Cantiga de escárnio – Trovadorismo

A poesia satírica é um tipo de texto crítico que vai apresentar de forma direta ou indireta alguma visão divergente de determinada situação. No que se refere à produção da poesia trovadoresca, das cantigas medievais, temos dois tipos de cantigas satíricas:

Cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.

Nesse artigo apresentaremos as principais características da cantiga de escárnio que com uma crítica indireta vai falar mal de alguém, como ela não faz isso de forma objetivo e sim sugestiva, essa cantiga acaba por estimular a imaginação do leitor, apresentando-lhe uma nova expressão irônica, ele pode buscar outras pessoas a quem direcionar aquele dizer.

O grande elemento dessas cantigas é a ambiguidade, haverá desse modo, uma construção com duplo sentido com jogos semânticos e trocadilhos,  marcado pela ironia e pela sutileza da produção.  De forma indireta desenvolve uma crítica que ridiculariza o comportamento de nobre, ou por vezes, denunciam o comportamento de algumas mulheres que naquele contexto não seguia o código de amor cortês, mas não citam-se os nomes, apenas sugere.

CANTIGA DE ESCÁRNIO Pero Larouco

De vós, senhor, quer’eu dizer verdade

e nom ja sobr’[o] amor que vos ei:

senhor, bem [moor] é vossa torpicidade

de quantas outras eno mundo sei;

assi de fea come de maldade

nom vos vence oje senom filha dum rei

[Eu] nom vos amo nem me perderei,

u vos nom vir, por vós de soidade[…]

              Tradução:

Sobre vós, senhora, eu quero dizer verdade

e não já sobre o amor que tenho por vós:

senhora, bem maior é vossa estupidez

do que a de quantas outras conheço no mundo

tanto na feiúra quanto na maldade

não vos vence hoje senão a filha de um rei

Eu não vos amo nem me perderei

de saudade por vós, quando não vos vir.

Nota geral*

Perfeito contra-texto de uma cantiga de amor (mantendo muitas das suas expressões tópicas), retrato de uma senhora que, de superlativo, só tem a maldade e a falta de beleza. A cantiga é, ao mesmo tempo, um ataque indireto contra a filha d´um rei aludida no v. 6, e que Lapa1 supôs poder ser uma das filhas de Afonso X (suposição que a expressão filha d´emperador, usada no v. 15, parece reforçar); no entanto, dada a provável cronologia tardia de Pero Larouco e o facto de o seu percurso parecer sobretudo português, a dar-se o caso de ser uma das filhas do Rei Sábio, teria de ser D. Beatriz, mãe de D. Dinis (o que não seria impossível, conhecidas que são as más relações que o monarca manteve com sua mãe, sobretudo nos momentos iniciais do seu reinado).

*Nota geral retirada do site: http://www.cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=633&tr=4&pv=sim

Referências

1 Lapa, Manuel Rodrigues (1970), Cantigas d´Escarnho e de Maldizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses, 2ª Edição, Vigo, Editorial Galaxi

http://www.cantigas.fcsh.unl.pt

Até a próxima,

Jessica Marquês.

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