Mulheres que correm com os lobos

Todos nós temos anseio pelo que é selvagem”, mas o que é ser selvagem? E por que temos este anseio? Estas são apenas uma das diversas respostas que terá com a leitura do livro Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. da escritora norte americana, Clarissa Pinkola Estés.

A questão não apenas são as respostas que se tem ao fazer uma leitura como esta, mas as perguntas que você ainda, por vezes, não tinha pensado. O reconhecimento de alguns sentimentos ou atitudes que, muitas vezes, julgamos ser negativas ou destrutivas em nossas vidas são apresentados de uma forma diferente. Esse livro é uma troca consigo mesma, em busca de um novo eu. Mas quando me refiro a este novo eu, não significa que haverá uma nova pessoa completamente diferente de si mesma após esta leitura, mas sim o reconhecimento de algumas verdades que, muitas vezes, escondem-se dentro de si. Tendo em vista que “Num único ser humano existem muitos outros seres, cada um com os seus próprios valores, motivos e mecanismos” (ESTES: pág. 53, 2014).

Sob o olhar literário e o seu poder de atingir o nosso ser, compreende-se que aquilo que enriquece grandemente esta obra é a apropriação de diversos contos milenares, que foram sendo passados de geração a geração na tentativa de preservar uma memória daquilo que cerca o interior feminino presente em tais histórias.

A autora desse livro vai construir uma personificação para tentar nos explicar, ou nos apresentar a psique do instinto natural sob o olhar da Psicanálise Junquiana, assim, ela cria a mulher selvagem. Com esta, a escritora vai contemplar aquilo que destrói, aniquila, desintegra, ou omite os instintos mais naturais da mulher. E com o propósito de resgatar esta mulher selvagem presente na vida de cada uma, a autora coloca-nos diante de diversos contos populares e realiza análises deles teorizando sua vinculação psicanalítica.

Tendo em vista o trabalho da escritora – psicanalista e guardiã de velhas histórias- o livro refletirá esta experiência nos desenrolar das páginas, oferecerá um aprendizado fecundo de contos e velhas histórias que cercam o imaginário feminino, e ainda proporcionará reflexões com alguns apontamentos teóricos, em determinadas circunstâncias, é quase um atendimento psicanalítico, sem sair de casa.

Não se pode negar que ainda vivemos numa sociedade machista e patriarcal. É fato que muita coisa mudou dado algumas práticas passadas, mas ainda há muito o que desbravar.  Esta luta contra a inferiorização da mulher vai além dos debates, das passeatas, das discussões na internet ou fora dela, dentre outras… É uma batalha diária, contra os pequenos detalhes presentes em nosso dia a dia. Diante disso, conhecer e refletir sobre diversos contos que evocam a ancestralidade feminina, só reforça a nossa autoconfiança e a nossa luta pela valorização dos diversos sujeitos sociais que exercemos.

O título do livro demarca algumas características e semelhanças entre a mulher selvagem em seu estado saudável e a rotina e estrutura dos lobos, a autora optou por esta analogia, tendo em vista o seu estudo aprofundado da biologia de diversos animais selvagens. As criaturas disfarçadas às quais as mulheres se submente e que, muitas vezes, deixamos se moldar pelas exigências sociais ou privadas são colocadas à mostra.

Essencialmente, a obra vai girar em torno destas reflexões do arquétipo da mulher selvagem, pois a Clarissa vai relatar alguns contos com a intenção de elucidar a natureza instintiva da mulher. Os contos populares descritos no livro vieram de um estudo de vida da autora, que buscou dos artistas da alma ao longo de anos por meio de sua própria tradição familiar ou de sua caminhada por vários cantos do planeta.

A formação acadêmica da Clarrissa gira em torno de um estudo da psicanálise que evidencia o “Leitmotive” – rede de motivos.  Mas tendo em vista a sua descendência, a autora relata as histórias no papel de contadora, de guardiã das histórias ancestrais, pois ele entende “o poder das histórias em colocar em movimento a vida interior” (ÉSTES: pág. 31, 2014). Desse modo, ela faz um convite para uma busca mais profunda nesta caminhada de encontro à mulher selvagem, tendo em vista a sua afirmação “Sem nós, a mulher selvagem morre. Sem a mulher selvagem, quem morre somos nós. Pela vida, pela verdadeira vida, ambas devem coexistir” (ESTES: pág. 35, 2014).

É fato que dada a apropriação teórica e aplicação desta ao apresentar os posicionamentos da autora e suas análises dos contos elencados, a leitura, em muitos momentos torna-se cansativa. Por isso, é aconselhável que a faça por etapas, deixe o livro próximo e vá avançando progressivamente e lentamente, sem se preocupar com o momento em que irá terminar a leitura. É uma obra de reflexões e analogias, uma evolução calma e gradativa será, portanto, mais proveitosa.

A possibilidade de realizar trocas de experiências com outras pessoas que estão desfrutando dessa leitura é uma estratégia interessante, com certeza, muitas histórias não terão relação direta com alguns fatores de sua vida, pois se trata de uma larga amostragem da forma como, muitas vezes, a mulher foi ou é tratada. Por isso, utilize os contos com a possibilidade de refletir sobre as diversas manifestações artísticas da construção do imaginário feminino. Entretanto, muitos contos vão te levar a uma reflexão profunda sobre si mesma, e sobre a sociedade que a cerca, é uma leitura enriquecedora.

Não posso negar que em diversos momentos da leitura não concordei com as análises da autora acerca de algumas afirmações que ela veiculava dado certo ponto de determinada narrativa, acreditava que talvez fosse possível uma interpretação diferente. Por isso, liberte-se das interpretações, vá com uma mente livre e aberta para realizar esta leitura e não se prenda exclusivamente ao que a autora defende ou a uma única visão das coisas, devemos nos lembrar de que ela está vinculada a uma determinada forma de interpretar as situações, tendo em vista seu estudo, o que não quer dizer também que ela está errada ou talvez, certa. Seja livre para refletir ou (não) aceitar aquilo que se apresenta. Assim como você deve ser livre para enxergar as situações de sua vida, e aquilo que deseja (ou não) mudar.

Com certeza posso afirmar que é o tipo de leitura que vale a pena, por dois fatores macros, o conhecimento de uma diversidade de contos acerca do universo feminino e ainda a promoção para uma reflexão de quem somos e de quem podemos ser. Para uma busca incessante de nós mesmos, é fato que este exercício de se olhar (profunda e verdadeiramente) não é tarefa fácil e necessita, portanto, de recursos que nos auxiliem. Este livro pode ser um deles.

Referência:

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Barcarena: Marcador, 2016.

Boa leitura!

Jessica Marquês.


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Curiosidade canônica

A escritora Leyla Moisés em seu livro “Altas literaturas” fez uma apresentação dos 14 escritores mais estudados e elogiados pelos críticos literários, para isso ela destaca os seguintes escritores-críticos:

  1. Erza Pound;
  2. S. Eliot;
  3. Jorge Luis Borges;
  4. Octávio Paz;
  5. Italo Calvino;
  6. Michel Butor;
  7. Haroldo de Campos;
  8. Philippe Sollers.

Ela então elaborou os seguintes parâmetros para analisar e concluir quais eram os autores clássicos preferidos desses críticos:

  1. A existência de ensaio (livro ou artigo) dedicado exclusivamente a um autor;
  2. Referências elogiosas a um autor;
  3. Repercussão da obra de um autor na obra poética/ficcional de escritor-crítico;
  4. Traduções de um autor, feitas pelo escritor-crítico;

O resultado dos escritores prediletos dos críticos-literários preditos foi o seguinte:

7/8: sete dos oito escritores preferem estes autores 6/8: seis dos oito escritores preferem estes autores 5/8: cinco dos oito escritores preferem estes autores 4/8: quatro dos oito escritores preferem estes autores
Homero James Joyce Virgílio Franz Kafka
Dante John Domme Shakespeare
Voltaire Goethe
Mallarmé Dostoiévski
Erza Pound Henry James
Gustave Flaubert

 

 

Você já leu algum(s) livro de algum(s) desses autores?

Que tal fazer uma experiência?!

 

Referência:

MOISÉS, Leyla Perrone. Altas literaturas. Companhia das letras, 1998.

 

Abraços,

Jessica Marquês.

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O que são Escolas Literárias?

Em nosso artigo sobre “O que é Literatura?” nós discutimos o fato de que a Literatura envolve o objeto social, na medida em que ela necessita ser desenvolvida e, eventualmente, lida num processo que permeia o diálogo entre os indivíduos inseridos numa determinada interação social. A Literatura está desse modo, condicionada a um processo de comunicação.

Assim, “a obra literária oferece uma oportunidade de o leitor se envolver numa experiência de reconstrução dos acontecimentos vividos pelas personagens.” (SILVA, citando Rosenblatt (In: JACOBUS, 1996: 141)). É claro que essas vivências das personagens estão impregnadas de elementos que permeiam o contexto histórico, social e ideológico no qual foram produzidos.

Por isso, quando estudamos a Literatura, consideramos um estudo dividido em Escolas Literárias, ou seja, um estudo realizado por meio de acontecimentos históricos de ruptura e de ressignificação literária e artística, tais escolas acompanham uma linearidade temporal, que apresentaram as condições para uma determinada produção.

As escolas literárias consideram o estudo da arte por meio da palavra, por meio das produções escritas, tais manifestações literárias possuem características específicas, assim como demais manifestações artísticas produzidas no mesmo período.

O estudo da literatura pode ser conduzido de diversas outras formas, centrando-se nos termos específicos de determinada obra, mas é pelo estudo das escolas literárias, que podemos ter acesso a informações que são externas e anteriores àquela produção.

Tendo em vista nossa história, quando falamos de escolas literárias da Literatura Brasileira, nós temos uma divisão em eras; a “era colonial” e a “era nacional”.

A “era colonial” diz respeito às produções artísticas que foram produzidas por portugueses tendo como temática/cenário/interesse o nosso país, ou por obras e autores que sofreram influência direta de Portugal. Pertencem a esta “era” as seguintes escolas literárias: Quinhentismo, Barroco e Arcadismo.

A “era nacional”, por sua vez, representa a autonomia da produção brasileira. Essa “era” é marcada por inspirações e influências direta de outros países da cultura ocidental e da produção literária europeia. Mas, nesse período havia uma preocupação por parte dos escritores em criar uma expressão própria que retratasse as características culturais, sociais e linguísticas de nosso país. Pertencem a “era colonial” as seguintes escolas literárias: Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e Modernismo.

Ao analisar uma escola literária, são levados em consideração os contextos históricos, as principais obras e os principais autores, assim como; os estilos de produção literária. Estudar a literatura é vislumbrar a nossa história e a nossa arte!

Referências:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36ª ed. São Paulo: Cultrix, 1999.

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? Companhia das letras, 1994.~

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 6ª ed. Belo Horizonte:

Itatiaia, 1981, v.I.

SILVA, Ivanda Maria Martins. Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática escolar.  In: Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I, 2003.

 

Até breve!

Jessica Marquês.

 

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Precisamos falar sobre cânones literários!!!

Ao se tomar conhecimento das principais obras que influenciaram determinado período literário nos deparamos com os cânones literários, ou seja, aqueles livros que são mais valorizados e pertencem especificamente a uma respectiva escola literária.

É válido sabermos que Cânone é uma palavra que tem origem grega; Kanón, como se fosse uma vara para realizar medições. Na nossa língua o termo significa regra geral, modelo, norma, preceito. Então, quando nos referimos às obras canônicas, significa que estamos considerando as obras-modelo, o conjunto de livros que são estimados no âmbito da literatura.

É pertinente refletirmos sobre as considerações de GUMBRECHT sobre o termo canônico.

Um conceito metahistórico de cânone teria a função de estabelecer parâmetros os quais seriam capazes de atuar independentemente de condicionantes históricos, de forma a poder-se traçar uma história do cânone sem haver variação nos padrões orientadores da seleção e da valoração. O cânone poderia, assim, servir como uma categoria capaz de caracterizar a cultura, a despeito da transformação que lhe é inerente. (1998, p. 61).

Com relação ao termo clássico – usado por alguns autores como sinônimo de cânone e por outros de forma diferenciada. Ele apareceu pela primeira vez na obra de Aulo Gélio, Noctes Aticae, e foi empregado como o objetivo de classificar os cidadãos conforme a sua fortuna, Os considerados de primeira classe, eram chamados de clássicos. No que concerne à literatura, portanto, os clássicos são as obras de primeira classe.

De acordo com Harold Bloom (1995), “Quem lê tem de escolher, pois não há, literalmente, tempo suficiente para ler tudo, mesmo que não se faça mais nada, além disso.” (1995, p. 23). Mas como fazer esta escolha? Para auxiliar nessa decisão existem os escritores-críticos que, como você deve imaginar. São responsáveis por realizar a crítica, ou seja, o julgamento positivo ou negativo sobre determinado autor/obra.

Assim como, por exemplo, os críticos gastronômicos que acabam por expor/determinar os melhores restaurantes/chefes de cozinha e, de certo modo, orientam os consumidores, nós temos os críticos literários que exercem esta função de nortear aqueles que desejam se embrenhar pelos meandros da escrita bem elaborada.

É claro que não somos obrigados a ler os cânones literários, mas a pergunta é… Por que não? Porque são chatos! Muitos podem dizer… Mas o interessante é que como se pode realizar esta afirmação sem de fato conhecer a obra, ou os contextos de produção, muitos se esquecem de que aquilo que hoje – depois de profundos estudos, análises e críticas- é considerado um cânone literário, em outro momento da história pode não ter sido compreendido ou valorizado tal como o é hoje.

O importante é quebrarmos nossos preconceitos, passarmos a encarar o livro como uma experiência de vida, e nos deixarmos mais abertos, para que os livros sejam verdadeiras possibilidades de enxergar o mundo que nos cerca. Como afirma Silva (1998,pág.56) “em certo sentido, a leitura de textos se coloca como uma ‘janela para o mundo’. Por isso mesmo, é importante que essa janela fique sempre aberta, possibilitando desafios cada vez maiores para a compreensão e decisão do leitor”.

 É fato que existe todo tipo de escrita literária e que, por sua vez, podem promover experiências diferentes. Cabe a nós decidir que tipo de experiência pretendemos ter, talvez uma mais superficial e rasa ou outra mais profunda e envolvente? Bem, você é livre para escolher! Mas não se esqueça! Não será possível ler tudo, infelizmente! Então, escolha com sabedoria!

Referências:

ARAUJO, Daniel, open cite_ GUMBRECHT, Hans Ulrich. un concepto metahistórico del canon como categoría básica para una tipología histórica de la cultura (, 1998a, p. 61).

BLOM, Harold. O cânone ocidental– 2ª edição. Objetiva, 1995.

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? Companhia das letras, 1994.

MOISÉS, Leyla Perrone. Altas literaturas. Companhia das letras, 1998.

SILVA, Ivanda Maria Martins. Literatura em sala de aula: da teoria literária à prática escolar.  In: Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I, 2003.

 

Até mais tarde!

Jessica Marquês.

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Decodificar, Ler e Interpretar

Quando paramos para refletir sobre o ato de ler, precisamos considerar que existe uma relação estrita entre os códigos e as linguagens, pois a linguagem elucida imagens e signos que remetem os significados das palavras e das coisas. A língua portuguesa, a literatura e as artes de modo geral são competências que permitem a leitura e a identificação dos signos, daí a importância de apreender a norma padrão e conhecer as variedades linguísticas, para poder ler de maneira completa e definitiva.

Diante disso, é importante compreender o ato de ler e a forma como acontece esse processo, em primeira instância existe uma determinação que é adotada como o passo inicial para a leitura, esse momento é conhecido como decodificação, ou seja, a quebra do código linguístico. É aquele primeiro processo que se aprende na pré-escola em que CA+SA = CASA ou a imagem que temos de casa.  A decodificação se dá, portanto, da simples identificação do signo linguístico. É uma leitura limitada que deve estar presente apenas no processo de aprendizagem inicial. Caso contrário, o leitor será apenas funcional!*

Quando se aborda a especificação da leitura é relevante compreendermos que essa acontece quando se é capaz de transmitir uma informação. Se houve realmente um avanço, ou seja, se o leitor ou leitora saiu do campo da decodificação para de fato realizar uma leitura, ele ou ela tem de ser capaz de falar acerca do assunto abordado no texto.

A leitura depende de textos verbais – em que há o envolvimento de palavras – ou não verbais – que não abarca palavras e sim outras formas de significação, tais como: imagens, sons, cores, dentre outros. Para uma leitura mais completa é necessário ainda promover uma análise do texto (a palavra análise vem do grego e significa quebra, ou seja, é necessário entender o sentido que os signos linguísticos, as palavras produzem). Desse modo, temos a distinção entre os termos conotativo e denotativo que exercem função importante na construção de sentidos:

Conotativo: Refere-se ao sentido figurado de uma palavra. Por exemplo: Mathias é fera em matemática. Lembre-se! “C” de criação, o enunciador cria novos significados para aquela palavra.

Denotativo: Trata as palavras a partir de sentidos e significados coincidentes, ou seja, aqueles atrelados diretamente ao termo compartilhado no dicionário. Por exemplo: O leão é uma fera que pode ser encontrada África Subsaariana e na Ásia. Lembre-se! “D” de dicionário, a palavra em seu sentido real.

Os termos em destaques são distintos em seus sentidos e nas colocações das frases, porque aludem a ideias diferentes. Um menino ser fera em matemática, não quer dizer que ele é um animal selvagem como o leão, mas que ele é bom em matemática. É possível afirmar que os contratos sociais da linguagem são importantes para a identificação dos sentidos. Para uma boa leitura é importante identificar essas diferenças nos textos e compreender as significações e as relações entre os termos.

Tendo essas noções bem estabelecidas, cabe diferenciar o termo compreensão e interpretação a fim de trabalhar melhor a capacitação linguística dos leitores. Cabe esclarecer, desse modo, que o termo compreensão visa uma análise superficial e direta. E a interpretação, por sua vez, envolve em sua análise um aprofundamento relevante que depende de conhecimento formal e vivencial.

 Dentro dessa conjuntura, distinguisse dois tipos de interpretação; a literal – que abarca o campo das ideias textuais, que está preso ao texto, que faz leituras “ao pé da letra”- e a crítica, que acontece com a transmissão do texto para a realidade, ligando as construções de significados com o ambiente histórico, social e ideológico no qual está inserido.

Não se pode confundir essa ação com julgamento, pois criticar envolve juízo de fato, ou seja, fatos comprovados e analisados cuidadosamente. Diferente do juízo de valor, que se refere à opinião dos sujeitos, não passando por um ambiente de pesquisa e constatação, sendo, portanto, encarado como julgamento, esse tipo de prática deve ser evitada em processos de leitura e análise interpretativa.

 De acordo com Paulo Freire (1989: 49) “ato de ler […] implica sempre percepção crítica, interpretação e ´reescrita` do lido”.  Por isso, é válido ressaltarmos, que quando alguém se prepara para uma prova de interpretação de textos e consequentemente a utilização da gramática normativa é necessário se ater; a relações de ideias, a noção de lógica e a solução de problemas, promovendo, assim, uma extensão interpretativa da prova, preocupando-se com as informações explícitas, implícitas e subentendidas.

*Falaremos mais sobre esse assunto em outros artigos aqui na Companhia Literária!

Referências:

BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa. 2ª ed. Nova fronteira, 2010.

CUNHA, Celso. Nova gramática do português contemporâneo. 3ªed. Nova fronteira, 2001.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 23ªed. Cortez,1989.

 

Até mais!

Jessica Marquês.

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Entenda um pouco mais o termo “antissemita”

Quando tomamos conhecimento das atrocidades da Segunda Guerra, e especificamente naquelas direcionadas ao povo judeu, nós entramos em contato com um termo que representa aqueles que manifestam o seu ódio para com este povo.

As ações antissemitas são aquelas direcionadas para manifestar o ódio, a intolerância e o preconceito para as pessoas que são judias, ao longo da história houve diversos momentos em que os judeus foram hostilizados ou se tornaram vítimas de inúmeras formas de violência. “O diário de Anne Frank” nos apresenta uma história ambientada no contexto do holocausto, em que seis milhões de judeus tiveram suas vidas destruídas.

É válido notar que este termo foi alcunhado no ano de 1879 (anterior ao Holocausto) pelo jornalista antissemita alemão Wilhelm Marr, ao referir-se ao povo judeu com ódio, e também ao responsabilizá-los por diversas tendências políticas do século XVIII e XIX.

Sendo usado pela maioria das vezes para se referir a qualquer ação racista, preconceituosa ou de ódio para os judeus, este termo contempla também outros povos, pois de acordo com a etimologia “semita” é aquilo relativo ao grupo étnico e linguístico ao qual se atribui Sem como ancestral, e que compreende os hebreus, os assírios, os aramaicos, os fenícios e os árabes, ou membro desse grupo.

A palavra semita tem origem hebraica, “Shem” transliterada para o português “Sem”, ela faz referência ao primogênito de Noé. Desse modo, os semitas são todos os descendentes de “Sem”.

Observação linguística!

A palavra antissemita, antes da reforma do acordo ortográfico, utilizava o hífen para fazer a união do prefixo “anti” com a palavra principal “semita”. Escrevia-se, portanto, desta forma:”anti-semita/ anti-semitismo”. A nova regra que estamos seguindo, afirma o seguinte:

Se o prefixo termina com vogal e a palavra seguinte, inicia-se com “r” ou “s”, ao invés de se utilizar o hífen, dobra-se tanto o “r” quanto o “s”, veja alguns exemplos:

                                          Antiga ortografia                                                                       Nova ortografia

anti-rábico antirrábico
anti-racional antirracional
anti-racionalismo antirracionalismo
anti-racionalista antirracionalista
anti-racismo antirracismo
anti-racista antirracista
anti-raquítico antirraquítico
anti-real antirreal
anti-realismo antirrealismo
anti-realista antirrealista
anti-reflexo antirreflexo
anti-reformismo antirreformismo
anti-reformista antirreformista
anti-regiões antirregiões
anti-regionalista antirregionalista
anti-regionalização antirregionalização
anti-regulamentar antirregulamentar
anti-religioso antirreligioso
anti-republicana antirrepublicana
anti-republicanismo antirrepublicanismo
anti-republicano antirrepublicano
anti-ressonância antirressonância
anti-reumático antirreumático
anti-reumatismal antirreumatismal
anti-revisionismo antirrevisionismo
anti-revisionista antirrevisionista
anti-revolução antirrevolução
anti-revolucionária antirrevolucionária
anti-revolucionário antirrevolucionário
anti-roubo antirroubo
anti-rugas antirrugas
anti-salazarista antissalazarista
anti-sátira antissátira
anti-semita antissemita
anti-semítico antissemítico
anti-semitismo antissemitismo
anti-sepsia antissepsia
anti-sepsiador antissepsiador
anti-sepsiar antissepsiar
anti-séptico antisséptico
anti-sezonático antissezonático
anti-sialagogo antissialagogo
anti-siálico antissiálico
anti-sida antissida
anti-sifilítico antissifilítico
anti-sigma antissigma
anti-simbólico antissimbólico
anti-sinodal antissinodal
anti-sísmico antissísmico
anti-sistema antissistema
anti-social antissocial
anti-socialismo antissocialismo
anti-socialista antissocialista
anti-sociável antissociável
anti-sofista antissofista
anti-soro antissoro
anti-soviético antissoviético
anti-submarino antissubmarino
anti-subversão antissubversão
anti-sudoral antissudoral
anti-sudorífico antissudorífico

 

Referências:

http://www.portaldalinguaportuguesa.org/novoacordo.php/ acessado em 01/02/2017 às 12h25.

FRANK, Anne. O Diário de Anne Frank –  editado por Otto Frank e Mirjam Pressler. Record, 2014.

HOUAISS. Instituto Antônio. Dicionário Houaiss. Objetiva, 2014.

http://www.historialivre.com/antiga/salasemitas.htm acessado em 01/02/2017 às 12h42.

 

Até breve!

Jessica Marquês.

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O diário de Anne Frank

O Diário de Anne Frank até hoje é um dos mais lidos, mesmo depois de tantos anos. De acordo com o portal “Publishnews” ele ficou em 16º lugar na lista dos livros mais vendidos do Brasil em 2016. Foi publicado pela primeira vez no ano de 1947, entretanto, não foi apresentado na íntegra, o seu pai Otto Frank (único sobrevivente das oito pessoas que conviveram durante pouco mais de dois anos no esconderijo intitulado por eles mesmos de anexo secreto) realizou uma edição da obra, omitindo algumas passagens da filha.

Ele afirma que tomou essa decisão na tentativa de preservar/proteger a memória daqueles integrantes do anexo secreto que haviam perdido suas vidas no holocausto, tendo em vista que a Anne Frank, como qualquer adolescente em posse de um diário, descrevia aquilo que sentia, e, portanto, alguns desgostos da vida no que concerne ao relacionamento entre os demais integrantes do anexo.

Não é difícil conceber as situações complicadas pelas quais aqueles que estavam escondidos teriam passado. Imagine-se confinado num espaço muito limitado, convivendo com pessoas de personalidade forte e divergente, racionando todos os mínimos itens necessários à sobrevivência, além do estresse de estar sob ameaça constante de a qualquer momento ser delatado ou encontrado pela Gestapo.*

Muitas vezes, quando pensamos em guerra, sejam as do passado ou do presente, pensamos de uma forma macro, contabilizam-se os seis milhões de judeus que tiveram suas vidas ceifadas. É um número assustadoramente imenso, mas se olhássemos para esse número e refletíssemos na vida de cada um, no sofrimento de cada um, na terrível transformação que as pessoas no contexto de guerra sofreram (e sofrem) percebemos que este número não reflete nem uma parte do que a guerra significou(a) para aquelas que a vivenciaram(vivenciam), percebemos o quanto estas guerras foram(são) muito mais terríveis. É necessário deixar claro que não estamos falando de números, e sim de pessoas!

O Diário de Anne Frank nos proporciona essa visão, digamos “micro”, pois podemos acompanhar dois anos da rotina daquela jovem em situações tão adversas. Podemos de perto, conhecer um pouco dos seus sonhos, anseios, crenças, vivências, frustações e, principalmente, esperanças. É como se parássemos de olhar o grande quadro e nos aproximássemos de uma pequenina parte dessa tela da guerra.

Eu convido você a olhar a jovem Anne Frank – um pixel minúsculo neste painel – a olhar esta escritora, individualmente e conhecê-la profundamente. Se você assim o fizer, vai perceber o quanto o livro vai lhe contar muito mais do que a rotina de uma adolescente num ambiente completamente difícil. Você vai perceber que ao olhar para este pequeno pedaço da história, ao olhar a pessoa Anne Frank, encontrará uma representação de tantas(os) jovens que sofreram(sofrem) diariamente com as atrocidades da intolerância, do preconceito e da guerra.

As inúmeras reflexões que a jovem apresenta em suas imaculadas páginas sobre si mesma, a sua tentativa constante de ser uma pessoa melhor: “Durmo com a sensação estranha de que quero ser diferente do que sou, ou de que sou diferente do que quero ser, ou talvez de me comportar diferente do que sou ou do que quero ser” (O diário de Anne Frank, 28/11/1942). Ademais, reflete também sobre a promoção do seu autoconhecimento, o feixe de contradições, como ela mesma se descreve, pode ser entendida, nada mais, nada menos como a apresentação de um ser humano complexo e verdadeiro, e como tal, a Anne apresenta-nos essa característica da humanidade de viver a partir daquilo que sente.

Há dias em que a escritora do diário consegue vislumbrar e contemplar, por exemplo, a primavera a partir da pequena janela do anexo secreto. E mesmo podendo vê-la apenas por meio daquela fresta, ela evidencia a beleza presente ali, apesar de todas as adversidades, ela consegue contemplar a beleza da vida. Naturalmente, em outros dias, ela está deprimida, esforçando-se ao máximo para não se comunicar com os demais membros, na tentativa vã de evitar conflitos.

Ao nos relatar, por exemplo, o envolvimento com as leituras que tanto ela e os demais integrantes do anexo secreto realizam, temos a possibilidade de perceber a importância da leitura “As pessoas comuns não sabem quanto os livros significam para alguém escondido” (O diário de Anne Frank, 11/07/1943). Esta leitora ávida que é a Anne Frank revela-se também como excelente escritora, em algumas páginas de seu diário podemos conhecer algumas narrativas ficcionais em que a jovem dedicava-se. Além disso, ela nos apresenta pontos de vista e opinião formada concernente ao período em que ela estava inserida, como a posição na mulher na sociedade, por exemplo.

Como foi predito, o diário de Anne Frank foi editado, mas antes mesmo de seu pai realizar esta versão, a própria Anne Frank realizou uma reedição de seu respectivo diário, Isso acontece porque a jovem almejava ser escritora e pretendia utilizar as memórias ali descritas para ter uma base ao elaborar a sua história.

Esse plano foi iniciado quando ela ouviu no rádio o senhor Gerrit Bolkestein – membro do governo Holandês exilado- anunciar que pretendia, ao final da guerra, recolher registros da memória oral dos Holandeses, cartas ou diários, para demarcar o sofrimento que o povo estava sendo subjugado. Depois que a Anne Frank ouviu essa declaração ela decidiu revisitar o seu diário (que já tinha sido iniciado desde o seu aniversário de treze anos, 12 de junho de 1942) para acrescentar algumas memórias ou retirar algumas que talvez, de acordo com ela, não fossem tão interessantes para a produção do livro.

Diante desse pressuposto, existem três versões do Diário da Anne Frank ; versão A: sem cortes; versão B: com alterações da própria Anne Frank; versão C: feita por Otto, pai de Anne, uma versão mais concisa- 1ª publicação:1947. Ademais, o Instituto Estatal Holandês para Documentação de Guerra, em Amsterdã recebeu os manuscritos em 1980, depois de morte de Otto Frank, houve, portanto, uma profunda investigação; depois de ser considerado autêntico, publicou-se o diário com as três versões no livro intitulado “The critical Edition”, nele há ainda, o resultado da exaustiva pesquisa como: artigos sobre o passado da família Frank, as circunstâncias relativas à prisão e deportação, o exame de caligrafia de Anne, do próprio documento e materiais usados.

Este livro vai levá-lo a refletir não só sobre o sofrimento que a guerra causa, mas com esta leitura, você vai perceber o quanto a vida que nos cerca precisa ser mais valorizada, contemplada e respeitada, pois nossos dias precisam ser mais cheios de consistências. Infelizmente, nos dias de hoje, tudo parece ser tão superficial e frágil, sem vida.

*Abreviação de Geheime Staatspolizei, era a Polícia secreta do estado Nazista.

 

Referências:

FRANK, Anne. O Diário de Anne Frank –  editado por Otto Frank e Mirjam Pressler. Record, 2014.

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