por conta de seu crime com o humano. O Rei acreditava que tanto a esposa quanto a filha estavam mortas. A Bela rapidamente o recebe como pai.

O Rei também clama pela libertação de sua amada esposa-fada, depois de um eloquente debate, a Fada, tia de Bela, consegue que sua irmã tenha liberdade e autorização para viver com seu amado. A Bela e a  Fera se casam, suas cinco irmãs juntamente com seus maridos passam a viver na corte real, assim como o Pai que a criou e seus irmãos.

CRANE, 2016.

Referências:

BEAUMONT,Jeane Marie & VILLENEUVE, Gabrielle. A Bela e a Fera. SÃO PAULO:Zahar,2016.

CRANE, Walte e outros: ilustrações presentes no livro A Bela e a Fera. SÃO PAULO:Zahar,2016.

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O código da Vinci

Antes de iniciarmos nossos apontamentos acerca da obra “O código da Vinci” de Dan Brown, que tal fazermos uma experiência Dadaísta?*

Para fazer um poema dadaísta

Pegue um jornal.

Pegue a tesoura.

Escolha no jornal um artigo do tamanho que

você deseja dar ao seu poema.

Recorte o artigo.

Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo

e meta-as num saco.

Agite suavemente.

Tire em seguida cada pedaço um após o

outro.

Copie conscienciosamente na ordem em que

elas são tiradas do saco.

O poema se parecerá com você.

E ei-lo um escritor infinitamente original e de

uma sensibilidade graciosa,

ainda que incompreendido do público.

Tristan Tzara.

Assim como essa experiência Dadaísta, o escrito Dan Brown inseriu em sua obra “O Código da Vinci”, diversos elementos reais e ficcionais para construir a sua história. Ele apropriou-se de diversos mistérios que cercam o universo religioso e artístico e com uma riqueza de detalhes apresentou-os em sua obra de ficção.

Podemos dizer que houve uma experiência Dadaísta, pois o escritor inseriu diversos acontecimentos históricos, assim como o conhecimento de sociedades secretas e documentos ditos, proibidos misturados às suas interpretações e construções significativas de personalidades históricas, aos recursos ficcionais da narrativa, à construção de sua mimese (imitação da realidade). Nesse emaranhado de informações, algumas reais e outras tantas ficcionais, o autor criou uma polêmica naquilo que cerca algumas fundamentais concepções Cristãs.

O filósofo Aristóteles desenvolveu algumas acepções acerca da Literatura, uma delas refere-se a esta arte da palavra que associa técnica à mimese, assim, quando o escritor imita ele cria a “fictio”, ou seja, a ficção, gerando narrativas genéricas, mas, verossímeis, ou seja, que parece verdadeiro. Essa reflexão é pertinente para que possamos conceber esta obra de Dan Brown como ela realmente é: ficcional.

A obra foi publicada em 2003 e está presente desde então na listagem dos livros mais lidos dos últimos tempos, não por acaso, principalmente por essa construção intrigante com diversas figuras, entidades e fatos históricos. Diante disso, é relevante ressaltar que a obra nos é apresentada como ficcional, e como tal ela constrói um enredo com personagens nomeadamente irreais, mas que inserem relações com algumas personalidades do nosso mundo real.

Com uma linguagem simples e direta, o narrador em terceira pessoa nos apresenta a descrição de algumas práticas de determinadas fraternidades secretas, assim como a apropriação cultural de algumas obras que cercam o universo Renascentista e também de determinados locais das cidades de Paris e Londres. Poder caminhar por estes locais, a partir da composição narrativa da obra, é uma experiência satisfatória, principalmente, se você ainda está construindo o seu arcabouço de leitura, pode ser uma obra interessante para integrar-se a este mundo da leitura, você não terá grandes dificuldades para entender os eixos narrativos que são desenrolados ao longo da história.

O enredo vai trazer as personagens Robert Langdon e Sophie Neveu nos meandros de mistérios que se relacionam com a própria história de vida de um deles, ao mesmo tempo, estas personagens precisam fugir da polícia francesa, por serem suspeitos de um caso de assassinato e ainda devem lutar contra o tempo para desvendar vários enigmas que vão surgindo ao longo da jornada, eles ainda precisam proteger a vida contra alguns indivíduos associados a determinado grupo da religião católica.

Essa parte da narrativa em que são inseridos diversos recursos a serem interpretados, decodificados pelas personagens protagonistas enriquece a leitura e alcançam seu propósito de entretenimento. É divertido poder acompanhar os anagramas, os poemas, as brincadeiras com as palavras que estão presentes na resolução de alguns problemas construídos na narrativa.

O efeito surpresa da ficção é interessante! É claro que em alguns momentos, a trama fica tão entrelaçada que uma solução muito simples é apresentada, dependendo da memória, ou de conhecimentos de mundo das personagens. Sabe aqueles episódios de CSI* em que se cria toda uma teia de mistérios, tão complexa e interessante, mas que é resolvida quase de uma forma mágica? Pois é, isso acontece também na obra de Dan Brown.

Provavelmente, você já tem conhecimento dos mistérios (ficcionais) que a obra constrói, mas, em todo caso, não vou especificá-los aqui, pois a minha intenção é difundir o interesse pela leitura, então, se você ainda não leu ou não conhece aquilo que a obra levanta de forma polêmica, é interessante fazer a leitura. Compreendendo-a como obra ficcional, terás uma narrativa empolgante e interessante.

Sem nos apresentar grandes desafios; linguísticos, estruturais da narrativa ou até mesmo com a complexidade das personagens, é o tipo de obra que se lê de forma rápida e fácil, o recurso de diálogos ajuda nessa agilidade da leitura, assim como na compreensão de alguns problemas que são criados.

Falando em problemáticas criadas na narrativa, o professor de Teologia da PUC, Fernando Altenmeyer, aconselha aos leitores do romance “O código da Vinci” – que se sentirem com o interesse de conhecer mais da principal figura histórica e religiosa, trazida como personagem ficcional na obra – a lerem o evangelho de São Marcos, presente também em um dos livros mais vendidos na história da humanidade, aliás, no primeiro colocado nessa listagem, a Bíblia.

*Dadaísmo é uma Vanguarda Europeia que surgiu na Suíça, em 1916. O movimento buscava a destruição da arte acadêmica e tinha grande admiração pela arte abstrata. Por esta razão, provocou escândalo e surpresa, já que ironizava o modelo de arte acadêmica, dando ênfase a destruição radical e anarquia dos valores e formas.

*CSI: “Crime Scene Investigation” em português “Investigação da Cena do Crime”, aqui me refiro às diversas séries sobre este universo de investigação criminal.

 

Referências:

Boletim Eletrônico do SINPRO-SP (Sindicato dos Professores), ano II, No. 52,

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

BROWN, Dan. O código da Vinci. Lisboa: Bertrand, 2003.

CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, v.I.

TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Europeia e Modernismo Brasileiro. São Paulo:Vozes, 2000.

 

 

Até breve!

Jessica Marquês.

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Noite na taverna

Falar sobre, ler e reler Noite na Taverna de Álvares de Azevedo é colocar todas as nossas paixões em evidência, o livro é um dos maiores representantes da segunda fase do Romantismo, outrora chamada de “mal do século” e deixa-nos atordoados tamanha conexão fúnebre de suas histórias.

Muitos podem dizer que a grande marca desse livro são os temas como; morte, tristeza, amores platônicos, mas acredito que o grande ponto de Noite na Taverna é a surpresa, por mais que uma história após a outra avassala o nosso ser e nos deixa de queixo caído, por mais que as situações vão se tornando ainda mais sombrias, a cada nova página você se surpreende ainda mais!

Quando digo que o maior elemento do livro é a surpresa, não estou me referindo exclusivamente à construção das narrativas, aos enredos que cada conto vai desenrolando, às problemáticas que vão surgindo, a cada clímax que nos deixa sem ar, refiro-me à surpreendente qualidade literária da obra.

Alvares de Azevedo escreveu esse livro antes de seus 20 anos de idade e infelizmente não pôde vislumbrar a importância, a contribuição de sua produção para a Literatura Brasileira, pois veio a falecer, vítima de tuberculose, no dia 25 de abril de 1825 – antes de completar 21 anos de idade, tendo em vista que ele nascera no dia 12 de setembro de 1831.

Inclusive, poucos dias antes de sua morte ele escreveu um poema que ilustrava muito bem o seu sentimento, ali naquele leito de quase morte. Ele recebeu uma homenagem poética, pois esse poema foi lido por Manuel de Macedo no momento de seu velório. Eis o poema:

Se Eu Morresse Amanhã!

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria,
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas,
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã…
A dor no peito emudecera ao menos,
Se eu morresse amanhã!

Como se percebe no poema citado, a produção Literária de Álvares de Azevedo era recheada de um drama macabro, a morte era temática constante em sua escrita – o que nada nos espanta, já que ela alcançou este escritor ainda tão jovem. E isso não será diferente em Noite na Taverna, o pequeno livro apresenta-nos histórias que vão permear os meandros da fatídica vida de alguns jovens, que ébrios relatam acontecimentos, segundo eles, reais.

Os temas da narrativa; assassinato, estupro, violentação, corrupção, incesto, adultério, necrofilia, traição, antropofagia… Só corrobora para sua vinculação à segunda fase Romântica, chamada de ultrarromântica. Na medida em que esse período tem muito presente em suas características: o egocentrismo, o sentimentalismo, a idealização amorosa, a dor, o sofrimento, a angústia, dentre outros.

A linguagem muito bem elaborada, muito bem cuidada mexe com as nossas estruturas lexicais, em poucas páginas percebemos a nossa limitação linguísticas, são tantos termos e palavras extremamente cultas e milimetricamente bem colocada, que nos faz ler e reler insanamente aquilo que compõe a narrativa. Com esse livro sinto-me uma ignorante no que tange à Língua Portuguesa, se você quer perceber o quanto você nada conhece da língua que fala, perpasse os seus meros olhos humanos por estas páginas.

Em uma das muitas leituras que fiz dessa obra, uma vez decidi demarcar todos os termos que causavam algum estranhamento, que não sabia em que momento os poderia utilizar, e meu livro se tornou um emaranhado maculado pela minha ignorância. Mas é claro que a obra não é apenas um aglomerado de palavras difíceis; a organização sintática, a poesia, a maneira de relatar, de descrever, de registrar cada acontecimento da narrativa é simplesmente incrível.

Para nos dizer, por exemplo, que uma jovem chorava, ele faz a seguinte construção: “Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas…” Por gentileza, faça uma pausa na leitura dessa resenha e releia o trecho destacado!!! (É incrível, não é?)

 É simplesmente estonteante poder acompanhar histórias com essa qualidade linguística, você com certeza precisa fazer a leitura desse livro mais de uma vez; num primeiro momento para conhecer as histórias relatadas pelos jovens: Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johan. E num segundo momento para contemplar a beleza das palavras que estão reunidas ali, para contemplar a riqueza lexical e comparativa.

Nas 96 páginas em que a narrativa é construída, você terá acesso às diversas representações da eloquência de um apaixonado, às divindades presente nas mãos de um jovem (apesar dos acontecimentos não se aproximarem de maneira alguma a certa divindade ou pureza, muito pelo contrário, a escrita de Álvares de Azevedo aproxima-se de temáticas satânicas… Quando digo divindade, portanto, refiro-me à perfeição de sua escrita) que eleva a nossa alma e comprova que a Literatura é muito mais do que contar uma história…

No que concerne à presença da mulher na obra, ela aparece sempre como objeto de contemplação para as personagens que ali estão. Apesar dessa contemplação, o quesito objeto é o mais destacado na obra. Elas são usadas para satisfazer as mais primitivas “necessidades” do homem. Chega a nos enojar, ao conhecer alguns acontecimentos da narrativa. Em outros momentos, no entanto, estas personagens subvertem os sentimentos de alguns referidos narradores, e se tornam mais do que simples objetos de amor ou paixão, tornam-se verdadeiras prisões para eles. É claro que quando isso acontece, sentimos uma pontada de alegria, pois algumas mulheres demonstram a sua força e poder perante situações mais do que complicadas.

É válido notar aqui que nessa fase do romantismo, a mulher é temática constante nas obras, sendo descrita de forma elevada no que concerne à sua perfeição. São idolatradas por muitos personagens, mas essa idolatria, muitas vezes, ultrapassa o limite da adoração e alcançam os meandros carnais dos seres.

Essa exaltação da mulher presente nas obras ultrarromânticas é desenvolvida com práticas reconhecidamente antagônicas: “Eis um processo de antíteses: luz e sombra, paixão e melancolia, amor e morte, antíteses que também são causa e consequência uma da outra, […] Vemos o amor como pulsão de morte e não de vida. O silêncio torna-se, assim, o único elemento permanente.” (EVERDOSA, 2009;p. 103)

O personagem Claudius Hermann de Noite na Taverna representa muito bem esta insana paixão que avassala os seres ultrarromânticos, acompanhar tudo o que acontece com a jovem duquesa Eleonora quase nos faz fechar as páginas do livro e abandonar a narrativa. Observe o poema que ele escreveu para a mulher que ele idolatrava:

Não me odeies, mulher, se no passado

Nódoa sombria desbotou-me a vida,

— É que os lábios queimei no vício ardente

E de tudo descri com fronte erguida.

A masc’ra de Don Juan queimou-me o rosto

Na fria palidez do libertino:

Desbotou-me esse olhar… e os lábios frios

Ousam de maldizer do meu destino

Sim! longas noites no fervor do jogo

Esperdicei febril e macilento

E votei o porvir ao Deus do acaso

E o amor profanei no esquecimento!

Murchei no escárnio as coroas do poeta,

Na ironia da glória e dos amores:

Aos vapores do vinho, a noite insano

Debrucei-me do jogo nos fervores!

A flor da mocidade profanei-a

Entre as águas lodosas do passado…

No crânio a febre, a palidez nas faces,

Só cria no sepulcro sossegado!

E asas límpidas do anjo em colo impuro

Mareei nos bafos da mulher vendida,

Inda nos lábios me roxeia o selo

Dos ósculos da perdida.

E a mirra das canções nem mais vapora

Em profanada taça eivada e negra:

Mar de lodo passou-me ao rio d’alma,

As níveas flores me estalou das bordas.

Sonho de glórias!… Só me passa a furto,

Qual flor aberta a medo em chão de tumbas

— Abatida e sem cheiro…

O meu amor… o peito o silencia:

Guardo-o bem fundo em sombras do sacrário.

Onde ervaçal não se abastou nos ermos.

Meu amor… Foi visão de roupas brancas

Da orgia à porta, fria e soluçando,

Lâmpada santa erguida em leito infame,

Vaso templário da taverna à mesa,

Estrela d’alva refletindo pálida

No tremedal do crime.

Como o leproso das cidades velhas

Sei me fugiras com horror aos beijos.

Sei, no doido viver dos loucos anos

As crenças desflorei em negra insânia…

— Vestal, prostitui as formas virgens,

Lancei eu próprio ao mar da c’roa as folhas,

Troquei a rósea túnica da infância

Pelo manto das orgias.

Oh! não me ames sequer! Pois bem! um dia

Talvez diga o Senhor ao podre Lázaro:

Ergue-te aí do lupanar da morte,

Revive ao fresco do viver mais puro!

E viverei de novo: a mariposa

Sacode as asas, estremece-as, brilha,

Despindo a negra tez, a bava imunda

Da larva desbotada.

Então, mulher , acordarei do lodo,

Onde Satã se pernoitou comigo,

Onde inda morno perfumou seu molde

Cetinosa nudez de formas níveas.

E a loira meretriz nos seios brancos

Deitou-me a fronte lívida, na insônia

Quedou-me a febre da volúpia à sede

Sobre os beijos vendidos.

E então acordarei ao sol mais puro,

Cheirosa a fronte às auras da esperança!

Lavarei-me da fé nas águas d’oiro

De Magdalena em lágrimas!… e ao anjo

Talvez que Deus me de, curvado e mudo,

Nos eflúvios do amor libar um beijo,

Morrer nos lábios dele!

 

Referências:

AZEVEDO, Alvares de. Noite na taverna. L &PM pocket, 2000.

ERVEDOSA, Polyanna. O feminino e a fragmentação amorosa em Noite na Taverna. Emoob, 2009.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, v.I.

 

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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Psicanálise Junquiana presente na obra “Mulheres que correm com os lobos”

A psicanálise Junquiana cerca as complexas análises desenvolvidas na obra Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, de Clarissa Pinkola Éstes. Mas afinal? Do que se trata essa vinculação psicanalítica?

É mais do que relevante conhecermos o idealizador e criador dessa teoria, o qual a nomeia também, estamos falando do Suíço Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta. Ele nasce no ano de 1875, no dia 26 de julho, na cidade de Kresswil, na Basiléia. Era filho de pastor da Igreja Luterana, e desde novo teve acesso a diversos textos sobre filosofia e espiritualidade. No ano de 1961 ele publicou a sua autobiografia “Memórias, sonhos e reflexões” em que nos apresenta os assuntos pelos quais ocupou-se ao longo de sua vida e a relação deles com suas práticas pessoais e profissionais.

Era formado em medicina e dedicou toda a sua vida e carreira para o estudo da psique humana, veio a falecer no ano de 1961, dez dias depois de terminar o livro “O homem e seus símbolos”. Jung era contemporâneo de Freud, e por algum tempo eles alinhavam seu pensamento e estudo, mas as divergências de compreensão da mente humana tornaram-se maiores e cada um desenvolveu a sua própria teoria.

Quando falamos de psicanálise Junquiana estamos nos referindo à psicologia analítica, esta, por sua vez, preocupa-se em analisar o homem levando em consideração a sua integridade, a sua vida em comunidade. Não é cabível, para a psicologia analítica, isolar este homem dos contextos os quais ele pertence. Para desenvolver essa teoria, Jung preocupou-se com temas, como: mitologia, cultura, literatura, religião e alquimia, na tentativa de conhecer os efeitos psíquicos desses temas nos homens e o próprio funcionamento da psique.

De acordo com a psicóloga Rafaella Santos Silveira, “Na psicologia analítica o psicólogo deixa o paciente livremente, mas não tanto assim, fazendo intervenções quando necessário e conduzindo ou orientando o discurso, não de maneira a influenciar, mas de modo a manter o indivíduo em seu discurso, não permitindo que ele perca o foco e vá para caminhos que, muitas vezes, podem ser distrações a serviço da resistência e de mecanismos de defesa.” (SILVEIRA, 2016).

Para quem leu o livro Mulheres que correm com os lobos é perceptível esta, digamos, aplicação da prática analítica, pois ao nos apresentar os respectivos contos presentes na obra a autora faz intervenções na construção da interpretação da história que foi transcrita.

Ademais do discurso verbal, a psicologia analítica se apropria de outros recursos para desenvolver suas concepções do estudo da psique, tais como: desenho, pintura, argila… Além disso, ela utiliza a amplificação, que consiste em associar mitologias e contos de fadas ao discurso do paciente. Em se tratando da obra estudada, essa relação com diversas histórias que cercam o universo feminino é uma constante, muitas vezes, nos sentimos parte, figurativamente, de determinada história, e consequentemente, as análises apresentadas pela autora alcançam o nosso ser.

A teoria Jung é muito complexa e completa e exige um estudo muito mais aprofundado, entretanto para tentarmos compreender de forma geral a psicologia analítica serão apresentados alguns conceitos. Ao final do artigo existem algumas referências que podem contribuir para o início de um estudo sobre esta vertente psicanalítica.

CONCEITOS DA PSICANÁLISE JUNQUIANA

  1. Individuação: considera tanto o consciente como o inconsciente, é um processo de desenvolvimento pessoal que engloba os demais conceitos, tais como: ego, centro da consciência e Self.

 

  1. Consciência: para entendê-la Jung desenvolveu as atitudes de extroversão e introversão, além disso, ele criou as funções psicológicas, ou como ele chamou: Tipos Psicológicos. De acordo com ele, os indivíduos possuem todas as atitudes e funções atribuídas, a diferença está na proporção.

        2.1 Atitudes: Elas se excluem mutuamente, alternando-se em determinadas situações, mas uma           delas prevalece em cada indivíduo.

  • Extroversão: atitude objetiva.
  • Introversão: atitude subjetiva.

        2.2 Tipos psicológicos (funções):

  • Pensamento: avalia de forma lógica os prós e contras dos fenômenos da vida, discriminando, julgando e classificando-os.
  • Sentimento: considera os fenômenos de uma forma valorativa, eles são agradáveis ou não. Coloca-se em evidência os valores pessoais.
  • Sensação: o contexto do aqui e agora são percebidos pelos órgãos dos sentidos.
  • Intuição: aquilo que se percebe sensorialmente passa a ter significados, relações e possibilidades.

  1. Inconsciente: relaciona a dinâmica da personalidade apresentando outros conceitos fundamentais para compreender a psicologia analítica.
    • Arquétipo da Persona: diferentes papéis sociais que os indivíduos exercem na sociedade.
    • Arquétipo da Sombra: estão presentes todos os aspectos que foram reprimidos desde a infância para que a aceitação social acontecesse.
    • Inconsciente pessoal: origina-se a partir do coletivo e contém assuntos mentais inacessíveis pelo ego.
    • Inconsciente coletivo: refere-se à parte do inconsciente que nunca se tornou consciente, ou seja, as ações instintivas da raça humana que foram herdadas pela psique.
    • Complexos: são os grupos que possuem uma carga emocional de ideias ou imagens.
    • Ego: é o centro da consciência, aquele que é responsável por guiar a nossa vida consciente.
    • Self: responsável pela ordem e totalidade da personalidade, é o arquétipo central.
    • Arquétipos – anima e animus: auxiliam o ego a entrar em contato com o inconsciente. “Anima é a parte interior feminina da psique do homem e animus a parte interior masculina da psique da mulher, servindo então ao equilíbrio do sistema psíquico, uma vez que compensam a atitude masculina ou feminina da consciência.” (SILVEIRA).

Referências:

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Barcarena: Marcador, 2016.

SILVEIRA, Rafaella Santos. Principais Conceitos da Psicologia Analítica de Jung – in: http://www.apoiopsicologico.psc.br/principais-conceitos-psicologia-analitica-jung/ acessado em 13 de jan. de 2017.

http://www.ajb.org.br/

 

Até mais!

Jessica Marquês.

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