Cantiga de escárnio – Trovadorismo

A poesia satírica é um tipo de texto crítico que vai apresentar de forma direta ou indireta alguma visão divergente de determinada situação. No que se refere à produção da poesia trovadoresca, das cantigas medievais, temos dois tipos de cantigas satíricas:

Cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.

Nesse artigo apresentaremos as principais características da cantiga de escárnio que com uma crítica indireta vai falar mal de alguém, como ela não faz isso de forma objetivo e sim sugestiva, essa cantiga acaba por estimular a imaginação do leitor, apresentando-lhe uma nova expressão irônica, ele pode buscar outras pessoas a quem direcionar aquele dizer.

O grande elemento dessas cantigas é a ambiguidade, haverá desse modo, uma construção com duplo sentido com jogos semânticos e trocadilhos,  marcado pela ironia e pela sutileza da produção.  De forma indireta desenvolve uma crítica que ridiculariza o comportamento de nobre, ou por vezes, denunciam o comportamento de algumas mulheres que naquele contexto não seguia o código de amor cortês, mas não citam-se os nomes, apenas sugere.

CANTIGA DE ESCÁRNIO Pero Larouco

De vós, senhor, quer’eu dizer verdade

e nom ja sobr’[o] amor que vos ei:

senhor, bem [moor] é vossa torpicidade

de quantas outras eno mundo sei;

assi de fea come de maldade

nom vos vence oje senom filha dum rei

[Eu] nom vos amo nem me perderei,

u vos nom vir, por vós de soidade[…]

              Tradução:

Sobre vós, senhora, eu quero dizer verdade

e não já sobre o amor que tenho por vós:

senhora, bem maior é vossa estupidez

do que a de quantas outras conheço no mundo

tanto na feiúra quanto na maldade

não vos vence hoje senão a filha de um rei

Eu não vos amo nem me perderei

de saudade por vós, quando não vos vir.

Nota geral*

Perfeito contra-texto de uma cantiga de amor (mantendo muitas das suas expressões tópicas), retrato de uma senhora que, de superlativo, só tem a maldade e a falta de beleza. A cantiga é, ao mesmo tempo, um ataque indireto contra a filha d´um rei aludida no v. 6, e que Lapa1 supôs poder ser uma das filhas de Afonso X (suposição que a expressão filha d´emperador, usada no v. 15, parece reforçar); no entanto, dada a provável cronologia tardia de Pero Larouco e o facto de o seu percurso parecer sobretudo português, a dar-se o caso de ser uma das filhas do Rei Sábio, teria de ser D. Beatriz, mãe de D. Dinis (o que não seria impossível, conhecidas que são as más relações que o monarca manteve com sua mãe, sobretudo nos momentos iniciais do seu reinado).

*Nota geral retirada do site: http://www.cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=633&tr=4&pv=sim

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxi

http://www.cantigas.fcsh.unl.pt

Até a próxima,

Jessica Marquês.

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O eu lírico

Para compreendermos profundamente as cantigas do Trovadorismo é fundamental entendermos o eu lírico, aliás, para sermos capazes de analisar qualquer produção poética, é primordial conseguirmos localizar o eu lírico presente no poema ou canção que se analisa.

O Eu lírico também pode ser chamado de eu poético ou sujeito lírico, é como se fosse o narrador do poema. Quando se lê um poema e percebe-se a manifestação do eu lírico, ou seja, aquela personagem, aquela voz presente nos ali nos versos. É válido ressaltar que esta voz que fala através do poema,  não precisa ser necessariamente o autor do referido poema.

São personas diferentes o autor e o eu lírico, por exemplo, eu poderia escrever um poema cujo eu lírico fosse uma criança, um homem, um cachorro. Sendo eu uma mulher adulta! Eu seria a autora do poema, e a criança, o homem ou o cachorro presente em meus versos, seria o eu lírico. Então o poeta e o eu lírico são seres diferentes no poema, não devemos confundir a pessoa real, com a construção fictícia. O eu lírico é a voz que fala no poema.

É válido notar ainda que a subjetividade do criador e as suas influências e experiências de vida poderão estar presentes no poema. Mas ainda assim, no momento em que se produz o seu texto poético, é criado ali outro ser, um ser que fala através do poema “autopsicografia” de Fernando Pessoa. Observe:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Esse poema de Fernando Pessoa, escritor português que nos encantou de tantas maneiras por meio de seus heteronômios*. Podemos afirmar que Fernando Pessoa é a prova de que o poeta não cabe no poema, pois ele criou mais de 70 heteronômios. Dentre eles os mais marcantes são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Estes heteronômios possuem abordagem e estilo completamente diferentes. O Fernando Pessoa talvez represente o fato de que o dono do poema é o eu lírico e não o poeta.

O poema abaixo é uma Ode de José Paulo Paes que retrata o sofrimento do autor/ que também é o Eu-lírico. Aqui o autor e o eu lírico se confundem, pois o José Paulo Paes sofria de uma grave doença chamada aterosclerose.  Com o agravamento da doença e a circulação prejudicada, a sua perna esquerda teve de ser amputada. Eis o poema:

Ode à minha perna esquerda

1

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?

2

Desço
………que …………………subo
…………….desço…… que
……………………subo
……………………camas
……………………imensas.

Aonde me levas
todas as noites
……..pé morto
……..pé morto?
Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
…..a
…..i
…..n
…..a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

……..Por que me deixaste
………………………..pé morto
………………………..pé morto
……..a sangrar no meio
……..de tão grande sertão?

…………………………não
…………………………n ã o
…………………………N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.
Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
….assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambu-
….latório apareceram inexplicavelmente sem tampa,
….os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda… direita
esquerda… direita
………………..direita
………………..direita

…Nenhuma perna
…é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.

 

* Heteronômio: é o nome imaginário que um criador identifica como o autor de obras suas e que designa alguém com qualidades e tendências marcadamente diferentes das desse criador.

Abraços,

Jessica Marquês.

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A prosa Trovadoresca

Como já sabemos o período em que o Trovadorismo expressa-se é marcado pela religiosidade, pelo cristianismo, pelo teocentrismo: o homem desse período é completamente dominado pelo medo do pecado, por isso está constantemente tentando agradar a Deus.

Desse modo, a Literatura Medieval Portuguesa evidencia um homem medieval que é simples, ingênuo e passivo, tendo em vista o seu contexto social, histórico e ideológico. Mesmo diante dessa conjuntura, esse sujeito da Era das trevas – como alguns chamam a Idade Média – consegue extrapolar os limites de sua literatura e romper com esse domínio. Assim temos a produção em prosa do período literária com produções de novelas de cavalaria e romances.

Quando consideramos o gênero literário quanto a sua forma, temos duas especificações; o texto em prosa e o texto em verso. Conforme apresentamos no artigo sobre tipologia textual, gêneros textuais e literários, o texto em verso é aquele formado por linhas poéticas e organizado em estrofes, enquanto o texto em prosa é apresentado na estrutura de parágrafos.

O grande destaque das produções do Trovadorismo é o texto em verso, com as poesias cantadas; as cantigas. Mas houve também algumas produções no estilo em prosa. Nessas produções existem dois grupos; o texto de não-ficção e o de ficção.

Nos textos de não-ficção nós temos as produções, os documentos que nos apresentam as mentalidade da época, extremamente apegada aos laços de sangue e também à religiosidade. Desse modo, nós temos as Hagiografias, ou seja, uma biografia extremamente elogiosa, são os relatos biográficos de figuras canonizadas, dos santos e seus milagres, tudo isso por conta da influencia clerical, associada à igreja.

Nós temos também como produção de não- ficção as crônicas ou cronicões em que se relatavam os acontecimentos históricos/sociais do século XIV, mas de uma forma romanceada. Esses cronicões representam o início da historiografia portuguesa.

E para fechar as produções de não- ficção do trovadorismo, nós temos os famosos livros de linhagem que apresentavam a genealogia das famílias nobres. De uma forma muito bem escrita, esses livros de linhagem são muito interessantes, pois não se limitam à enumeração das famílias nobres, mas tratam também de outros temas como batalhas e lendas.

Nas produções de ficção nós encontramos as novelas de cavalaria, ou seja, uma sequência narrativa constituída de uma sucessão de situações dramáticas todas com começo, meio e fim e encadeadas entre si. Essas novelas de cavalaria celebram acontecimentos históricos, trazidos principalmente da França e da Inglaterra. Nesses textos os trovadores, apresentavam histórias que envolviam o combate entre vilões e heróis, raptos de donzelas, geralmente com finais felizes.

A novela medieval mais popular gira em torno da lendária figura do rei Arthur e da procura pelo Santo Graal. Colocando em evidencia novamente o teocentrismo. É relevante destacar que tais novelas tinham, de certa forma, a função de induzir a sociedade daquele período a seguir certos códigos de conduta medieval e cavalheirescos.

Quando falamos em novelas medievais, precisamos entender que elas são agrupadas em ciclos, ou seja, o conjunto de novelas que giram em torno do mesmo assunto e movimentam as mesmas personagens. Estes ciclos manifestam-se dentro de uma determinada narrativa e de determinado lugar.

Os ciclos são:

1. Ciclo Bretão ou Arthuriniano (Grã-Bretanha): narra as aventuras do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda;

2. Carolíngio (francês): narra as aventuras de Carlos Magno e dos doze pares de França;

3. Clássico (Greco-latino): narra as histórias inspiradas em heróis gregos e romanos;

4. Amadis* (península ibérica) nele podemos encontrar a descrição do perfeito cavaleiro, destruidor de monstros, completamente apaixonado por uma donzela;

 

 

 

 

 

*No ano de 1605 inspirado nessa construção do cavaleiro perfeito, o espanhol Miguel de Cervantes escreveu Dom Quixote de la Mancha. Estudiosos afirmam que esta produção é uma versão melhorada e também ridicularizada das novelas de cavalaria.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

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Trovadorismo: contexto

As produções literárias do trovadorismo estão associadas às situações históricas e sociais do período, por isso, é interessante compreender os elementos do período medieval onde tais produções eclodiram. Diante disso, existem três características sociais que precisam ser levadas em consideração quando se fala em Trovadorismo, tais elementos nos estão presentes na maneira do artista encarar o mundo e, de certa forma, representá-lo em sua produção literária.

Contexto diretamente relacionado à produção literária:

Feudalismo: Sistema político-social em que o rei tinha total autonomia e era a autoridade absoluta, o modo de produção se baseava nas relações servis, pois era uma sociedade estamental, ou seja, dividida entre senhor ou suserano e servo ou vassalo. A prática mercantil principal era o cultivo da terra, exercido pelo vassalo. A igreja também era grande detentora de terra, sendo o clero outra classe social deste período.

Teocentrismo: Deus é o centro do universo, e o homem deve se dispor a ele e aos seus desejos, pois Deus é o responsável pelas regras sociais e pelos comportamentos individuais. O homem estava submetido à predestinação estabelecida por Deus que também definia os limites entre o bem e o mal.

Origem Provençal: Portugal possui relações estreitas com o sul da França, no que se refere à economia, religião, militarismo, cultura, dinastias. Como esta região passava por uma prosperidade econômica, desenvolveu uma cultura baseada na riqueza e  no requinte  provençal cujos portugueses sofreram influência.

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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Bula Manifestis Probatum, de 23 de Maio de 1179

Eis o documento que reconhece Don Afonso Henrique de Borgonha como rei de Portucalense:

ALEXANDRE, BISPO, SERVO DOS SERVOS DE DEUS, AO CARÍSSIMO FILHO EM CRISTO, AFONSO, ILUSTRE REI DOS PORTUGUESES, E A SEUS HERDEIROS, IN PERPETUUM.

Está claramente demonstrado que, como bom filho e príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente em porfiados trabalhos e proezas militares os inimigos do nome cristão e propagando diligentemente a fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendendo às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos príncipes cristãos. E para que mais te afervores em devoção e serviço ao príncipe dos apóstolos S. Pedro e à Santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico ministério. Continua, pois, a mostrar-te filho caríssimo, tão humilde e devotado à honra e serviço da tua mãe, a Santa Igreja Romana, e a ocupar-te em defender os seus interesses a dilatar a fé cristã de tal modo que esta Sé Apostólica possa alegrar-se de tão devoto e glorioso filho e não duvide da sua afeição. Para significar que o referido reino pertence a São Pedro, determinaste como testemunho de maior reverência pagar anualmente dois marcos de oiro a Nós e aos nossos sucessores. Cuidarás. por isso, de entregar tu e os teus sucessores, ao Arcebispo de Braga pro tempore, o censo que a Nós e a nossos sucessores pertence. Determinamos, portanto, que a nenhum homem seja lícito perturbar temerariamente a tua pessoa ou as dos teus herdeiros e bem assim o referido reino, nem tirar o que a este pertence ou, tirado, retê-lo, diminuí-lo ou fazer-lhe quaisquer imposições. Se de futuro qualquer pessoa eclesiástica ou secular intentar cientemente contra o que dispomos nesta nossa Constituição, e não apresentar satisfação condigna depois de segunda ou terceira advertência, seja privada da dignidade da sua honra e poder, saiba que tem de prestar contas a Deus por ter cometido uma iniquidade, não comungue do sacratíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo nosso divino Senhor e Redentor, e nem na hora da morte se lhe levante a pena. Com todos, porém, que respeitarem os direitos do mesmo reino e do seu rei, seja a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que neste mundo recolham o fruto das boas obras e junto do soberano juiz encontrem o prémio da eterna paz.

Amen. Amen.

Pedro. Paulo.

Alexandre Papa III

BENE VALETE

Senhor, ensina-me os teus caminhos.

Eu Alexandre, Bispo da Igreja Católica, subscrevi

Eu Ubaldo Bispo de Óstia SS

Eu Teodino Bispo do Porto e de Santa Rufina SS

Eu Pedro Bispo de Frascati SS

Eu Henrique Bispo de Albano SS

Eu Bernardo Bispo de Palestrina SS

Eu João Cardeal presbítero do título dos Santos João e Paulo e de Pamáquio SS

Eu João Cardeal presbítero do título de Santa Anastásia SS

Eu João Cardeal presbítero do título de S. Marcos SS

Eu Pedro Cardeal presbítero do título de Santa Susana SS>

Eu Viviano Cardeal presbítero do título de Santo Estêvão no Monte Celio SS

Eu Cíntio Cardeal presbítero do título de Santa Cecília SS

Eu Hugo Cardeal presbítero do título de S. Clemente SS

Eu Arduino Cardeal presbítero do título de Santa Cruz em Jerusalém SS

Eu Mateus Cardeal presbítero do título de S. Marcelo SS

Eu Jacinto Cardeal diácono do título de Santa Maria em Cosmedína SS

Eu Ardício Cardeal diácono do título de S. Teodoro SS

Eu LaboranaCardeal diácono do título de Santa Maria in Porticu SS

Eu Rainério Cardeal diácono do título de S. Jorge em Velabro SS

Eu Graciano Cardeal diácono do título dos Santos Cosme e Damião SS

Eu João Cardeal diácono do título de Santo Angelo SS

Eu Rainério Cardeal diácono do título de Santo Adriano SS

Eu Mateus Cardeal diácono do título de Santa Maria-a-Nova SS

Eu Bernardo Cardeal diácono do título de S. Nicolau in Carcere Tulliano SS

 

Dada em Latrão, por mão de Alberto, Cardeal presbítero e Chanceler da Santa Igreja Romana, a 10 das kalendas de Junho [23 de Maio], indicção XI, ano M.C.LXX.VIIII da Encarnação do Senhor e XX do Pontificado do Papa Alexandre III

 

Referência

“Bula «Manifestis Probatum» de 23 de Maio de 1179” in F. Rebelo Gonçalves, Portugal – Um Estado de Direito com oitocentos anos, Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa, 1981.

Até breve!

Jessica Marquês.

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Introdução ao Trovadorismo

Symphonia da Cantiga 160, Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio – Códice do Escorial. (1221-1284)

O surgimento do Trovadorismo compreende os séculos XII-XIV e se dá em meio à independência portuguesa. Em 1179, após uma batalha para tornar o condado Portucalense livre e autônomo sendo Afonso Henrique de Borgonha reconhecido pelo Papa  Alexandre III como rei, originando, assim, o Reino de Portucalense, também conhecido como Dinastia de Borgonha. Terminada a guerra contra os Mouros, surge um movimento social de paz, que engloba o nascimento do Trovadorismo.

O termo trovadorismo elucida a palavra francesa “trouver” que significa achar, que faz alusão à ideia de que os trovadores “achavam” as canções e saiam pelas ruas acompanhados de instrumentos como; alaúde, flauta, gaita, viola cantando e exercendo sua função social, já que os trovadores tinham extrema liberdade para abordar questões políticas, sociais e até mesmo religiosas.

Este período é marcado pela oralidade característica da tradição medieval e tem a poesia como anterior a prosa, pois o objetivo era produzir poesias cantadas, por isso cantigas que além dos instrumentos também tinha como acompanhamento um coro, as cantigas são ricas em paralelismos e compostas por refrões que facilitam a memorização da cantiga.

As cantigas são marcadas pela linguagem galego-português visto que não havia ainda uma autonomia do idioma português, só com o rei D. Dinis que a língua portuguesa se torna oficial.

O marco inicial para o Trovadorismo ocorre com Cantiga da Ribeirinha, também conhecida por Cantiga de Guarvaia, composta pelo trovador Paio Soares de Taveirós no ano de 1186 ou 1198. O término deste movimento literário se dá no fim da Dinastia de Borgonha em 1385 quando surge a Dinastia de Avis, após a revolução de Avis que declara o trono de Portugal a D. João I.

Cantiga da Ribeirinha


No mundo non me sei parelha
mentre me for como me vai,
ca ja moiro por vós e ai!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia.
Mao dia me levantei
que vos entom nom vi fea!

E, mia senhor, des aquelha
me foi a mi mui mal di’ai!
E vós, filha de Dom Paai
Moniz, e bem vos semelha
d’aver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d’alfaia
nunca de vós ouve nem ei
valia d’ua correa.

Glossário:

non me sei parelha: não conheço ninguém igual a mim.
mentre: enquanto.ca: pois.
branca e vermelha: a cor branca da pele, contrastando com o rosado do rosto.
retraia: pinte, retrate, descreva.
en saia: sem manto.
que: pois
dês: desde
semelha: parece
d’aver eu por vós: receber por seu intermédio.
guarvaia: manto luxuoso, provavelmente vermelho, usado pela nobreza.
alfaia: presente
valia d’un correa: objeto de pequeno valor.

Até a próxima!

Jessica Marquês.

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A certidão de nascimento do Brasil

Provas como o ENEM ou diversos vestibulares adoram abordar a carta de Pero Vaz de Caminha, tanto na prova de Literatura quanto na de História, pois este documento coloca em evidência elementos da Literatura que é chamada de viajantes ou de informação, tendo em vista sua intenção comunicativa de transmitir uma informações sobre aquela terra “descoberta” em 1500, sem se preocupar exclusivamente com as características estéticas de uma produção literária.

É claro que, tendo em vista o seu destinatário, o Rei de Portugal D. Manuel, existe todo um cuidado com a sua produção, com as escolhas das palavras, com a beleza de descrição, com a riqueza de detalhes…

Esses primeiros escritos que documentam a vida no Brasil são baseados em informações que viajantes e missionários reuniram a cerca da natureza e também dos nativos que lá viviam. Alfredo Bosi ressalta que “enquanto informação, não pertencem à categoria do literário, mas à pura crônica histórica” (BOSI; p.7, 1999) Por isso, muitos estudiosos omitem essa produção, entretanto ele defende que ela é necessária, pois:

A pré-história das nossas letras interessa como reflexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país. Graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte. (BOSI; pág. 4,1 999).

 Alfredo Bosi em seu estupendo livro “História concisa da Literatura Brasileira” afirma: “O que é para a nossa história significou uma autêntica certidão de nascimento, a Carta de Caminha à D. Manuel, dando notícia da terra achada, insere-se em um gênero copiosamente representado durante o século XV em Portugal e Espanha: a literatura de viagens. Espírito observador, ingenuidade (no sentido de um realismo sem pregas) e uma transparente ideologia mercantilista batizada pelo zelo missionário de uma cristandade ainda medieval.” (BOSI; p. 09, 1999)

Ainda de acordo com Alfredo Bosi, dos textos de origem portuguesa merecem destaque as seguintes produções dessa literatura de informação ou viajantes:

 

  • A Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel, referindo o descobrimento de uma nova terra e as primeiras impressões da natureza e do índio;
  • O Diário de Navegação de Pêro Lopes e Sousa escrivão do primeiro grupo colonizador, o de Martim Afonso de Sousa ( 153O );
  • O Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil de Pêro Magalhães Gândavo ( 1576 ) ;
  • A Narrativa Epistolar e os Tratados da Terra do Brasil do jesuíta Fernão Cardim
  • (15o3);
  • O Tratado Descritivo do Brasil de Gabriel Soares Sousa (1507);
  • Os Diálogos das Grandezas do Brasil de Ambrósio Fernandes
  • Brandão (1618);
  • As Cartas dos missionários jesuítas escritas nos dois meios séculos de catequese dos Gentios;
  • O Diálogo sobre a Conversão Pe. Manuel da Nóbrega; d Salvador (1627);
  • A História do Brasil de Frei Vicente.

A carta vai relatar a chagada dos portugueses a esta terra nova e apresentar as principais intenções e preocupações de Portugal sobre o Brasil; o acúmulo de riquezas a partir da exploração do nosso patrimônio e a catequização para a doutrina católica. Esses elementos são os que os concursos de avaliação dão destaque no que tange ao conteúdo da carta.

Como nota-se “A Carta” manifesta os anseios portugueses, etnocêntricos, que considerava a sua cultura superior, mais avançada, do que a dos índios ali encontrados, tanto que começaram a ensinar suas tradições religiosas, como beijar a cruz e se vestir adequadamente para ir a uma missa.  Além disso, é possível também identificar seus interesses econômicos, traduzindo, ou melhor, interpretando os códigos dos índios como demonstração de que possuíam riquezas e que as trocariam por materiais portugueses banais.

É fundamental ter conhecimento, desse modo, dos seguintes assuntos tratados na carta:

  • Acúmulo de riquezas;
  • As primeiras relações de escambo, ou das intenções de escambo;
  • As intenções de catequização para a doutrina católica;
  • O primeiro encontro com os indígenas;
  • A descrição da terra e do homem;
  • O estranhamento/ encantamento com a questão da nudez dos indígenas.

Observe alguns trechos da carta que confirmam essas características:

Armada de Pedro Álvares Cabral

“  Senhor,

posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vo
ntade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu….”

“… E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos E eles os depuseram…”

“… um de
les fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!…”

“…Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar!…”

 “… Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior — com respeito ao pudor. Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação. Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz…”

 

Referências:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

CAMINHA, Pero Vaz. A carta de achamento do Brasil.

OLIVIERI, Antonio Carlos & VILLA, Marco Antônio. Cronistas do Descobrimento.São Paulo: Ática, 1999.

Até mais!

Jessica Marquês.

 

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Linha do tempo das Escolas Literárias

A arte da palavra à qual é designada a Literatura pode ser expressa de diversas maneiras, a brincadeira com a palavra ou a robustez dela podem ser uma escolha da produção e, portanto, uma forma de manifestar, por meio dessa arte, as impressões do mundo que nos cerca.

Quando falamos do estudo da Literatura devemos considerar as suas produções inseridas num determinado contexto, e como tal, recheada de características específicas e olhares diferentes da sociedade. É claro que a arte não se influencia exclusivamente pelo meio no qual ela está inserida, ela pode quebrar as barreiras e criar novas formas de olhar e entender o mundo e a sua própria arte.

Desse modo, o estudo da literatura pode ser apresentado de inúmeras maneiras; no estilo de escrita, na história de vida do autor, nas escolhas lexicais, nas figuras de linguagem, na sonoridade, no ritmo, no estilo em prosa ou no estilo em verso… Entretanto, com o estudo das Escolas Literárias podemos considerar todos os elementos que permeiam uma produção literária acessando as informações e condições de produção de determinada obra.

A Literatura pode falar do seu tempo, de sua história, de sua sociedade, de sua linguagem, de seus indivíduos muito mais do que imaginamos. Por isso, é mais do que pertinente conhecermos a linha do tempo das Escolas literárias, a fim de conhecermos o TODO daquilo que concerne a Literatura Brasileira. É claro que se estamos falando de uma linha temporal, as escolas serão apenas apresentadas por uma visão mais geral. Mas não desanime! Aqui na Companhia Literária almejamos destrinchar cada uma dessas escolas e conhecê-las profundamente, vislumbrando seus aspectos históricos, sociais, linguísticos; seus principais autores e obras; e ainda peculiaridades de cada uma delas.

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Curiosidade canônica

A escritora Leyla Moisés em seu livro “Altas literaturas” fez uma apresentação dos 14 escritores mais estudados e elogiados pelos críticos literários, para isso ela destaca os seguintes escritores-críticos:

  1. Erza Pound;
  2. S. Eliot;
  3. Jorge Luis Borges;
  4. Octávio Paz;
  5. Italo Calvino;
  6. Michel Butor;
  7. Haroldo de Campos;
  8. Philippe Sollers.

Ela então elaborou os seguintes parâmetros para analisar e concluir quais eram os autores clássicos preferidos desses críticos:

  1. A existência de ensaio (livro ou artigo) dedicado exclusivamente a um autor;
  2. Referências elogiosas a um autor;
  3. Repercussão da obra de um autor na obra poética/ficcional de escritor-crítico;
  4. Traduções de um autor, feitas pelo escritor-crítico;

O resultado dos escritores prediletos dos críticos-literários preditos foi o seguinte:

7/8: sete dos oito escritores preferem estes autores 6/8: seis dos oito escritores preferem estes autores 5/8: cinco dos oito escritores preferem estes autores 4/8: quatro dos oito escritores preferem estes autores
Homero James Joyce Virgílio Franz Kafka
Dante John Domme Shakespeare
Voltaire Goethe
Mallarmé Dostoiévski
Erza Pound Henry James
Gustave Flaubert

 

 

Você já leu algum(s) livro de algum(s) desses autores?

Que tal fazer uma experiência?!

 

Referência:

MOISÉS, Leyla Perrone. Altas literaturas. Companhia das letras, 1998.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

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O que são Escolas Literárias?

Em nosso artigo sobre “O que é Literatura?” nós discutimos o fato de que a Literatura envolve o objeto social, na medida em que ela necessita ser desenvolvida e, eventualmente, lida num processo que permeia o diálogo entre os indivíduos inseridos numa determinada interação social. A Literatura está desse modo, condicionada a um processo de comunicação.

Assim, “a obra literária oferece uma oportunidade de o leitor se envolver numa experiência de reconstrução dos acontecimentos vividos pelas personagens.” (SILVA, citando Rosenblatt (In: JACOBUS, 1996: 141)). É claro que essas vivências das personagens estão impregnadas de elementos que permeiam o contexto histórico, social e ideológico no qual foram produzidos.

Por isso, quando estudamos a Literatura, consideramos um estudo dividido em Escolas Literárias, ou seja, um estudo realizado por meio de acontecimentos históricos de ruptura e de ressignificação literária e artística, tais escolas acompanham uma linearidade temporal, que apresentaram as condições para uma determinada produção.

As escolas literárias consideram o estudo da arte por meio da palavra, por meio das produções escritas, tais manifestações literárias possuem características específicas, assim como demais manifestações artísticas produzidas no mesmo período.

O estudo da literatura pode ser conduzido de diversas outras formas, centrando-se nos termos específicos de determinada obra, mas é pelo estudo das escolas literárias, que podemos ter acesso a informações que são externas e anteriores àquela produção.

Tendo em vista nossa história, quando falamos de escolas literárias da Literatura Brasileira, nós temos uma divisão em eras; a “era colonial” e a “era nacional”.

A “era colonial” diz respeito às produções artísticas que foram produzidas por portugueses tendo como temática/cenário/interesse o nosso país, ou por obras e autores que sofreram influência direta de Portugal. Pertencem a esta “era” as seguintes escolas literárias: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo.

A “era nacional”, por sua vez, representa a autonomia da produção brasileira. Essa “era” é marcada por inspirações e influências direta de outros países da cultura ocidental e da produção literária europeia. Mas, nesse período havia uma preocupação por parte dos escritores em criar uma expressão própria que retratasse as características culturais, sociais e linguísticas de nosso país. Pertencem a “era colonial” as seguintes escolas literárias: Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e Modernismo.

Ao analisar uma escola literária, são levados em consideração os contextos históricos, as principais obras e os principais autores, assim como; os estilos de produção literária. Estudar a literatura é vislumbrar a nossa história e a nossa arte!

Referências:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? Companhia das letras, 1994.~

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte:

Itatiaia, 1981, v.I.

SILVA, Ivanda Maria Martins. Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática escolar.  In: Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I, 2003.

 

Até breve!

Jessica Marquês.

 

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