Cantiga de amor – Trovadorismo

A essa altura já sabe que quando falamos em produção literária no Trovadorismo, a sua principal marca são as cantigas que são divididas em dois gêneros literários. No artigo de hoje falaremos sobre as cantigas de amor, mas antes disso é fundamental compreendermos o que vem a ser o gênero lírico, pois tanto a cantiga de amor quanto a de amigo estão inseridas nesse gênero literários, conforme apresentado no quadro abaixo:

Gênero lírico Gênero satírico
Cantigas de amor Cantigas de escárnio
Cantigas de amigo Cantigas de maldizer

 

Gênero lírico

O gênero lírico consite na manifestção do “eu”, ou seja, os sentimentos pessoais são descritos, tais como; a angústia, a emoção e os estados da alma, por isso é o gênero mais subjetivo. O nome lírico vem da palavra lira, instrumento musical que acompanha os cantos gregos, ressaltando que por vários anos os poemas eram cantados. Dentre as várias formas de poemas, encontra-se:

  • Ode: poesia de exaltação.
  • Hino: poesia de gloricação da pátria o ude deuses.
  • Elegia: poesia com temáticas tristes (morte, fatos tristes).
  • Edílio e écloga: poesia pastoris e bucolícas.
  • Sátira: poesia crítica.

Tendo em vista que essas produções eram baseadas numa cultura de oralidade tão comum na Era Medieval as cantigas eram poesias produzidas para serem cantadas sob o acompanhamento de instrumentos musicais e também de um coro. Elas eram sempre escritas por homens, mas o eu lírico muitas vezes mudava.  Cada tipo de cantiga possui objetivos e características específicos. Observe estes elementos nas cantigas de amor.

  • Composição masculina;
  • Eu lírico masculino;
  • Ambiente palaciano (corte);
  • Amor idealizado (a mulher é um ser idealizado, superior, o eu lírico é servo da mulher amada);
  • Composições que projetam a vida na corte;
  • Visão subjetiva do amor (apresenta o sofrimento amoroso).

Um dos principais compositores de cantigas de amor foi o rei trovador D. Diniz, lembrando que estas cantigas eram produzidas no idioma galego-português. Eis uma de suas composições.

Canção de amor

D. Diniz

Quer’eu em maneira de proença!

fazer agora um cantar d’amor

e querrei muit’i loar lmia senhor

a que prez nem fremosura nom fal,

nem bondade; e mais vos direi ém:

tanto a fez Deus comprida de bem

que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quizo Deus fazer tal,

quando a faz, que a fez sabedord

e todo bem e de mui gram valor,

e com tod’est[o] é mui comunal

ali u deve; er deu-lhi bom sém,

e desi nom lhi fez pouco de bem

quando nom quis lh’outra

foss’igual

Ca mia senhor nunca Deus pôs mal,

mais pôs i prez e beldad’e loor

e falar mui bem, e riir melhor

que outra molher; desi é leal

muit’, e por esto nom sei oj’eu quem

possa compridamente no seu bem

falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.

Tradução:

 Quero à moda provençal

fazer agora um cantar de amor,

e quererei muito aí louvar minha senhora

a quem honra nem formosura não faltam

nem bondade; e mais vos direi sobre ela:

Deus a fez tão cheia de qualidades

que ela mais que todas do mundo.

Pois Deus quis fazer minha senhora de tal modo

quando a fez, que a fez conhecedora

e todo bem e de muito grande valor,

e além de tudo isto é muito sociável

quando deve; também deu-lhe bom senso,

e desde então lhe fez pouco bem

impedindo que nenhuma outra fosse igual a ela

Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal,

mas pôs nela honra e beleza e mérito

e capacidade de falar bem, e de rir melhor

que outra mulher também é muito leal

e por isto não sei hoje quem

possa cabalmente falar no seu próprio bem

pois não há outro bem, para além do seu.

 

 

Nota geral:

“ Cantiga de amor que D. Dinis pretende fazer “à maneira provençal”, o que se traduz num louvor superlativo à sua senhora: a mais formosa, a mais bondosa, a que tem maiores qualidades, a mais nobre, mas também a que sabe ser simples quando convém, a mais sensata, a que sabe falar bem e rir melhor, a mais leal…

Trata-se de uma das mais conhecidas cantigas de amor de D. Dinis, uma composição que não só confirma o seu o perfeito conhecimento lírica provençal, mas também a consciência que tinha de ser “a maneira provençal” a matriz do género galego-português a que pertence esta composição, a cantiga de amor,

Acrescente-se que, formalmente, a cantiga segue igualmente o modelo provençal, sendo de mestria, com estrofes uníssonas e ainda com inclusão de palavra-rima.” *

 

Existem vários cantores e grupos musicais que se dedicam a fazer interpretações dessas cantigas medievais ou ainda apresentar uma releitura, desenvolvendo assim, uma recriação moderna de tais composições. É possível encontrar algumas dessas interpretações no Youtube, mas de forma mais completa existe um site português (http://www.cantigas.fcsh.unl.pt) que apresenta um verdadeiro e complete banco de dados com todas as informações acerca das cantigas trovadorescas, assim como dos cancioneiros, apresentando inclusive imagens desses cancioneiros. Vale a pena conhecer!!!

*Nota geral retirada do site: http://www.cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=544&tr=4&pv=sim

 

Referências:

http://www.cantigas.fcsh.unl.pt

Com amor,

Jessica Marquês.

 

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